Por indicação de alguns alunos, comecei a assistir em DVD à primeira temporada de PUSHING DAISIES. Criado por Bryan Fuller (do time de HEROES), produzido por Barry Sonnenfeld (que dirige alguns episódios e é nome de sucesso no cinema: A FAMÍLIA ADAMS, HOMENS DE PRETO), o seriado (já cancelado) é o filho mais óbvio de O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN, desde a estrutura narrativa – apoiada em um narrador que, em tom formal, desfila uma sequência de acontecimentos improváveis – até o preciosismo da forma – em uma estética apurada que se desenvolve em cima, basicamente, das cores primárias.
Em vez de uma protagonista que trabalha em uma lanchonete, temos um protagonista que é dono de uma tortaria: a famosa “The Pie Hole”. Ele é Ned, o Pie Maker, como o narrador o trata, um homem perto dos trinta anos que vive obcecado por suas descobertas na infância: um toque especial para ressuscitar e tirar vidas.
Quando tinha nove anos, Ned viu seu cão ser atropelado. Porém, bastou um toque seu para que o cão ressuscitasse. Em seguida, sua mãe morre. Com alguma ideia do truque em suas mãos, ele lhe devolve a vida. Contudo, Ned descobre que o pai da sua vizinha, Charlotte, por quem nutre uma paixão infantil, morre no mesmo minuto. Desta forma, o menino descobre que pode ressuscitar qualquer ser morto – um morango, um pássaro, uma pessoa – mas, caso essa morte não seja “devolvida” dentro de um minuto, por escolha aleatória, o destino tira outra que esteja ali por perto. Concomitantemente, se ele tocar novamente no ser que ressuscitou, este é devolvido para a morte. É o que também ocorre com a mãe ressuscitada, na hora de ela lhe dar o beijo de boa-noite
Alguns anos mais tarde, Ned salva Charlotte, sua eterna namoradinha, do mundo dos mortos, mas, depois disso, sabe que não pode tocá-la novamente. Ele, ela e um detetive particular tratam de ganhar dinheiro em cima do dom do Fazedor de tortas. Tudo às escondidas de Olive, funcionária da tortaria e apaixonada por seu proprietário.
Além de AMELIE POULAIN, o seriado lembra também o divertido – e infelizmente já cancelado – DEAD LIKE ME (também criado por Bryan Fuller), que tratava de vida e morte, porém com outra abordagem, muito mais irônica. PUSHING DAISIES possui um frescor infantil. Seus episódios são amarrados por uma ingenuidade que nos remete aos desenhos animados. As tramas policiais lembram as trapalhadas de SCOOBY DOO. E é claro, a linguagem cinematográfica está presente nas belas referências a MOULIN ROUGE (nas viagens da câmera, em efeitos especiais, que entram e saem dos ambientes, mostrando a cidade lá fora) e a Alfred Hitchcock, em divertidas brincadeiras, como as cenas bizarramente clássicas de UM CORPO QUE CAI e OS PÁSSAROS.
Além do visual magnífico, saído de livros infantis (não esquecer que Sonnenfeld é, de origem, diretor de fotografia), propositadamente artificiais, outros pontos positivos do seriado são: a bela música, a edição frenética e, em especial, as atuações.
Kristin Chenoweth rouba todas as cenas como Olive. Premiada com o merecido Emmy em 2009, de melhor atriz coadjuvante em comédia, sua fala compulsiva solta os melhores diálogos da série. Lee Pace e Anna Friel (uma jovem Lena Olin) possuem a química desejada para o casal. Pace, aliás, tem o dom de interpretar pelo olhar – aqui, no caso, meio abobalhado. O ator, indicado aos maiores prêmios da TV norte-americana: Emmy, Globo de Ouro, tem no currículo um impressionante trabalho como travesti em SOLDIER’S GIRL, telefilme que também lhe garantiu mais uma indicação ao Globo de Ouro.
Ainda merece destaque a ótima dupla Ellen Greene e Swoozie Kurtz, figuras conhecidas dos fãs de seriados, que fazem as tias de Charlotte, ex-atletas do nado sincronizado, com um pé totalmente afundado no bizarro.
Uma das grandes culpadas da curta existência do seriado foi a greve dos roteiristas, fato marcante também na pequena extensão da primeira temporada: apenas NOVE preciosos episódios. Resta ao espectador desfrutar desses poucos, mas divertidos momentos, de PUSHING DAISIES. Infelizmente, como bem sabemos, esses seriados mais alternativos não “pegam” na TV norte-americana.
Uma curiosidade: o título é uma expressão mais suave do que six feet under: pushing up daisies… morto e enterrado.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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