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categoria: PEQUENAS TRAPAÇAS

CAPÍTULO 7: O CAFÉ DA MANHÃ

Ela vai tomar café

Por Júlia Tiburi Grashoff

 

Como sempre, acordei sem a ajuda do despertador que, por sinal, era inexistente no quarto da Michele. Fiquei olhando pro teto e pensando no que fazer. Estariam eles acordados? Iria ele pro trabalho? Putz, eu nem sei com que ele trabalha. Se bem que nem teve tempo pra falar de detalhes como esse naquela noite fatídica. Como seria bom ter uma borracha que apagasse todas as cagadas da gente.

 

 

Espero que eu não cruze com ele sem, pelo menos, escovar os dentes. Ô bafão esse teu, Anabel! Sem falar dos olhos cheios de remela misturada com rímel! Engraçado, não tinha nem um espelhinho no quarto da irmã dele. Isso sem contar que eu não consigo nem pensar direito antes do meu xixi matinal. Vamos . Abro a porta bem devagarinho e vejo que o caminholivre e a porta do banheiro aberta. Beleza. fui eu pra minha operação de reconstituição urgente-urgentíssima!

 

A minha imagem no espelho é digna de pena. Cabelo que mais parecia um ninho de rato, cara borrada de maquiagem. Mas tudo bem, eu não nasci assim, né? Tem conserto. Escova os dentes, lava a cara e usa, sutilmente, o tônico e o creme da Michele. É uma emergência, pô! Fico feliz em ver que a minha cara não parecia mais um Picasso.

 

Visto as minhas roupas e me dirijo para a sala. Surpresa minha ao ver a mesa posta para o café da manhã e o meu gostosão de camisa, gravata, calça bem passada. Xiihh, será que ele viu aquele dragão que saiu do quarto da irmã dele?

 

Que gato ele tava! E eu , com cara de Rebordosa. Isso, definitivamente, não é justo! “Eu tenho que sair pro trabalho mas achei que tu poderia estar com fome. Espero que goste, tem torrada, café e frios, tome o tempo que tu precisar, não te preocupa com a Mi, ela vai dormir até tarde, jet lag, sabe?”

 

Eu não ouvi metade do que ele falou, tudo o que eu pensava era como alguém poderia parecer tão perfeito ao acordar e ainda ter tempo pra se preocupar com uma pateta como eu. Quanta gentileza! Como eu pude pensar tanta coisa ruim desse gentleman?

 

Olha, eu estive pensando, vou pegar o carro da Mi e te dar uma carona até a oficina do Joca pra você poder pegar sua bolsa, ok?” A bolsa! então que me dei conta que tava sem um puto tostão, sem chaves, sem nada!

 

Foi que eu me toquei que nem tinha aberto a boca ainda. “Puxa, você tá sendo tão legal e nem me conhece direito… valeu. Posso usar teu telefone pra ligar pra agência e falar que eu vou chegar atrasada?”

 

Ele deu um sorrisinho. O que será que ele tá pensando? Fiz a minha ligação e me servi de café. “Onde tu trabalha?”, ele perguntou. “Eu sou produtora de moda“. Ele disse “Ah, moda hein?” e tomou um gole de café. Mais uma vez, aquele sorrisinho tomou conta do rosto dele. O que será que isso significava?

Eu simplesmente não conseguia abrir a boca. O medo de falar mais uma besteira era grande. Esse cara te deixa nervosa, né? Ele deve ter estranhado mas, como diz o ditado, “Silêncio vale ouro“. Terminamos o café e seguimos pro carro. Ele, todo educado, abriu a porta pra mim. Eu não conseguia pensar em mais nada a não ser naquela visão dele de terno e gravata! Eu tenho o maior tesão por caras de terno e gravata. Aliás, caras de uniforme também. Bombeiro, exército, marinhavale tudo!

 

, satanás! Para com isso menina! não tem problema de sobra, não? tava sentindo as bochechas quentes, provavelmente eu tava vermelha de vergonha. Tomei um café meio corrido e partimos. Em poucos minutos, chegamos à oficina. Engraçado, ontem, esse mesmo trajeto, pareceu uma eternidade

 

Bom, aqui estamos” disse ele. “É, olha, muito obrigado por tudo que você fez por mim noite passada, foi muito legal mesmo!” E eu enfatizei o “mesmo“. “Que é isso? Não foi nada. Pode confiar no Joca, viu? Ele cuida dos meus carrosanos. Sem falar que é um dos meus melhores amigos. E tu te cuida também, não seria legal se algo acontecesse com uma gatinha como tu. Eu tenho que ir agora, tchau“, ele disse e partiu.

 

Fiquei vendo o carro dele se afastar e pensei como seria bom se ele me ligasse pra gente poder recomeçar, dessa vez, sem desastres. Foi que eu me dei conta, ele NÃO pediu meu telefone! E agora? Ai, não, mais essa não! É claro, eu sei onde ele mora, é fácil conseguir o telefone dele, mas depois desse fiasco todo, quem diz que eu tenho cara pra ligar pra ele?

 

Anabel, definitivamente, você tem Phd em idiotice. Isso é bom pra tu aprender, sua tonta! “Ah Joca, hey, se lembra de mim? Sou a Anabel, amiga do Carlos Alberto, deixei meu carro aqui noite passada!” E o tal do Joca me olhou da cabeça aos pés, fez que sim com a cabeça e deu um sorrisinho malandro, igual ao do Carlos Alberto.

 

Qual seria o problema com esse homens hoje?, pensei. Será que eu tô cagada?

