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categoria: PAPO CULT

PAULO BETTI: QUANDO O CINEMA BRASILEIRO VIRA UM CAFUNDÓ

Paulo Betti é dos mais atuantes e competentes atores brasileiros. Passeia dos bastidores da tevê à direção teatral com a mesma desenvoltura e o resultado é sempre muito bom. São 25 anos de história e uma lista enorme de personagens, alguns inesquecíveis como Lamarca (do filme homônimo de Sérgio Rezende), o juiz Odorico Quintela (da minissérie ENGRAÇADINHA), e Atum, o malandro da tribo que fazia a ponte com o mundo civilizado, da peça OS IKS (Peter Brook, Jean-Claude Carrière e Denis Cann).

Como diretor de teatro foram muitos espetáculos marcantes, de grande empatia com público e crítica, como CERIMÔNIA POR UM NEGRO ASSASSINADO (Fernando Arrabal), NA CARRÊRA DO DIVINO (Carlos Alberto Sofreddini), e FELIZ ANO VELHO (Marcelo Rubens Paiva e Alcides Nogueira). Tive oportunidade de assistir a este espetáculo no Teatro Villa-Lobos, no Rio, em 84. Com ele, Betti ganhou todos os prêmios de Direção naquele ano. Ele relembra entusiasmado: “Ninguém esquece da cena inicial do Marcos Frota pulando do alto da escada e mergulhando no escuro”. Daí partiu um convite do ator Sérgio Britto para dirigir ASSIM É, SE LHE PARECE, de Luigi Pirandello. Mais uma montagem inesquecível, uma irretocável direção do ator, que também conferi quando da temporada no Teatro dos Quatro, Rio de Janeiro. No elenco, a saudosa Yara Amaral, José Wilker, Nathália Thimberg, Ary Fontoura, Cristina Pereira e o cearense Nildo Parente, citando apenas alguns.

Pode ser no cinema, no teatro, na televisão. O trabalho de Paulo Betti sempre se destaca. Este ano marca a estréia na direção de Cinema com CAFUNDÓ, um dos mais tocantes filmes da safra 2005, exímia direção de atores a provar a necessidade de por trás das câmaras haver alguém que confere ao Ato de Representar a importância devida. E Betti sempre está fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo. Agora, por exemplo, além de estar fazendo o circuito de festivais nacionais e internacionais com CAFUNDÓ, faz Malhação, apresenta o programa semanal de entrevistas “Novos Nomes”, no Canal Brasil, dirige o musical “A Canção Brasileira”, de Francisco Iglesias, no CCBB carioca, e ainda coordena as muitas atividades da Casa da Gávea (RJ) e do Instituto Cultural Vila Leão, em Sorocaba, sua cidade natal.

O filme teve sua primeira exibição pública durante o 7º Festival Internacional de Cinema de Brasília, mas a grande platéia mesmo estava na 33ª edição do Festival de Gramado, onde CAFUNDÓ conquistou 4 Kikitos e o prêmio RGE de Incentivo à Realização Cinematográfica.

Conheça agora um pouco mais sobre Paulo Betti, suas idéias e a estréia dele no cinema como diretor.

Como nasceu a idéia de CAFUNDÓ?
Paulo Betti: A história do preto velho Nhô João de Camargo me encanta desde criança. CAFUNDÓ conta a história do escravo João de Camargo, que encontra através de uma iluminação mística uma possibilidade de ser alguém no mundo dos brancos. É baseada em fatos reais e está relacionada com minha infância, porque a igreja que ele construiu ficava no caminho da roça do meu avô. CAFUNDÓ aborda o sincretismo religioso característico do Brasil sob a ótica delirante de João de Camargo, vivido de forma brilhante por Lázaro Ramos. No elenco, estão também Leandro Firmino, Leona Cavalli, Francisco Cuoco, Flávio Bauraqui e Luis Mello. O filme é a oportunidade de mostrar a visão peculiar que tenho sobre a história dos negros. A sensação de ver este projeto finalizado é maravilhosa!

