Ele vai jantar – Por Paulo Ricardo
Não precisei esperar muito. A loirinha desarmou sua defesa, mexeu outra vez no cabelo, tirando aquela pipoca que teimava em enfeitá-la involuntariamente. “Tudo bem, aceito o convite”. Fiz aquela cara de feliz, as mulheres adoram ver que elas oferecem a felicidade para nós. Saímos do cinema, sem trocar nenhuma outra palavra. Até que fui obrigado a fazer a mais cretina das perguntas: “Como é o teu nome?” É horrível esta fase, as pessoas deveriam sair na rua com um crachá de identificação. A loirinha caminhava ao meu lado, mas nem olhou pra minha cara quando disse: Maria Lúcia. Ao menos ela não perguntou o meu de imediato. Fiquei aguardando pra responder, mas ela disse que estava com fome e, em seguida, disse: “Ai, eu adoro a massa daquele restaurantezinho ali”.
Fomos até lá, entramos e pedimos o cardápio. Eu estava nervoso que a loirinha não perguntava o meu nome. Também já tinha passado do timing de eu dizer: muito prazer, sou Carlos Alberto. E aquilo me irritou. Que mulher fazida… o que ela queria dizer com aquela coisa de não querer saber meu nome? Se fazendo de gostosa? De não tô nem aí pra ti, quando eu vi que ela me secou de tanto encarar no cinema?
Estava ali, falando sobre uma vez que foi na Itália e comeu um macarrão delicioso, “… uma loucura, o molho tinha um sabor diferente, daí eu perguntei pro garçom…” e não parava de falar, tava se achando, a baixinha, “… tu acredita? Uma delícia, o queijo desmanchava na boca…” e nem queria saber o meu nome? “… ai, mas no fim nem foi tão caro…”
Claro, claro, eu fazia com a cabeça e com o meu sorriso cínico de quem tava adorando a conversa, ou melhor, o monólogo, porque era só ela que falava, ininterruptamente. Putz, que saco, só o que me faltava encontrar uma tagarela. E parecia tão tímida. Não existe mulher tímida. É só dar a corda que elas não param de falar.
Quando ela encerrou suas memórias italianas eu, claro, não deixei por menos. “É incrível como a gastronomia pode nos revelar detalhes tão próprios da região, né?” Meu, ela ficou surpreendidíssima. Seu olhar congelou. Deve ter me achado muito culto, teorizando sobre a gastronomia. Não sei da onde tirei aquilo, eu que detesto comer a gastronomia local quando viajo, não trocando meu Big Mc por nada, em nenhum lugar do mundo.
Ela pensando que eu não era apenas um cara bonito. Modesto e inteligente, te digo, loirinha. Ela logo quebrou a sua cara bonitinha de espanto e emendou outro relato – o que eu fui inventar – e desta vez ela estava na Grécia e graças aos deuses gregos a garçonete chegou. Uma gracinha, de piercing no nariz, ruivinha, deliciosamente compacta. Pedimos nossos pratos: ela um treco verde, claro, tinha que se mostrar diferente, uma massa de espinafre metida a besta. Eu, a lasanha de sempre, quatro queijos, e um chopinho, por favor! “Eu não bebo álcool”, disse a loirinha, e pediu aqueles nojos diet que têm gosto de remédio. Ok, loirinha, não bebe álcool e nem quer saber meu nome.. Cretininha. Vamos logo com isso que eu quero ainda ter uma bela noitada contigo.
Ela falou a noite inteira. Tão tagarela que contou várias viagens, emendando uma atrás da outra. Eu, que conhecia quase todos os lugares que ela tinha visitado, dizia um ou outro: “Que maravilha! Sim, eu também fui lá! Que ótimo!” Meus olhos estrategicamente espremidos, dando um ar concentrado. Mas, na verdade, observava seus seios, talvez siliconados, que quase pulavam pra fora, me chamando.
A guria na Califórnia e eu querendo vê-la peladinha por aqui mesmo. Depois em Paris, e eu já visualizando tudo no meu quarto. Querida, vai ser uma transa inesquecível, mesmo que você seja tão arrogante que nem queira saber meu nome. Tá certo, não é lá essas coisas, Carlos Alberto, mas era a única informação extremamente necessária da noite. E o tempo passou, eu sempre querendo falar alguma coisa, ela sempre me interrompendo para contar outra que era “o máximo”, e dali a pouco ela olhou no relógio e fez um “NOOOOOOOOOOSSA, que tarde!!” Também, não calou esse matraca…
Eu sorri e coloquei a minha mão na mão dela. Não, óbvio que eu não disse: “Não sou tão estúpido como você pode estar pensando”. Peguei na mão dela e disse, cínico: “Tu é tão divertida! Tu não gostaria de sair pra dançar, Maria Lúcia?”
