Ele recebe uma visita
Por Paulo Ricardo Kralik Angelini
Não acredito no que vejo. Minha irmã está de volta, justamente hoje!? Michele me olha, perturbadíssima. Peço para ela falar baixo. “Como é que tu esqueceu, Carlos?”
Tento resumir o péssimo dia que tive. Me esqueci completamente… Ela me aponta um calendário em cima da mesa, no qual eu fiz um círculo enorme, verde limão, no dia de hoje, e escrevi: buscar Michele. “Eu me esqueci, desculpa.” Michele me abraça e começa a chorar. Não, eu não acredito… Virei poste pra desesperados, agora. Não é possível, outra vez! “Maninho, eu terminei tudo com a Sofia. Foi horrível!”.
Graças a Deus que a minha irmã é super discreta. Chora baixinho, no meu ombro. Será que a Anabel já está dormindo?
“Não fica assim…”, tentei reanimá-la. Ela disse que a viagem foi horrível, que a Sofia se engraçou por um cara gay em San Francisco e não quis voltar. Eu conto pra ela que, por coincidência do destino, briguei com a Sônia. “Eu odiava aquela mulher brega…” disse minha irmã. “Maninha, só uma coisa… tem uma pessoa no teu quarto…”
Ela mal me escutou, sabia que eu era incorrigível, hehehe, mal tinha acabado com uma já tinha outra peituda na minha casa. Aquilo me fez tri bem, sabe? Mas Michele chorava mais, dizia que estava infeliz, que não deveria ter voltado, ninguém gostava dela, eu fazendo uns schiii de vez em quando pra ela falar mais baixo quando ela se exaltava, e eis que surge Anabel, vestindo a camiseta da qual Michele mais gostava, no meio da sala, nervosíssima: “Não aconteceu nada… nada… foi uma noite horrível, ele é um cara legal… mas eu não sabia… devia ter imaginado, esses homens… mas nada…”
O discurso fragmentado da loirinha me deixou perplexo. Minha irmã olhou atônita também, mas com certeza porque adorava loiras. Disse, então: “Não precisa te explicar, eu sou a irmã dele, Michele!”
Tive pena da minha loirinha, sabe. Foi algo surreal. Ela se sentou no sofá e começou a chorar de novo. “Eu só faço burrada… eu só faço burrada…”, repetia. Fiquei estático, perto ainda da porta de entrada, ao lado de minha irmã, ainda em mim abraçada, uma mala enorme aos nossos pés. Michele me olhou, aqueles olhares que dizem: “Faz alguma coisa.”
Mas eu não aguentava mais ser o compreensivo, tava com sono, com tesão e com raiva. E não sei por que, dei um grito assustador, uma coisa meio Tarzan, que dizia um: “CHEEEEEEEEEEEEEEEEEEEGAAAAAA”. Michele deu um pulo e a loirinha ficou paralisada. Meu Deus, como é que eu fui perder o controle?
Daí me dei conta que não tinha perdido o controle bosta nenhuma, deve ter sido alguma alucinação do sono que me judiava. Eu continuava ali, de pé, imóvel, sendo trucidado pelo olhar de minha irmã mais velha. Falei: “Oh, Anabel, não fica assim, pô, chega de chorar…”
Me aproximei, abracei aquele corpinho trêmulo, o tigrão outra vez deu sinal de vida, de certo me perguntando: “como é que é, vai ou não vai!?”, eu tentando disfarçar minha excitação num momento tão dramático, mas é que tenho muito tesão por mulheres frágeis, dessas que se desmancham quando são tocadas, sabe?
Michele foi até nós, se sentou no sofá. Minha loirinha pediu desculpa pra ela, a Mi recomeçou a chorar. Eu no meio das duas. “Anabel, aquele quarto que tu tá, é da Michele”. Minha irmã se antecipou: “Imagina que vamos tirar a Anabel do quarto no meio da noite. Fica lá, tranquila, que eu durmo com o Carlos.”
Pronto, era só o que me faltava, ter que dividir minha cama com a minha irmã. No estado que eu tava, ia agarrar a maninha no meio da noite sem me dar conta! Anabel sorriu, dizendo que um cara legal tinha de ter uma irmã legal. Disse “Boa Noite! Quero logo que esse dia acabe…” e foi para o quarto.
Minha irmã olhou pra ela e, depois que a loirinha entrou, disse, cheia de classe: “Seu filho da puta, onde é que tu descobre essas gracinhas?” Eu me senti todo bobo, mas ela completou: “Com certeza ela é lésbica! Viu o jeito que ela me olhou?”
Ok, reconheço. É de família!
