Ele rumo à danceteria
Por Paulo Ricardo
Entramos no carro, ela diferente, meio tonta. Não acredito que essa pinta ficou gambá com o martini. Ligou o som, ABBA, aumentou o volume e disse: “Tu gosta do ABBA?” Mas enrolou a língua de uma maneira que me fez ficar preocupado. Coloquei o cinto de segurança, perguntei qual casa noturna de que ela gostava. Ela falou sobre uma nova perto lá de casa. Fomos. Ou pretendíamos ir.
Meia dúzia de quadras após minha casa, a loirinha começa a conversar comigo sobre como o ABBA é importante na sua vida, olhando pra mim ao invés de olhar pra frente e CAPUTZ… Bateu na traseira de um fuca verde-limão.
Ela toda sem jeito, perguntou se eu tinha me machucado. Na frente, um casal gordinho sai do carro berrando. Que vergonha, eu queria sair correndo. “Tu não olha pra onde anda, sua barbeira?”
Minha loirinha saiu do carro com um cartão na mão: “Eu tenho seguro, moço, eu tenho seguro…” A mulher gorda do carro da frente chorava. Eu saio do carro. Pessoas se aglomeram em volta. A loirinha, toda sem jeito, pede para eu manobrar o carro, tirá-lo do meio da rua. “O radiador foi pras cucuias”, eu disse. Ela sorriu. Não entendeu, nem sabe o que é radiador… Nem eu, porque o carro dela nem tinha mais radiador.
“Tem de chamar um guincho!” Aí caiu a ficha. Ela fez uma cara de choro, eu fui até ela, não chora, não chora… Buááááááá… Lá estava eu, envolvido num acidente automobilístico pela segunda vez no dia, no meio de uma rua movimentadíssima, passando a mão nos cabelos perfumados de minha loirinha facona e gambazinha, ouvindo um casal breguíssimo gritar com a gente.
Tive que dar uma de macho “Cala essa tua boca, ô seu infeliz, ela já não disse que vai pagar tudo, não vê que ela tá nervosa?” O homem, metade do meu tamanho e o dobro do meu peso, ficou quieto na hora. Manobrou o carro para estacioná-lo. Minha loirinha me olhou com ares de “meu herói”. E nos beijamos, longamente, no meio da avenida. Larguei ela, manobrei o carro. Apareceram os fiscais de trânsito. Acertamos tudo. O fuquinha quase não tinha amassado. Uma testemunha disse: “Fuca é um carro super-resistente!” Quase dei um soco na cara da figura, já de olho na minha loirinha, que fungava baixinho.
Casualmente tinha uma delegacia de polícia próxima, fomos até lá a pé. Ela pediu um milhão de desculpas, eu já não agüentava mais, só queria ir pra minha casa. Mas fui outra vez educado, disse um “Que isso, gata, isso acontece!”
“Acho que a nossa danceteria dançou!”, ela disse, se esforçando num trocadilho infame. “Ah, tu acha? Eu tenho certeza, sua estúpida!” Mas não tive coragem de dizer o que pensava. Falei: “Não te preocupa, não faltarão outras oportunidades!”
Nós e o casal chegamos à delegacia. Acertamos tudo outra vez. Voltamos para o local do acidente. Os gorduchos foram embora, ligariam amanhã para combinar o conserto. O guincho chegou. Eu perguntei pra ela. “Qual a tua oficina?” Ela me olhou como se eu estivesse falando grego, e respondeu: “Tu tem alguma de confiança?”
Pronto, tudo eu… Já vi tudo, uma dondoquinha que deixa tudo pro seu homem resolver. Tudo bem, poderia deixar o carro dela na oficina do Joca, meu amigo, onde aliás, residia meu carro atualmente. Fomos até lá. O motorista do guincho, incrivelmente bem-humorado para aquela hora da noite, contando milhares de piadas sem graça, minha loira e eu, breguíssimos, passeando naquelas caminhonetezinhas-guincho pela cidade.
Liguei pro Joca, acordando ele e a família inteira. O cara tem a minha idade e cinco filhos! Foi meu colega de primeiro grau. O Joca me esperava na frente da oficina quando o guincho entrou na rua. Descemos, apresentei o Joca pra ela, ela pro Joca, e disse “Esse aqui é meu carro!” Ela olhou, confusa, mas não perguntou nada. Devia estar esgotada.
Combinamos de telefonar pro Joça no dia seguinte. Rachamos um táxi. Morava do outro lado da cidade, quase dormi no caminho. Ela sempre se desculpando. Eu sempre amenizando. “É aqui”, ela disse pro motorista. Daí ela procurou a bolsa e me disse: “Ai… tu não vai acreditar… Deixei minha bolsa dentro do meu carro!”
Eu olhei pra ela e disse: “Tudo bem, eu pago a corrida!”. Quase chorando, ela respondeu: “Tu não entendeu… as minhas chaves estão na bolsa!”
