Um drama épico cotidiano, uma saga casual… PEQUENAS TRAPAÇAS narra as vidas cruzadas de um casal que acidentalmente se conhece, se interessa, se envolve e não consegue mais se largar. Cada um escondendo pequenas coisinhas, não tendo coragem quase nunca de falar o que realmente pensa, engolindo sapos, inventando desculpas, disfarçando o afeto, neurotizando o sexo, revelando a insegurança. Cada um construindo a seu modo a relação, apoiado numa ou noutra trapacinha. Em 2001, a Júlia Tiburi Grashoff, colunista de DIÁRIO DE BORDO e, hoje, de WHO’S YOUR MAMA?, quando ainda morava no Japão, deu a idéia de escrever uma história a dois. O Paulo Ricardo encarou o desafio. Muita conversa via e-mail, dribles no fuso horário e o resultado está aqui. Que seja infinito enquanto dure… Confira e boa leitura!
Capítulo 1: O Encontro
Ela vai ao cinema - Por Júlia Tiburi
Um calorão desgraçado e eu à toa em casa, resolvi que iria pegar um cineminha. Pelo menos eles têm ar condicionado, o que é bem melhor que esse meu ventilador de teto.
Tomei um banho, vesti uma calça preta e uma camisa, com um zíper estratégico, preta também. Cheia de segundas intenções, hein? Não, não tô! Eu gosto dessa camisa, além do mais, adoro preto! Passei um rimelzinho, um batonzinho e fui pro shopping.
Comprei minha pipoquinha e fui pra sala, sentando na última fila pois, se eu sento nas primeiras, me dá dor de cabeça, acho muito perto da tela… As luzes se apagam e, nisso, uma pessoa senta bem no meu lado. Putz, o cinema tá quase vazio, por que esse cara tem de sentar logo do meu lado?
Mas que perfume, meu Deus, que perfume bom… Sabem aquele perfume másculo? Eu sou louca por perfumes! Ele vestia uma bermuda cáqui… Olho discretamente para as coxas dele. Que coxas! Sabe aquela coisa de jogador de futebol? Meu Deus, ele põe a mão esquerda sobre a coxa esquerda. Ai que mão! Forte, máscula! A essas alturas, eu já nem queria mais saber do filme, tudo que eu queria ver era o rosto do dono daquela coxa, daquela mão, daquele perfume. Olho pelo canto do olho e percebo que ele tem ombros largos, meu Deus me ajuda! Mas só tu mesmo pra ir pro cinema e se encantar com uma mula sem cabeça. Mas que mula…
Duas horas mais tarde, o filme termina. Agora eu vou satisfazer a minha curiosidade. As luzes se acendem, mas ainda não tenho coragem de olhar para ele. Ao invés disso, eu me levanto mais que depressa e deixo cair o pacote cheinho de pipoca (obviamente eu havia me esquecido delas). Ai que vergonha! Pronto, sua acéfala, tu estragou tudo, agora sim que tu não vai ver esse cara de novo.
Eu me abaixo para juntar as pipocas e ouço ele dizer: “Nossa, você deve ter gostado mesmo do filme, hein? Até se esqueceu das pipocas! Posso te ajudar?” Nisso, eu, pra lá de sem graça, olho para ele. Meu Deus! Olhos verdes, cabelos castanhos e que boca… Me beija, me beija, me beija.
“Claro que sim”, respondo. Ficamos a juntar as pipocas e a colocá-las de volta no copo, até que as nossas mãos tentaram juntar a mesma pipoca. Olhos nos olhos. Olhos nas bocas. “E já que nem comeu as pipocas, tu deve estar com fome. Vamos comer um lanche por aqui? Eu faço questão de te convidar.”
Sim, me leva, me leva daqui… Me joga na parede e me chama de argamassa!!!! E ele ainda disse que fazia questão! Adoro cara decidido! Será que se eu aceitar ,ele vai me achar facinha? “E daí? Posso contar contigo? Vamos lá?” – ele completou
Que dilema! Logo agora que tu tinha prometido pra ti mesma que daria um tempo com o sexo oposto, depois daquele dramalhão com o Alcindo. Bom, é bem verdade que tu também prometeu que viraria vegetariana, mas se atracou naquela picanha gorda semana passada no churrasco na casa da Ana Clara. E aquela vez que tu prometeu que não iria mais colecionar os bonequinhos que vêm dentro daqueles chocolates? Acabou colocando todos numa estante na cozinha e é tri orgulhosa disso. Sua cafona! Cafona e assanhada! Cafona, assanhada e sem palavra!
Ele vai ao cinema - Por Paulo Ricardo
Sabe aqueles dias em que tudo dá errado? Briga com a noiva, perde a hora do dentista e ainda bate com o carro? O pior, claro, foi o carro. Novinho. A noiva era antiga, cinco anos chatíssimos, tava na hora de acabar mesmo. E o dentista, uma revisão normal. Nada assim, imperdível. Mas o meu carro… putz. Então sem dentista, sem noiva e sem carro, tirei o terno, tava com tanta raiva que nem tomei banho, vesti uma bermuda, perfume pra disfarçar e me mandei pro shopping do lado da minha casa. Tava calor, era de tardezinha, com certeza não iria encontrar nenhum conhecido por lá.
