Uma rodada de filmes não vistos no cinema, assistidos em DVDs:
ANTICRISTO
Um dos filmes mais polêmicos dos últimos anos, Lars Von Trier teria escrito o roteiro de seu último filme em meio a uma enorme depressão. Nas coletivas de Cannes, o diretor proclamou-se o melhor do mundo, dizendo estar acima de Deus – e talvez do Diabo. Não achei a obra absolutamente polêmica, apenas entediante, com um desfilar de psicologismo simbólico, um roteiro que força para parecer erudito e que fez a alegria de meia dúzia de pseudo-cabeças que têm orgasmos com este tipo de narrativa. Charlotte Gainsbourg (premiada em Cannes como melhor atriz) tem a melhor atuação de sua vida, e aí talvez esteja o mérito de Von Trier. Willem Dafoe é o esquisitão de sempre. O prólogo, ainda que um tanto apelativo, é belissimamente filmado. O que mais incomoda, na verdade, é aquela gratuidade em certas cenas “vamos chocar”, com mutilações e violência que servem de muleta para as carências de um filme que foi superdimensionado. Ok, sou suspeito. Não gosto muito do diretor. Achei DANÇANDO NO ESCURO um festival de pieguice, mas gostei de DOGVILLE.
VALSA COM BASHIR
Impressionante. A animação que traz a Guerra do Líbano é um delírio. O incrível é que na memória recente, busco as cenas e elas não são mais animações, tal a beleza, o perfeccionismo, o cuidado do traço. Ari Folman e David Polonski, o roteirista e o diretor de arte, constroem uma obra única, impactante. Ao tentar recuperar suas lembranças da guerra, um cineasta entrevista ex-combatentes. O resultado é um documentário animado, inédito, poético e com uma trilha sonora belíssima. Quem ainda não viu, corre para uma hora e meia de uma experiência única.
THIS IS IT
O documentário, sucesso mundial, dirigido por Kenny Ortega, traz os ensaios de Michael Jackson sem nenhum sentimentalismo mórbido. Não há a antecipação: o nosso astro vai morrer. Os depoimentos são genuínos, de músicos, bailarinos e demais artistas que estão, simplesmente, em êxtase por poderem participar daquele baita evento que nunca vingou. É de cortar o coração observar o cantor perfeccionista cuidando de todos os detalhes, com um vigor e ao mesmo tempo uma delicadeza e educação raras no meio artístico. O mais duro é perceber que, de fato, tais shows seriam maravilhosos e entrariam para a história.
O BÚFALO DA NOITE
O roteirista Guillermo Arriaga é um dos meus favoritos. Adoro AMORES BRUTOS, 21 GRAMAS, BABEL. Depois de alguns desentendimentos com Alejandro González Iñárritu, o diretor das citadas obras, ele investiu com Jorge Hernandez Aldana e fez este O BÚFALO DA NOITE. E que decepção! Mais uma vez apoiada no vai e vem dos acontecimentos, a história não linear nunca decola, nem surpreende. Diego Luna é um don Juan que pega todas, incluindo a namorada do melhor amigo, um cara esquizofrênico que se suicida. Com cenas pretensamente fortes – como a tentativa de apagar a tatuagem do búfalo com uma tesoura –, apoiadas em uma erotização repetitiva e praticamente estéril, o roteiro possui personagens soltos, frouxos, e a história, com ar noir, é um festival de clichês e imagens simbólicas que chegam a irritar por suas pretensões, nunca resolvidas. Enfim, uma pena.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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