Ela rumo à danceteria
Por Júlia Tiburi
Putzgrila, aquele martini pegou legal. Mas tu não aprende mesmo, né, Anabel? Tu sabe muito bem que tu é fraca pra bebida, que fica alegrinha até com xarope e mesmo assim tracou um copo martini inteirinho! Bom, mas agora já é tarde e a cagada tá feita, talvez o ar da noite te ajude. Vamos pro carro e ligo o meu cedezinho esperto do ABBA. Será que ele gosta desse grupo? Sugiro irmos a uma danceteria recém inaugurada.
Raios. Além do martini, o perfume dele tá me deixando louca. A cena dele saindo do banheiro só de toalhinha também não sai da minha cabeça! Sua assanhada! Se recomponha, mulher! Que é isso? Daqui a pouco, vai dar na cara que tu tá louca pra pular no pescoço dele. Fala, fala qualquer coisa antes que ele se dê conta!
Blablablá… por que eu tinha um vinil do ABBA e blablablá… ai… não!! Freia, freia que ainda dá tempo…
BUM!
Merda!
Mas tu tinha que fazer das tuas, né? Que vergonha! Justo no primeiro encontro com o cara tu bate o carro! Num fuca ainda por cima! Maneta! Tarada e maneta! Ai, eu quero sumir, que ódio!
Um casal, que necessitava urgente de uma temporada num spa, saiu aos berros do fuquinha. Eu odeio esse tipo de situação, eu fico sem ação. O que eu faço? Seguro! Tu tem o seguro que o Alcindo fez pra ti. Mostra a carteirinha do seguro pro homem falante. Peço para o meu gentil acompanhante tirar o carro do meio da rua e ele me diz que alguma coisa tinha ido pras cucuias. E lá eu tô preocupada se alguma coisa foi pras cucuias? O quê? Chamar o guincho? Tá, tá, tá.
Um bando de curiosos começa a se formar em nossa volta. Eu comecei a sentir aquela pressão na garganta típica de quem tá prestes a cair no choro. Não, Anabel, não chora na frente dele! E no primeiro encontro! Pelo amor de Deus, não! Buaaaá! Lá vem ele todo gentleman me oferecer um lencinho de papel.
O cara tamanho XXL não pára de gritar comigo e o meu deus do pescoção manda ele calar a boca na maior autoridade! Adoro cara macho! Isso é que é homem e não aquela maria-mole do Alcindo. Aliás, por que raios numa hora dessas tu ainda te dá ao trabalho de pensar no Alcindo, hein? Será que tu não tens problemas suficientes?
Depois do pito no berrão, ele me tasca o maior beijo, no meio da rua, naquela bagunça toda! Anabel, esse cara é diferente dos outros. Definitivamente diferente. Ele não é daqueles que só pensa em te levar pra cama. Esse cara tem pedigree. Sorte nossa que tinha uma central de polícia próxima do local do acidente. Fomos caminhando de mãozinhas dadas. Droga! Se não fosse pela tua patetice tu poderia estar numa boa dançando com ele. Se bem que, por um lado, foi até bom que isso tenha acontecido de cara. Deu pra perceber que tu podes contar com ele. Me senti tão segura sabendo que ele estaria lá pra me ajudar, tomar conta de mim… Sim, ele é diferente. Arriscaria até dizer que ele já sente uma coisinha por ti, Anabel. Eta guria de sorte!
Resolvemos tudo rapidamente na polícia e, ao voltarmos pro meu carro, ele me pergunta se eu tenho alguma oficina de confiança. O quê? Eu? Sei lá! O Alcindo era quem cuidava dessas coisas. Eu só dirijo e abasteço o carro. Mas como ele era um homem completo, obviamente que ele conhecia uma oficina. Tão gentil e prestativo, sem nem mesmo reclamar!
Pegamos uma carona com o cara do guincho. Até que ele era engraçado. Aliás, a situação era por si só engraçada, havíamos saído pra dançar e acabamos fazendo uma ronda pela cidade no caminhão do guincho. Com certeza ainda daremos muitas risadas desse episódio.
O cara da oficina era tri camarada. Um tal de Joca. Legal, seu Joca. O meu gatão apontou pra um dos carros e disse que era o dele. Viu só? Ele também é barbeiro que nem tu!
Decidimos rachar um táxi até a minha casa. Coitado, me acompanhando até o outro lado da cidade. Eu nem tenho como me desculpar e agradecer. Ele tava sendo tão cavalheiro. “É aqui”, eu falo pro motorista do táxi. Vou pegar a bolsa. Cadê a bolsa? Ah, não! Deixei a bolsa dentro do carro com o meu dinheiro e, o que era pior, as minhas chaves! Merda! Era só o que faltava. Ele se oferece pra pagar a corrida mas eu digo que esse não era o maior dos problemas. As minhas chaves tinham ficado na bolsa!
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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