Ela volta pra casa dele
Por Júlia Tiburi Grashoff
Sua retardada, como é que tu foi te esquecer justo da bolsa? Tu não pode ser mais besta, né, Anabel? E agora? O que tu vai fazer? Chamar a Ana Clara? Não, a coitada recém teve neném e não cabe incomodá-la. Chamar os teus pais? Nem pensar! Tudo menos os sermões da dona Elis Regina. Pronto! Além de sem-carro, virei sem-teto!
Olho pro Carlos Alberto, ele abre um sorrisinho que me estremece as pernas e diz: “Olha, já tá tarde, o Joca provavelmente já está dormindo outra vez. Vamos fazer assim: você vem pra minha casa, e amanhã cedinho a gente vai pra oficina pegar a tua bolsa, ok?”
E agora? Tu não tem alternativa, tem? O negócio vai ser aceitar o convite. Mas diz pra ele que você dorme na sala! Ah, ele tem quarto de hóspedes? Bom, melhor assim. Já pensou se ele morasse numa quitinete que nem tu? Ai, mas como é que eu vou fazer? Eu mal conheço o cara e vou pra casa dele sem minha escova de dentes, sem minha necessaire com os meus batons, rímel e afins… sem meus creminhos, desodorante. Saco, amanhã de manhã eu vou estar parecendo um monstro e o cara vai se assustar de vez, ainda mais depois do fiasco de hoje! Primeiro tu fica bêbada com um Martini. Unzinho! Depois tu entra na bunda de um fuca e, pra completar, vai acordar que nem um dragão! Ah sim, tu nem pijama tem! Mais essa ainda! Ok, sem pânico. Tu é uma mulher inteligente, tem curso de primeiros socorros e fala inglês fluentemente. Tu vai sair dessa!
Enquanto isso, ele tá aqui do teu lado, segurando as chaves de casa e dizendo que tudo que tu precisa é uma boa noite de sono, que amanhã será um outro dia. Aliás, isso me lembra a Scarlett O’Hara. Ai, Anabel, para de viajar!
Chegamos ao apartamento dele. O meu copo de martíni ainda tava em cima da mesa.
Não posso nem olhar praquele copo. Maldito copo! Tudo porque tu queria dar uma relaxadinha. Porque tu não conseguia lidar com a imagem dele tomando banho. Tarada, pervertida! “O quarto de hospedes é aqui, a cozinha fica no fim do corredor e o banheiro você sabe onde é, né?”, ele disse com um sorrisinho malandro. Como assim, eu sei onde é? Ah, essa não! Ele percebeu que eu fiquei cuidando. Tu dá muito na cara, Anabel. “Obrigada. Eu nem sei como te agradecer, você foi muito legal comigo hoje.”
Foi aí que eu criei coragem e dei um beijo nele. Mas um beijo caprichado, sabe? Um beijo de agradecimento. Mas caprichado! Dei até uma apertadinha na bundinha dele. Agora ele pode até achar que eu sou pateta, mas não pode dizer que eu beijo mal.
Antes de ir pro quarto, ele me dá uma camiseta dele pra eu usar como pijama. E como cheirava bem a camiseta. Esse sim, é um homem de classe, educado, honesto. Difícil encontrar um cara assim nos dias de hoje. Ele ainda disse que eu encontraria no banheiro uma escova de dentes novinha, era daquelas de avião, mas que por uma noite dava pro gasto.
Fui pro banheiro me trocar e escovar os dentes. Fiquei olhando pros perfumes dele. Todos importados. A escova de cabelo. O creme de barbear. Vários frascos de vitaminas. Humm, o cara se preocupa com a saúde. Também, depois daquele jantar, tem mais é que compensar o estrago. E? O que era aquilo? Creme antirrugas? Ihhh, creme antirrugas? Estranho. Ah, que nada, vai ver que ele é vaidoso. Hoje em dia, os homens fazem até lipoaspiração. Não, ele não tem pinta de frutinha. Bom, se bem que até agora ele se mostrou tão educado, nem tentou nada. Ai meu Deus! Não! Pior ainda! Ele tem namorada! É isso! Sabia, sabia. Um cara tão perfeito assim tinha que ter dona.
Escova esses dentes, veste a camiseta e trata de dormir. Saio do banheiro, e encontro ele na sala vestindo um roupão com um copo de uísque na mão. Ele tava tão sexy com aquele roupão. Taquicardia. Falta de ar. Tarada. Te comporta. “Você quer tomar um drinque antes de dormir?” Como é que ele ainda tem coragem de me perguntar isso depois de todo aquele mico por causa de um martíni? “Não, obrigada, sem drinques por hoje, aliás, por um bom tempo. Eu sou fraca pra bebidas. Mais uma vez, obrigada por tudo. Boa noite”.