Ela riu nervosa, e eu comecei a pensar que ela esteve realmente muito nervosa a noite toda. E pagando a conta, enquanto a ruivinha me olhava maliciosa (responde de uma vez, se não eu convido a garçonete, sua fazida), ela deu mais um gole na sua nãoseioque diet, e soltou, numa risada muito sexy: “Meu nome não é Maria Lúcia!”
Ela vai jantar – Por Júlia Tiburi
Pois é, a carne é fraca que só vendo. Aceitei o convite do gostosão. Meu Deus, e se ele perceber que eu achei ele tesudo? Sem vergonha! Ai, mas deixa de ser besta, o que tem demais?
Ah, adoro aquele restaurante italiano, vou perguntar se ele topa. Minha vó sempre diz que homem que come massa é homem de coração… Nunca entendi o que isso significa, mas deve ser positivo. Ele aceitou! Ponto numero um! Minha vó ficaria orgulhosa da pesca de hoje!
“Qual é o teu nome?” Droga, por que ele tinha de perguntar o meu nome, hein? É tão bom manter um suspensezinho… Sabe aquela coisa de lidar com o desconhecido? Acho tão excitante! “Anabel”, respondi…
“Ah, Maria Lúcia, nome bonito!”
O quê? Mas como foi que ele entendeu Maria Lúcia? Sabia, eu sabia, tão bonito que tinha que ter um defeito: era surdo feito uma porta!
“É Anabel”, falei de novo. Espero que agora ele tenha entendido. Mas ele não me respondeu… “E qual o teu nome?”, perguntei. “Ah, sim, sim, também tô com fome!”, ele respondeu pra minha surpresa! Ah, não, isso tem que ter explicação… talvez seja o barulho do Shopping Center, ou talvez ele esteja nervoso, tadinho. Tudo, menos surdo… não com esse corpão, não combina!
Uma vez no restaurante, eu pedi a minha pasta de espinafre que eu adoro! Mas o meu gostosão em compensação pediu uma superlasanha ao triplo colesterol e recheada de triglicerídios. Esse cara vai dar trabalho, me surpreendi projetando um futuro com ele. Mas que é isso, Anabel? Para de fantasiar, tu recém conheceu o bofe.
Ele pediu um chopinho. Eu bem que queria pedir o meu Chianti, mas não acho legal beber no primeiro encontro, ainda mais que vinho desce fácil, fácil e me deixa num fogo!
A gente tava naquele silêncio… Que coisa mais constrangedora, eu odeio silêncios. Sabe aquela coisa de ficar no “Pois é, né?, Restaurante legal esse, né?” Esquece! Eu fiz faculdade de comunicação social, portanto sou comunicóloga e tenho que me comunicar. Mas falar sobre o quê? Ah, sobre comida, né? Afinal, estamos em um restaurante. Se bem que, a julgar pelo pedido dele, acho que ele adora uma comidinha de risco arterial, como os Mc Donald’s da vida. Aposto dez pila comigo mesma!
Enquanto eu falava das minhas aventuras gastronômicas no exterior, ele me ouvia atentamente! Ai meu Deus, ainda franzia os olhinhos de um jeitinho tão sexy! É tão difícil encontrar um homem com a capacidade de ouvir as mulheres. É, acho que a minha vó tá certa com relação aos homens que comem massa. E o jeitinho que ele apoiou o queixo naquelas mãos de pedreiro. Eu adoro mão de pedreiro! As minhas coxas iriam ficar tão bem com aquelas mãos…
Ele até ignorou a garçonete quando ela veio perguntar se ele queria mais um chope, mal olhou pra ela. Também, aquela garçonete era tão sem graça. Ah, lindinho, tu não me escapa… Anabel, Anabel. Te aquieta, não dá bandeira sua assanhada. Sabe como é, né? Se ele for mesmo surdo, isso significa que ele tem os outros sentidos mais aguçados. Já pensou se ele tiver o poder de ler a mente? Ah, tá, agora tu viajou bonito na maionese, mas também, como é que eu posso me concentrar com esse deus grego na minha frente? Como é que era mesmo aquilo que as minhas amigas diziam? O tamanho do pescoço era diretamente proporcional ao tamanho do… Ou será que era o pé que era proporcional? Bom, de qualquer forma ele tem um pescoção… e um pé de presença, é, acho que o resto deve seguir a mesma proporção.
Sua pervertida! Pára de pensar nisso, sua mulher barata! Ninfo, é isso mesmo, tu não passa de uma ninfomaníaca. Vai te tratar! Tá, mas tu basicamente monopolizou a conversa durante todo o jantar. E agora já tá tri tarde. “Nossa que tarde!” eu falei. E o deus grego do pescoção me pega pela mão e me convida pra ir dançar. Mas antes eu tenho que esclarecer uma coisa, meu filho: “Meu nome não é Maria Lúcia”.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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