E dirigir no cinema, como é?
Dirigir cinema é completamente diferente de dirigir teatro, onde você só dirige os atores. No cinema não, é uma equipe enorme que você tem de dar conta. Uma aventura enorme de egos e vaidades, de urgências de tempo. É um mar mais revolto. Mas gostei muito da experiência, tenho vontade de continuar nisso.

Você diria que foi um passo muito difícil?
Não, pois dividi a direção com Clóvis Bueno (O BEIJO DA MULHER-ARANHA e CASTELO RÁ-TIM-BUM). Trabalhamos juntos muito tempo. Ele é um experiente e talentoso diretor de arte e isso ajudou muito a estruturar uma base para o filme. Tivemos também uma produção muito competente. Estive cercado de gente muito experiente. Talvez, se estivesse sozinho, me afogasse.

E como nasceu a idéia do filme?
Desde que eu era menino, com cinco anos, visitava meu avô, um imigrante italiano que era meeiro de um fazendeiro negro em Sorocaba. Era uma situação muito insólita, pois poucos negros tinham a propriedade da terra e era difícil ter um imigrante italiano trabalhando nessas condições. Eu o visitava na roça e via a casa grande do ponto-de-vista da senzala. Era uma visão invertida. No meu bairro, 95% da população era negra. Era um quilombão. Então, toda a minha visão da negritude, da cultura negra e das minhas relações na infância passaram por essa ótica. É uma história fascinante, que me conquistou desde a infância. No caminho da roça do meu avô havia uma igreja misteriosa, que ainda existe, dedicada a esse homem, João de Camargo. Ele foi escravo e criou uma religião da qual foi sacerdote e papa, um misto de espiritismo, da religião ancestral africana e do catolicismo, as três religiões formadoras do núcleo sincrético da criança dele.

O filme tem uma riqueza de cores e de sincretismo religioso impressionante. É como um mergulho no Brasil profundo. Quando é que você percebeu que ali estava um material rico para ser explorado num longa-metragem?
A história do filme é uma obsessão minha, da vida inteira. Eu tentei de todo jeito botar essa história na peça NA CARRÊRA DO DIVINO, em 79, mas não tínhamos um ator negro no Pessoal do Victor, aí não deu. Quando voltei dos Estados Unidos, onde fiz curso de Documentário, resolvi ir a Sorocaba e fazer um filme sobre a história de minha mãe, que teve 15 filhos, analfabeta como meu pai. Na hora deu aquele pudor bobo de deslocar uma equipe para filmar minha mãe… Como era Dia de Finados e ela gostava de ir ao cemitério, fomos pra lá e então filmei o túmulo do nhô João. Cheguei em casa, filmei minha mãe e ela falou muito sobre ele. Daí resolvi: o documentário seria sobre João e minha mãe faria parte dele. Mais tarde, o Adilson Barros passou lá em casa com sua mãe e eu falei todo animado que ia fazer um documentário sobre o João de Camargo. E ele disse: “Isso é mixa. O João de Camargo é um longa, uma coisa maravilhosa”. Nessa mesma noite, o Adilson me falou que o Florestan Fernandes tinha um trabalho sobre o João. No dia seguinte, fui atrás do Florestan e gravei um depoimento dele. O fato de um grande mestre como ele ter interesse no tema reforçou ainda mais minha convicção de que ali estava um assunto fascinante. Ele virou uma estátua de barro dessas que você encontra em lojas de umbanda. É o pai João de Camargo, um exemplo de humildade que se impunha e nos orientava o tempo todo no set.

De lá para cá, então, você veio tocando o projeto paralelamente à sua carreira de ator…
Reuni muita coisa. A geração do livro “João de Camargo de Sorocaba – O Nascimento de uma Religião”, de Carlos Campos e Adolfo Frioli [ed. Senac], veio junto de muita coisa, perda de pai, de mãe, e eu querendo segurar tudo. Criei em Sorocaba, na casa em que cresci, o Instituto Cultural Vila Leão. Lá tem o projeto Quilombinho, com cursos para crianças e adultos. As pessoas ficavam sabendo do meu trabalho e levavam material sobre João de Camargo para lá.

