Moacyr Scliar: ”Se estou empolgado, posso atravessar a noite escrevendo. Posso deixar de comer, de dormir”
Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre em 1937. É médico e escritor. Autor de mais de cinquenta livros, entre os quais A Guerra no Bom Fim, O Exército de um homem só, Mês de cães danados, Os Voluntários, O Centauro no Jardim, Ciclo das Águas, A estranha nação de Rafael Mendes, O Cavalo da República, A Majestade do Xingu, Max e os Felinos, A mulher que escreveu a Bíblia. Recebeu importantes prêmios por suas obras, como o Jabuti em 1988 e 1993, além do Açorianos, o Erico Verissimo, o da Associação Paulista de Críticos de Arte, o da Academia Brasileira de Letras.
Entrevista por Paulo Ricardo Kralik Angelini
Sendo um escritor reconhecido, ainda há insegurança na hora de escrever? Como funciona tua autocrítica?
Moacyr Scliar: Claro que há insegurança na hora de escrever. Literatura é um empreendimento sem qualquer garantia. Cansei de jogar fora contos e mesmo romances que não deram certo. A autocrítica ajuda, mas é preciso não se deixar engambelar pelo canto de sereia do ego. Maturidade, nisso, é essencial.
O que muda no teu dia a dia quando estás no processo de criação de um livro?
Moacyr Scliar: Tudo. Se estou empolgado, posso atravessar a noite escrevendo. Posso deixar de comer, de dormir. Infelizmente (ou felizmente, porque a vida não é só escrever) este estado dura pouco. Terminado o livro vem uma enorme sensação de vazio e uma ânsia melancólica pelo livro seguinte.
Quais são tuas influências literárias?
Moacyr Scliar: Hoje caminho com minhas próprias pernas, então sou menos influenciado. Mas aprendi com numerosos escritores: Erico Verissimo, Jorge Amado, Clarice Lispector, Franz Kafka, Isaac Babel, Tchekov…
Quem é a primeira pessoa que lê teu livro? O editor ou alguém próximo?
Moacyr Scliar: Em geral, a minha mulher, depois o editor.
Qual a importância de um evento como a Feira do Livro de Porto Alegre?
Moacyr Scliar: É um grande evento, e muito importante. Não só por causa das coisas que lá acontecem, em termos culturais (palestras, lançamentos) mas sobretudo por causa do clima de festa, que atrai o leitor, e mais ainda o leitor jovem.
Qual a tua opinião sobre sites na internet que estimulam a criação literária e a discussão na rede?
Moacyr Scliar: Sou favorável a tudo que comunica, tudo que conecta. Escrever é uma coisa solitária, e quanto mais partilhada for, melhor para a pessoa que escreve. Não acredito que ninguém se torne escritor com sites ou com oficinas, mas que ajuda, ajuda.
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Produzido em 2002, às vésperas da Feira do Livro, em um especial do site www.argumento.net de nome “LETRAS DO SUL“, o espaço rebatizado TECE A ESCRITA traz o processo criativo de conhecidos (e novatos, à época) escritores das terras do sul, a relação com a literatura, influências e a internet.
Todas as entrevistas foram concedidas via email.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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