Ela recebe uma visita
Por Júlia Tiburi Grashoff
Eu tentei, tentei, mas não conseguia dormir. Não dava, simplesmente não dava pra acreditar na estupidez daquele dia. Justamente quando tu conhece um cara tão legal, Anabel? Ele deve estar achando que eu sou uma idiota e com toda a razão. Mas uma coisa é certa: se o cara, mesmo assim, te ligar, então até que as coisas não estão tão perdidas assim.
Talvez seja hora de acreditar mais na tua intuição e menos no horóscopo. Talvez ele realmente tenha sentimentos por ti. Mas peraí, que é isso? Vozes? Ouço um blablablá seguido de uns “schii”. Era voz de outra mulher. Sabia! Todos aqueles cremes no banheiro eram sinal de que uma mulher também morava aqui. Merda!
Bom, por um lado eu fico aliviada em saber que ele gosta da coisa, mas por outro… tem namorada? E traz outra pra casa? No caso, eu sou a “outra”!!! Cafajeste, ordinário. Não, ele não passa de um galinha. Isso mesmo, um galinha com G maiúsculo! Anabel, Anabel, tu já viu esse filme antes, não viu? Eu sabia, homem é tudo igual. Foi assim com o merda do Alcindo, tá sendo com esse e será com todos! Ah, o Alcindo, um bosta que vivia rodeado de mulheres e dizia que elas só eram amigas. Pois sim! Nos tempos de faculdade ele dizia que ia estudar pras provas com elas, mas na verdade isso era só desculpa pra transar com elas!
Eu me lembro muito bem das “amiguinhas” dele tirando sarro da minha cara. Elas faziam questão de contar pra todos só pra chegar nos meus ouvidos! E os “chás de sumiço”? E as idas pra praia sem me avisar? O cara não tinha consideração nenhuma. Como eu pude ser tão cega? Acho que eu só atraio cafajeste mesmo. Que raiva! Alcindo, do fundo do meu coração, eu espero que o teu pinto caia!
Mas o que eu tô fazendo? Pra que pensar nesse “looser” arrogante? E o Carlos Alberto? Que esperança que ele vai ter algo comigo depois dessa. Vou acabar com isso e é agora. Vou lá dizer pra ele e pra “titular” que eu não tive nada com ele e nem terei. Que ele não passa de um galinha e que ela deveria abrir bem os olhos! Coitada dela, deve ser uma infeliz!
Vou pra sala e dou de cara com os dois. Ela chorando no ombro dele. Ele acariciando a cabeça dela. Argh, nojento. Espero que o teu pinto caia também!
Mas como sempre, na hora H, eu penso uma coisa e falo outra. Fui logo dizendo, ou melhor, gaguejando, que não tinha acontecido nada e que ele era “um cara legal”! “Legal”? De onde tu tirou essa? Mas eis que o destino, esse danadinho que sempre me faz de palhaça, me apronta mais uma. A guria olha pra mim e fala que é irmã dele! E eu ali, já achando que o cara era o maior pilantra. Pior ainda, rogando praga! Que feio, Anabel.
Como já era de se esperar, após o vexame, eu abro o berreiro. Dessa vez o Carlos Alberto não fazia nem ideia do motivo do meu choro. Era culpa, consciência pesada pra burro! Eu simplesmente não conseguia parar de pensar no quão injusta eu fui. Mal conhecia o cara e já tirando conclusões precipitadas e, o que é pior, tudo o que ele fez foi me ajudar, pagar o táxi e me oferecer um teto pra dormir. Eu fui a única que fez cagada! Anabel, assim não dá, te interna, sua retardada!
E eu lá, perdida nas ideias e com um sentimento de culpa maior que fila pra concurso publico Acaba com esse berreiro, menina! O cara vai encher o saco desse jeito!
Nisso, ele chega pertinho e me abraça. Um abraço forte, com aquelas mãos másculas. As mãos de pedreiro que tanto me enfraquecem as pernas. Ele tenta me acalmar e diz que o quarto em que estou era da irmã dele, a Michele. Ela, figura muito gente fina, por sinal, logo diz que não tem problema, que vai dormir com o “mano”. Que amor de pessoa!
Me desculpei mais uma vez, agradeci pela gentileza e fui pro quarto. O melhor a fazer agora era dormir e esquecer da tragédia que foi esse dia. Além do mais, amanhã é sexta e eu tenho que trabalhar, vou ter um dia difícil na agência, mais os problemas do carro pra resolver, que merda isso! Coloquei a cabeça no travesseiro e rezei. Pedi aos céus pra que ele nunca descobrisse que eu roguei praga pro pinto dele cair…
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Olá, Paulo!!!!
Muito bom o texto!!!! Como sempre, aliás. Engraçadíssimo!!!! ADOREI!!!!
Abraço, e Bom São João pra vc!!!
Ai, Paulinho, que saudades da epoca que a gente escreveu a nossa historinha! Que legal poder relembrar! Beijos
Julinha