Eu queria que você falasse um pouco como foi a peregrinação em busca da verba necessária pra fazer o filme.
Bom, o projeto foi aprovado em 1995 e fiquei tentando arranjar o dinheiro até 2003, quando filmamos. Foi uma péssima época. Quando comecei, houve todo aquele problema com o Guilherme Fontes [a respeito da verba do filme CHATÔ, O REI DO BRASIL, ainda inacabado] e eu também fazia parte do filme dele. Houve uma certa confusão, pois eu também era ator, sentiam desconfiança. E o tema era religioso, o que assusta um pouco as empresas pela possibilidade de polêmica. Foi penoso e complicado, mas contei com muita colaboração importante no processo. Teve o Clóvis Bueno, com quem me entendi super bem em todo o processo de criação do roteiro e quando preparamos a filmagem. Além de dividir a direção com ele, tive grandes parceiros e certamente os principais foram a Virgínia Moraes e o Rubens Gennaro, que assumiram a produção comigo, dividindo responsabilidades, angústias, frustração e também as muitas alegrias.

Qual foi a repercussão do filme no Festival de Cinema Brasileiro em Nova York?
Eu estava lá. Foi muito legal. É engraçado ver um filme seu com legendas em inglês. Parece que fica mais importante. De uma certa maneira, a palavra escrita ajuda a compreensão. Temos agora uma cópia em inglês para lançar lá fora.

E como foi escolhido o elenco?
O Lázaro foi escolhido quando vimos A MÁQUINA, peça de João Falcão. Era o ator que estávamos esperando! Procuramos colocar atores do Paraná, que tem uma tradição de formar bons atores, e também por razões econômicas, afinal filmamos lá.

Eu soube que foi muito difícil o processo de finalização do filme e queria que você falasse sobre isso…
A primeira cópia do filme ficou cinco meses na [distribuidora] Columbia sem que me dessem uma única resposta. Há uma tentativa de assassinato do cinema brasileiro por parte das grandes distribuidoras. Quando você apronta um filme, leva numa grande distribuidora para ver se consegue uma boa visibilidade. Faz a primeira cópia, que é cara, e você não tem dinheiro para fazer outra. Mas é necessário ter material para poder mostrar e negociar. E fica cinco meses sem uma resposta, um prejuízo enorme… Não sei se é sacanagem ou falta de consideração. Só obtive uma resposta quando liguei e exigi. Aí decidiram não ficar com o filme.

Você tem idéia de quando deve ser lançado CAFUNDÓ?
No começo de 2006, por volta de abril. Não há mais data para lançamento neste ano, e também não haveria tempo para estruturar um projeto junto a faculdades que pretendo fazer. Quero ainda colocar uma banda tocando as músicas dele (João de Camargo, sem ter estudado música, fez composições para a Banda nº 5, criada por ele para a sua igreja) nos cinemas.

Você já tem distribuidora para o filme?
Ainda não. A Columbia não vai, e graças a Deus. Estamos negociando com três distribuidoras. Esperamos fechar o mais breve possível, depois de Gramado nosso passe se valorizou! Vamos ver qual topará fazer o que pretendemos. Queremos um lançamento personalizado, não simplesmente largar e ver no que dá. Quero viajar o país.

Como foi acompanhar a exibição de CAFUNDÓ em Gramado, o festival de cinema mais concorrido do país?
Foi uma emoção muito grande. Gramado é um festival realmente muito popular, tem que ser preservado e melhorado. Eles devem fazer isso: passar apenas um filme por noite para que o público possa prestigiar os concorrentes. Veja, nosso filme passou na mesma noite com mais 2 filmes. Um nem estava na competição! Outra coisa é que eles devem fechar as portas na hora da exibição e não deixar entrar retardatários, prejudica muito o filme que está sendo exibido. Mas é claro que você perguntou outra coisa. Fiquei super feliz e emocionado em ter o filme passando no festival e ainda mais ganhando 4 Kikitos!

E a reação do público e da crítica?
Gostei muito da reação! O público acompanha o filme com atenção. A crítica respeita o trabalho por ser um tema muito relevante. Existem divergências, o que é muito salutar, não esperava unanimidade, mas conseguimos uma: todos consideram um filme muito bem feito!