 

Ele vai tomar café

Por Paulo Ricardo Kralik Angelini

 

Passei a noite inteira empurrando minha irmã, que me abraçava, me chamava de Sofia entre sussurros e choradelas. Mas devo confessar que, dormindo, claro, me dei conta que estava agarrando a Michele e me aconchegando nela. Ô seca! Tudo por culpa da… Foi quando me lembrei de que ela AINDA estava na minha casa. Meu prédio poderia desabar a qualquer momento. Senti um gelo percorrendo minha espinha, aquela guria deu problema! Nem pude pensar direito nisso e o despertador tocou. Levantei, tomei um banho bem demorado. Saí do banheiro e qual não é minha surpresa quando vejo minha irmã de , fazendo o café. Preparou uma mesa caprichada, sorte que a dona Biju tinha feito compras no dia anterior.

 

Perguntei pra que tudo aquilo e Michele, que se dizia mística, falou ter certeza de que eu e aquela loirinha tínhamos uma conexão. “ se for em desastres!”, falei, mas sem muita convicção. “Impressiona essa mulher, Carlos, porque ela combina com você. Além de ser muito gostosaQual é o signo dela?”.

 

Dei uma risada. Como é que eu iria saber o signo daquela guria? “Ela deve ser Ar, o que seria ótimo porque você é Fogo. É uma relação física, Carlos, seu fogo precisa do oxigênio dela, você é um leonino característico“.

 

Fiquei olhando pra Michele e não acreditei. vinha ela de novo com esse papo de mapa astral, dizendo que eu era o Leão típico, narcisista, egoísta, blablablá. Mas deixei ela falar, afinal tava com saudades de mim. “Ela é aquário, pode crer!”, me disse.

 

Arrumou tudo com capricho e entrou de volta pro quarto, disse que ia dormir mais um pouquinho. Achei tão querido ela ter feito tudo aquilo. Fiquei lendo o jornal. Uns vinte minutos depois ouço o barulho da porta do quarto de Michele. Sai um vulto de meu Deus, o que era aquilo, a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo? Que cabelo era aquele, que coisa horrível… Ah, bem que a Sônia sempre acordava primeiro. Ia dar um trato e depois voltava a deitar, como se nada tivesse acontecido. E eu ficava no bico… Essas mulheres são todas iguais! Fiquei ali, pensando na loirinha, quando ela saiu do banheiro. Outra pessoa. O que não faz a maquiagem, hein, minha filha! Por isso que as mulheres exaltam esses produtos químicos. Não fosse por eles

 

A loirinha me olha e arregala os olhos. Mas que coisa, a guria não sabia disfarçar. Me olhou de cima a baixo com um ar meio embasbacado. Deve ser por causa do meu terno. Sei que eu estou elegante, me vesti pra impressionar mesmo, a guriazinha tá de quatro por mim. Depois ela olha a mesa, eu aproveito a boa maré e dou aquele discurso, pra ela não ter pressa, comer com calma, que EU tinha preparado um cafezinho especial pra ela, blablablá.

 

Ela quieta, me olhava com um ar apaixonado. Sim, se dizem que as mulheres são transparentes, Anabel era que nem água. Outra vez fui sentindo um carinho por ela, uma sensação estranha. Puta que pariu, que é isso? Vai te apaixonar por ela? Tu, um cara solteiro convicto, bonitão, cheio de mulher correndo atrás de ti? Nem te lembra quanta guampa tu meteu na pobre da Sônia… faz nem dois dias que vocês brigaram e quer te amarrar de novo? Vai curtir a vida, meu, transar, transar, transar até ficar com as coxas molengas!

 

Ela pediu o telefone emprestado pra ligar pra agência. Por meio segundo, fantasiei que ela fazia parte de uma agência de acompanhantes. Especialistas em sexo pago. Mas não, ela nunca que… Pergunto: “Onde tu trabalha?” Ela é produtora de moda! Muito bem. Especialista em fazer o simples transformar-se em belo. Rainha do retoque. Sim, sim, faz sentido.

 

Combinei de dar uma carona pra Anabel até o Joca, pra ela ver como estava o carro. Me agradeceu outra vez por tudo o que fiz. Pensei em pedir o telefone dela, mas resolvi fazer uma surpresa. Sabia onde ela morava. Passava todos os dias por ali, anotaria o endereço e procuraria no guia. Ligaria sem Anabel saber. Não que eu seja romântico, mas pra finalmente mostrar pra gostosona o que o pai aqui sabe fazer, heheh…

Nos despedimos, e fiquei de olho naquele corpitcho que se rebolava todo. Aposto que era de propósito. E vi, quando ela estava de costas, que a calcinha dela estava aparecendo. Tigresa. Grrrrrr…

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “CAPÍTULO 7: O CAFÉ DA MANHÔ

  1. Prezados Paulo e Julia
    Ha tempos atras (bastante tempo, rs) eu acompanhei a historia de Carlos Alberto e Anabel.
    O tempo passou bastante, e eu acabei fazendo um curso profissionalizante de Teatro aqui em SPaulo.
    Bom, eu gostaria de adaptar a história desses dois amados para os palcos, eu dirigindo.
    Como posso entrar em contato com vocês para que isso se realize ?
    A ideia seriam quatro atores (dois casais), um casal fazendo o Carlos e a Anabel e um outro casal fazendo Michele e Waltinho, e eles revezariam também os terciários (tio chico, dona elza, etc).
    Obrigado e parabens pela historia

    Ricardo

    Posted by Ricardo Guerra | November 11, 2010, 16:45

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