(A ESTÚPIDA VISÃO SOBRE A SÉTIMA ARTE)
Em uma escaldante noite de fevereiro, estava eu atirado em minha cama à procura de algo decente que estivesse passando na TV. Mesmo prevendo o fracasso da minha jornada – afinal, 90% do que se concentra nesse entretenimento massificado é desprezível –, movido por algum impulso irracional, continuei zapeando. (In)Felizmente encontrei algo que considerava inicialmente assistível. Tratava-se do Manhattan Connection, uma espécie de mesa redonda na qual se debatem “n” assuntos, entre eles cinema. Sentados à mesa estavam cinco sujeitos: Diogo Mainardi – famoso colunista da revista Veja -, Ricardo Amorim, Lucas Mendes – o líder da mesa -, Caio Blinder e Pedro Andrade. Antes do programa, não tinha nenhuma opinião formada sobre os integrantes daquilo que eu descobria ser a Assembleia do Pedantismo e da Ignorância (API). Meu desprezo começou a tomar forma quando se iniciaram as discussões políticas, na qual os participantes opinavam de maneira débil e pretensiosa; um dos comentários mais infelizes foi o de Diogo Mainardi – escritor que, até aquele momento, era indiferente a mim, mas agora eu o repudio -, que disse “socialismo é coisa de analfabeto”. Os outros integrantes da API eram um pouco mais sensatos que Diogo, e discordaram da sua opinião.
Assim como um indivíduo que pega um filme no meio e que não acompanha o nome das personagens, eu não sabia o nome dos integrantes da mesa. Desta forma, criei natural e mentalmente um apelido para um sócio da API. Diogo Mainardi não necessitava de um cognome, pois já o conhecia; Pedro Andrade foi mencionado no decorrer do programa, assim tomei conhecimento de como ele se chamava; Caio Blinder e Lucas Mendes não possuíam nenhuma notável característica da qual se pudesse extrair uma designação alusiva a ela; Ricardo Amorim, devido a sua notável arcada dentária extremamente alva – nunca na minha vida eu havia visto dentes tão claros –, foi mentalmente batizado de Dente Branco (o nível de claridade de sua guarnição maxilar era tão elevado quanto o seu pedantismo; sua dentição era a manifestação física de sua pateticidade; ele poderia perfeitamente ser uma das personagens pedantes que constantemente aparecem nos filmes de Woody Allen – com a única diferença de que Amorim não possuía nenhum conhecimento.). Devo admitir que um dos membros da Assembleia não merecia estar lá; Pedro Andrade fazia comentários sensatos e parecia ter pesquisado sobre os tópicos do programa, ao contrário dos outros, os quais provavelmente foram dominados por uma absurda auto-confiança prepotente, a qual os fez julgar não necessária a busca por conhecimento sobre os assuntos a serem debatidos na mesa.
Mas o que isso tem a ver com a sétima arte? Como disse no primeiro parágrafo, um dos assuntos debatidos no programa é cinema. A vítima dessa arte pela qual sou apaixonado a que eu assisti ser açoitada foi A FITA BRANCA, último longa de Michael Haneke. O cineasta me encantou com FUNNY GAMES U.S e CACHÉ; além disso, já conheço a fama de sua última obra, a qual ganhou a Palm d’Or no Festival de Cannes (premiação que eu respeito muito) e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (essa premiação já não tem meu apreço). Pedro iniciou a discussão fazendo um belo comentário sobre o filme, dizendo que Haneke buscou uma estética clássica para a película. Dente Branco e Diogo não entenderam o comentário, e pensaram – se é que aqueles dois seres pensam – que o diretor pretendia que sua obra fosse um clássico, pretensão a qual Pedro jamais incluíra em seu comentário. O resultado da ignorância dos dois mais nobres membros da API foi uma seção de piadas cretinas sobre a falsa arrogância de Haneke. Espero que os outros espectadores tenham detectado o mal entendido, mantido suas mentes intactas após aquela lavagem cerebral putrefata, e não distorcido a imagem do austríaco. Outro trecho do debate o qual me irritou profundamente foi quando perguntaram a opinião de Diogo sobre Haneke. Mainardi disse que havia apenas visto um filme sobre dois garotos que entravam em uma casa e torturaram a família (ele estava referindo-se a FUNNY GAMES). O jornalista da Veja disse que havia achado o filme muito parado – acho que ele está mais acostumado com enlatados estadunidenses – e que o cineasta retratava de coisas muito pesadas – declaração que confirma meu pensamento anterior – e não o achava normal por causa disso.
Definitivamente não suporto quem confunda a obra do realizador com o próprio realizador – ou quem não consegue distinguir o gosto do indivíduo e o próprio indivíduo. Ilustrando minha idéia: Chan Wook-Park não é um sanguinário por ter filmado OLDBOY, e quem assistiu à Trilogia da Vingança não é um feroz assassino. Em uma declaração de Guillermo Arriaga – roteirista da Trilogia da Perda, filmada por Alejandro Gonzalez Iñarritu – mostrava sua falta de apreço por indivíduos artisticamente sádicos, como Quentin Tarantino. O desrespeito ao gosto dos outros devido a uma tentativa frustrada de transmitir benevolência a qual se transforma em uma cegueira cultural é de uma inocência ímpar. Não bastasse isso, Caio Blinder começou a dizer erroneamente que o nome da película a qual Diogo Mainardi se referia era CACHÉ; Pedro Andrade educadamente tentava retificar o colega, falando que o nome do filme era FUNNY GAMES. No entanto, as tentativas do singular membro da API foram em vão, pois Blinder não apenas dizia o que ele pensava ser o nome do filme, ele metralhava o equivocado título em cima de todos. A Assembleia parecia um zoológico com aquela saraivada de equívocos; isso apenas comprova a jactância dos componentes da mesa ao não pesquisarem sobre os assuntos debatidos.
Para finalizar a discussão cinematográfica, Dente Branco declarou que filmes como os de Haneke não eram divertidos, mas que divertido era AVATAR. Por tratar-se do intelecto de Ricardo Amorim, não traduzi a frase como um sarcasmo, mas sim como uma afirmação que revela o vácuo que há na caixa craniana desse ser humano. Pedro Andrade reproduziu meu pensamento de que A FITA BRANCA pode ser muito mais divertido do que AVATAR para alguns.
A mídia brasileira televisiva está fadando seus telespectadores à eterna ignorância. Enquanto esses não abrirem seus olhos para a lavagem cerebral que sofrem, a cena cultural nacional será sempre a mesma: a valorização da cultura vazia, reproduzindo a ideia de que a arte que nos faz pensar é chata, entediante, monótona. A TV vende o Rebolation, vende os blockbusters, vende o vazio cerebral. O pior de tudo: há quem compre. Para a apreciação da verdadeira arte – pois não considero arte vazia uma arte – é necessário uma mudança de mentalidade que é feita com o questionamento sobre aquilo o que nos é oferecido na TV. A televisão é – em suas devidas proporções – a nossa teletela de 1984, de Gerge Orwell.
Daniel Brito - Um estudante de engenharia ambiental que tenta fugir do ponto comum que é viver em uma Alphaville.
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Nossa Daniel, você leva o Manhattan a sério? Relaxa. Faz que nem eu que assito porque acho o Diogo Mainardi lindo. Caso você discorde, assiste por causa do Pedro.