De que forma os Kikitos vêm-se somar aos planos que você já tem para a carreira de CAFUNDÓ?
É um estímulo grande. O Lázaro ganhar o prêmio de Melhor Ator é excelente para o filme. Ele encarna a figura de João de Camargo, personagem principal. Um filme que tem um melhor ator promete! E ganhamos também prêmios importantes de cinema: Melhor diretor de arte, melhor fotografia e especial do júri de melhor filme. Isso vai ajudar muito o filme!

CAFUNDÓ já tem um circuito previsto também no exterior?
Estamos com convites para Viña Del Mar, no Chile, e Vancouver, no Canáda. Também Amsterdan, Liverpool e São Francisco. Vamos ver se conseguimos fazer esses festivais todos. E também tem Goiânia e Paraty, e os grandes festivais do Rio e São Paulo.

E o Paulo já tem um outro filme esperando na fila?
Tenho dois projetos pensados, vou começar a trabalhar neles, já estou com roteiro pronto e tudo, mas por enquanto é segredo.

Atuar, dirigir teatro, dirigir um filme, apresentar um programa de tevê, coordenar as atividades da Casa da Gávea e do Instituto Cultural Vila Leão, você sempre diz que essas são atividades que lhe dão muito prazer, mas também devem dar algumas dores-de-cabeça. Como você faz pra conseguir atuar em todas essas frentes?
Com a internet facilitou, respondo entrevistas por e-mail. Faço uma coisa de cada vez, como dizia Jack, o Estripador, por partes. São todas atividades que me dão prazer e são complementares, uma se liga a outra, uma fortalece a outra. Claro que dão dor-de-cabeça, mas tenho pessoas maravilhosas que ajudam, que também fazem por prazer. O Instituto, por exemplo, não iria adiante se não fosse a Cassiane, o Pedro Courbassier, a Isabel Monteiro. Em 4 anos fizemos MACBETH, SONHOS DE UMA NOITE DE VERÃO, MORTE E VIDA SEVERINA, cursos, palestras. E eles é que organizam e tocam tudo, eu supervisiono, ajudo, etc.

No início de setembro, estreou no Rio um grande musical dirigido por você: A CANÇÃO BRASILEIRA, com texto do Luís Antônio Martinez Correa, cartaz do CCBB, no Rio. Como nasceu essa idéia e que alegrias você tem tido no contato mais próximo com o universo tão rico da MPB?
Esta peça é uma jóia rara da música popular brasileira. É uma pesquisa da Maria Helena Martinez Corrêa (irmã do diretor de teatro José Celso), que tem 72 anos. Quando seu outro irmão, Luiz Antônio – responsável pela renovação do teatro musical brasileiro – morreu, brutalmente assassinado, 17 anos atrás, ela me trouxe o libreto, que fala de quando o samba se transformou num símbolo nacional, nos anos 30. Depois ela, miraculosamente, encontrou as partituras. É uma opereta de 1933! Fiquei deslumbrado. Adoro pesquisa. Há 3 anos minha filha Juliana me instigou a montá-la… Sempre adorei essa história, adoro pesquisa, e a história da música popular brasileira é incrível!

Aurora Miranda Leão - Cosmopolita por vocação, nascida em Fortaleza e carioca por opção, é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, onde faz atualmente Pós-Graduação em Audiovisual em Meios Eletrônicos. É também atriz, documentarista, produtora cultural e radialista. Filha do crítico de cinema, LG de Miranda Leão, cultora de Vinícius de Moraes, adora Paralamas do Sucesso, torce para o Boca Juniors, é encantada por Paris e Buenos Aires, ama o Rio de Janeiro, é adepta das festas populares do Maranhão e apaixonada por dança.
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Comentários

Um comentário para “PAULO BETTI: QUANDO O CINEMA BRASILEIRO VIRA UM CAFUNDÓ”

  1. Esta entrevista veio em boa hora, amanhã vou exibir “Cafundó” e estou recolhendo informações para dialogar com o público.
    Obrigado.
    Cássio.

    Posted by Cássio Marcelo de oliveira Alves | September 17, 2010, 19:48

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