Vou pro quarto de hóspedes, me atiro na cama e enterro a cabeça no travesseiro. Acho que não vou conseguir dormir. Só a ideia dele estar no quarto ao lado me dá palpitação. Dorme, Anabel! Um carneirinho… Dois carneirinhos… Dorme! três carneirinhos… , quatro…
Ele volta pra casa dele
Por Paulo Ricardo Kralik Angelini
Minha primeira reação seria deixar a mulher ali. Mas que inferno! De onde eu fui tirar uma pateta dessas? Pelo amor de Deus, tá certo que ela é uma gracinha, mas loirinhas pequeninhas dessas tem aos quilos por aí, todas iguais, vestindo pretinho básico com cara de “sou única”. Ela me olha com um olhar de “.. me perdoa… snif, snif…”. Sinto pena dela, coitada, tentando ser especial, tentando me mostrar que era uma guria perfeita, fez tudo errado!
E ali, com o cara do táxi me olhando tipo: “como é que é, vai matar essa bola ou não?”, tive a nítida certeza de que não queria nada com ela, a não ser uma bela noite de gemidos e sussurros. Não queria essa atrapalhada no meu pé, e eu tendo que consertar as besteiras dela. Mas por uma noite…
Disse pra ela que tava tarde, que o Joca já devia estar dormindo outra vez, que ela podia passar a noite na minha casa. A tontinha se fez, mais uma vez, louca que tava pra ir pra lá. De certo esqueceu de propósito as chaves, só pra ficar grudada no pai aqui. Louquinha por uns chamegos. No fim, óbvio, ela aceitou. E fomos.
Paguei uma fortuna de táxi, ela se desculpando. Que lenga-lenga. A voz da criatura já começava a me irritar. Mas era só olhar pros coxão da loirinha que tudo passava. Entramos no apê, mostrei pra ela onde ficava o quarto que minha irmã dormia, mas disse que era de hóspedes pra criar um certo impacto. Não ia dizer pra ela que o apê era do meu pai, que a minha irmã era tão dona dele quanto eu – apesar de a Michele estar passando um mês na Califórnia com sua namorada. Imagina, a patricinha ia ter um chilique se soubesse que minha maninha é sapata… No meio dos meus pensamentos a loirinha me tascou um beijo. Não. Não foi um beijinho qualquer. Ela fazia contorcionismo com a língua, uma coisa de louco, meu tigrão já estava a mil, aí ela inventou de dar uma apertada na minha bunda. Pilantra, tu sabe o que eu quero… Fui direto pro pescoço da criatura mas ela se afastou um pouquinho, fez uma cara de “…agora, não…” e como não sou homem de levar um não também me fiz de nem-tô-pra-transar-agora.
Fui ao quarto, peguei uma camiseta enorme da minha irmã, porque ela só usa roupa larga mesmo, entreguei pra Anabel. A loirinha cheirou gostoso a camiseta, e foi ao banheiro. Ficou horas lá dentro. De duas, uma: ou deu uma senhora cagada, porque mesmo as bonitinhas cagam, é da natureza, ou ficou vasculhando minhas coisas. Devia estar olhando o arsenal de produtos de beleza da Michele, tentando imaginar se eu poderia ser uma drag-queen.
Coloco meu roupão Armani, presente da Sofia, minha cunhadinha podre de rica, que namora minha irmã há uns cinco anos, e preparo a última tática civilizada para levar aquela fazida pra minha cama. Pego um copo de uísque. Ela sai do banheiro, olha o meu roupão, eu ofereço um drinque fazendo um ar muito compenetrado, outra vez os olhinhos apertados, o gelo levemente ressonando no vidro. Mas ela diz NÃO! Mas como, sua fazida? Não me acha gostosão? Não tá a fim de me dar uns amassos? O que é que essa pilantra tá pensando? Eu com todo esse tesão, só vou ficar no preju? Nananinanina…
Ela me dá um tchauzinho ridículo, eu me esforço para ser querido no “Boa Noite!”. Ela entra no quarto da minha mana. Fecha a porta. Eu fico ali, com o copinho de uísque e uma vontade louca de invadir o quarto e… mas que isso! Nem tô pra essa loira aguada… Nem é tão bonita assim, tem um dente meio lascado, o cabelo deve ser pintado…
Penso no péssimo dia que tive quando a porta abre. Dou um pulo. A luz se acende. Michele me olha, brabíssima, e me diz: “Tu não ficou de me buscar no aeroporto, seu bosta?”
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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