Se Uma Pessoa Soubesse Qual é o Filme, Que Público, Não Teria Existido Cinema
Num de seus momentos mais inspirados, declarou: ”O Cinema é a Música da Luz”. Quer entender? Procure assistir a uma das poesias cinematográficas assinadas por ele.
Pra mim, bastou assistir a O MANDARIM. Desde então, interessei-me por conhecer Júlio Bressane. E aí vieram leituras sobre seus filmes, sua trajetória no cinema nacional, a busca por suas obras em cinemas e locadoras. Mas é sempre difícil encontrar disponível um exemplar da obra do genial cineasta. É raro filmes seus entrarem em circuito comercial. Quando isso acontece, em geral, ficam tão pouco tempo em cartaz, que até hoje há uma série de seus filmes ainda por conhecer. Felizmente, o criador das obras instigantes e poéticas eu já conheço. Tive a honra de entrevistá-lo no Hotel Nacional, em Brasília, por ocasião da última edição do mais antigo festival de cinema do país.
Conversar com Bressane é um momento raro de iluminação. Fala manso e generoso, discorre com simplicidade e sabedoria sobre qualquer assunto, faz a gente refletir enquanto se deleita com inteligência tão vibrante e singular. Como diz Carlito Azevedo, ele é ”nosso cineasta de mais robusta capacidade e cultura intelectual”. Confiram, pois, nosso Papo Cult.
Como você está sentindo a reação do público a FILME DE AMOR?
Júlio Bressane: No Festival de Turim, no de Veneza… o filme teve uma boa acolhida em todos os festivais, principalmente fora do país, mas aqui foi muito melhor do que eu esperava. Senti que as pessoas se interessaram, ficaram curiosas. Isso me surpreendeu, e não esperava uma aderência ao filme dessa maneira, que pudesse causar esse prazer em tanta gente e essa controvérsia em tantas outras. Foi uma surpresa pra mim.
E essa controvérsia, é isso que você quer causar com o filme?
Não, olha, não quero. Não sei nem dizer a você que tipo de… O filme… são sensibilidades… O filme é uma coisa que você tem ali pra dispor. Você dispõe daquilo de uma maneira que… a você mais sensível, mais razoável… Algumas coisas você percebe melhor, gosta mais, e outras percebe menos, não se sente tocado por elas. São coisas que… depende muito. Eu faço algo que procura tratar com dignidade o público. Eu tenho talvez uma idéia alta do público. Como disse antes em outras ocasiões, o público é muita coisa. Não existe o público. O público são segmentos e segmentos e sociedades. Então essa idéia do público ser uma coisa… precisa você saber, aquela velha história, como atingir aquele segmento aonde é mais sensível, é mais perceptível… Como o público com o cinema cheio, você tem muitos segmentos ali, muitas áreas de sensibilidade, muitas zonas de intensidade. Nessas zonas de intensidade é que as coisas são mais ou menos compreensíveis. Se uma pessoa soubesse qual é o filme, que público, não teria existido cinema. Isso não existe. Agora o que justamente existe é isso: existe uma possibilidade de você endereçar a uma… público são muitos segmentos, é uma fração de sociedade, não existe O Público. São segmentos da sociedade. Então justamente é você ver o produto que àquele segmento possa ser mais sensível, mais aderente. É isso que é pra mim a coisa… Eu vou agora, pela primeira vez, sentir o que é ter um filme endereçado, lançado num cinema, e tal, coisa que eu não tenho tido… meus filmes são colocados num cinema, mas não têm lançamento, são colocados lá, e tem pra mim surpreendido muito pela recepção, que têm tido muito mais do que eu esperava e talvez muito mais do que eu desejasse, e… (pausa longa) e nem tenho essa idéia…
Eu falei um negócio ali… porque essas sensibilidades, elas mudam. Eu, ao contrário, as coisas interessantes que ouvi na minha vida foram de pessoas que não se encontravam no que diziam, pessoas tolas que eram capazes de dizer coisas muito interessantes. Então a beleza… outro dia, eu jantava com um biólogo português, casado com uma pianista brasileira, ele tava me falando da beleza do mundo do microscópio e do mundo microscópico, do que você não vê. Ele disse: ”Eu, como biólogo, me sinto também cercado pela beleza”… pode ser sensível a isso… não precisa ser, não é preciso, não há necessidade, ainda mais numa sociedade que ainda está se formando como a nossa … essa exclusão brutalizante. Não há nem necessidade ainda do capital. O nosso capital não está ainda nessa fase, vamos dizer assim, na fase prostibular… Porque há uma interessante observação do Sartre, da Filosofia da Alcova, que diz o seguinte: que o final da democracia