Olhei as vitrines com cara de enfado, não conseguia parar de pensar no meu carro. E na desgraçada da Sônia, a minha noiva. Minha ex-noiva. Foi ela quem destruiu o meu carro. Ficou atordoada com a nossa briga, pegou a minha chave e foi-se. Fiquei feito um idiota na rua, olhando meu carrinho novinho que se ia, esperando que ela desse uma volta na quadra pra fazer aquele charminho típico que as mulheres adoram fazer, e voltasse. Voltasse são e salvo – o meu carro.
Mas ela demorou. Eu perdi a hora do meu dentista. Veio duas horas depois, com cara de desculpa, meu amor. Tinha batido numa placa e amassou toda a frente, a desgraçada. Foi a minha vez de pegar a chave e deixar ela ali. Idiota! Chorando. Ela. Ela chorando, é óbvio. Eu nem aí, só com fúria. Com tanta raiva que nunca mais queria olhar pra aquela cara. Que shopping cheio pra essa hora, essa gente não tem nada pra fazer? Putz, lá vem o Ivo. E ela chorando… chora, desgraçada, mas quem vai pagar a franquia sou eu. O Ivo entrou numa loja, que bom que nem me viu, eu fui pro lado dos cinemas. Uma sessão começando, acho bem gostosa aquela atriz loirinha. Por que não? Adoro loirinhas.
O cinema praticamente vazio, deve ser uma bosta este filme. Foi então que eu vi a atriz do filme sentada, me encarando. Fui mais perto e, claro, não era ela, mas era bem interessante, toda de preto, loirinha, eu adoro loira de preto. E já que estava puto da cara mesmo fui entrando na fila em que ela estava sentada. Ela me espiava de cantinho de olho, eu tava ligado, e me sentei bem do lado dela, cara de pau!
Acho que exagerei no perfume pra disfarçar a falta do banho. Percebia suas pequenas narinas se abrirem e se fecharem, tentava reconhecer o meu cheiro, como um cachorrinho. E ela olhando pra mim, eu quase dizendo pra ela que me visto superbem, tenho vários ternos, a bermuda era uma exceção. Ela olhando com um arzinho esnobe, esse cara que vem de bermuda e se senta do meu lado, e ela toda gostosona!
Uma ova, ela tava é secando as minhas coxas. Humm, se ligou no pai aqui? A safadinha nem consegue disfarçar. Eu coço de maneira bem casual a coxa e ela não pára de olhar. Eu já louco pra agarrar ela ali mesmo, mas calma, tu tá com tanta sorte hoje que vai acabar sendo expulso do cinema.
O que acabou foi o filme: nem prestei atenção. A loirinha se levanta e dê-lhe pipoca pra tudo que é lado. Tá nervosa! E eu faço um olhar 43 e digo: “Ah, tu não tirou os olhos das minhas pernas, hein, sua sacaninha… até esqueceu suas pipocas”. Mentira. Eu queria ter dito, mas disse: “Puxa, você deve ter adorado este filme, não? Até se esqueceu das pipocas. Quer uma mãozinha?” Ela com aquela cara sem graça, toda timidazinha. Só falta ser virgem, e me secando, me encarando. Voz rouca. Mais um ponto pra loirinha, que com a voz rouca me diz: “Claro que sim”. Perceba. Não foi nem “sim”, o que poderia dar um ar casual, tipo: “tá, seu chato, me ajuda…” Foi algo mais, muito maior, aquele claro que sim meio que dizia: “Por favor, me ajuda, eu te quero”
Começou a juntar as pipocas, eu ajudando, toco de propósito na mãozinha macia dela, ela toda arrepiada. Seu canalha! Um sorriso que demorou a se formar, eu sabia que ela tava na minha e tasquei um: “Vamos nos conhecer melhor? Na minha casa ou na tua?” Mentira. Covarde! Bem que eu queria. Não sou sempre assim, tão tarado, só em dias ocasionais, tipo quando dá tudo errado.
Para não pular etapas, voltei a ser um cavalheiro, e disse com voz mansa, voz de um cara legal e sensível: “E já que nem comeu as pipocas, tu deve estar com fome. Vamos comer um lanche por aqui? Eu faço questão de te convidar”
Mulher adora ouvir eu faço questão. Ficam todas arrepiadas. Ela me olhou assustada. Só falta ser virgem. Meio rindo, meio tirando o cabelo da cara, juntava as pipoquinhas com uma classe. Era de família, a menina. Definitivamente, não era virgem. Nenhuma virgem junta uma pipoca daquele jeito, toda popozuda. E me olhava, com suspense. Vai ou não vai, minha filha. Tu tá louca pra ir que eu tô vendo.
Deu um sorriso aberto, um sorriso bem sorriso mesmo, acomodou o pacote de pipoca no colo, tinha uma no cabelo, tadinha, toda nervosa. E eu completei o convite de forma irrecusável: “E daí, posso contar contigo? Vamos lá?”
Paulo Ricardo - Formado em Publicidade e Letras, doutorando em literatura brasileira/portuguesa, professor de Redação, Língua Portuguesa e Literatura e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras.
Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si.
Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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