capitalista era o prostíbulo. O que ele quer dizer é justamente isso: é o comércio, é o triunfo desse capital democrático e o comércio no mundo, é esse mundo globalizado, é esse clichê que taí, que não é globalizado mas é quase. E esse “quase faz a diferença”. E aí entra uma coisa que é essa razão: você pode ser cercado e ser sensível à beleza. Sensível à beleza. Inclusive isso é uma oração de um grande poeta judeu espanhol, Raphael Cassinos-Assen, que eu botei no filme, essa frase que muito me impressionou. Ele dizia: ”Oh, Senhor, que não haja tanta beleza…” Porque ele se sentia cercado pela beleza, inundado pela beleza (Bressane vai ficando engasgado) e esmagado pela beleza…
Quer dizer… você não sente a beleza, não se emociona pela beleza, há alguém do seu lado que é justamente o sujeito que está sendo sufocado pela beleza… Então essas coisas… Há um outro verso também, você encontra algumas coisas sensíveis na poesia, um poeta que tá esquecido, infelizmente, e não consigo entender porquê. Chama Robert Brawne, um poeta inglês. Ele tem um verso que ouvi há muitos anos, uma voz de um homem que procuro até hoje ouvir e imitar, que diz assim, primeiro não é só suficiente, mas diz mais ou menos assim: ”Precisamente quando nos sentimos mais seguros… um acorde próximo ao pôr-de-sol, uma corola de flor, a morte de alguém, um coro final de Eurípedes… e já estamos de novo entregues à beleza, estamos rendidos à beleza”. Então essa pergunta não se justifica porque a beleza é… você precisa se educar pra beleza, mas ela pode ser acessível, ainda mais num país em que a coisa forte, sensível, é popular. O Brasil não é um país de eruditos. O que tem de interessante na nossa arte, na nossa música, tudo é popular…
Mas não lhe deixa triste saber que…
Olha, eu não me sinto adiante…
Você não acha que o público brasileiro está muito mais voltado pra coisas de digestão fácil, como comédias despretensiosas, do que pra entender um Bressane?
JB? Não, não é isso, a coisa não é assim. O público não tem nada com isso… Você sabe vou falar uma outra coisa pra você. Isso é uma idéia em que pelo menos você pode crer por alguns minutos, muita gente já pensou nisso: (diz em francês): ”pensar o mundo como uma escritura divina, onde todas as coisas, o homem, os objetos, as pedras, a natureza, todas essas coisas fizessem parte de uma escritura divina na qual você constantemente está lendo e constantemente está escrevendo e se inscrevendo…” O Bernard Shaw tem uma frase que diz assim: ”God is on the made…” Deus está fazendo-se, ou seja, Deus estaria mais no futuro do que no passado. É através de nós, de cada um de nós, não sei se de todos, porque nem sei se todos existem, mas de cada um de nós, é através de cada um de nós que Ele se faz. Ele está se construindo através de nós, de uma idéia inacabada, de que você também seja uma cifra. De que todas essas coisas, até as mais simples, já estejam determinadas. Isso pode não ser verdade, mas por quinze minutos a gente pode acreditar nisso, não vai fazer mal a ninguém. E essa é que a questão. Agora você sabe que uma das coisas das primeiras religiões, tanto o budismo quanto o judaísmo, eles não tinham necessidade de fazer a … de ser de todo mundo. Não tinham o sentido de ser de todos, massivo. Era uma coisa pra cada um escolher, cada um procurar-se. Não se pode dizer que o mundo gosta disso e despreza aquilo. O povo brasileiro, coitado, vive hoje preso e a procura de que? De trabalho. Então essa coisa mínima, ínfima, raquítica que sobra pra ele, de ociosidade, de prazer, ele já recebe de uma maneira quase que pronta.
Então, eu não… espero que… não me vejo… ao contrário. Eu não me sinto, de nenhuma maneira excluído dos outros. Eu tô aqui, tamos aqui sentados, sinto interesse, o carinho de cada um de vocês, interesse de estarmos aqui, curiosidade… Então o que é que nos trouxe aqui? O prazer de estarmos aqui falando… isso… Se um homem… Sabe o que é que o Ravel, o músico Maurice Ravel, quando ele fez a valsa dele já no final, apresentou… – veja você como as coisas se repetem – ele apresentou em Paris, fez uma escuta da música, a valsa dele… Quiseram meter fogo no teatro. E o Ravel, os jornalistas ali – não faltou quem viesse estocá-lo, lógico – estocá-lo, uma pena; ele começou dizendo, altivo: ”Olha, o senhor tá no fim, tá assim, tá assado…” Porque ele sofria de uma disfasia, não era nem uma afasia, era uma disfasia. Ele se sentia distante dali embaixo, por isso demorava a se aproximar. ”Mas eu… sabe qual é o meu problema? É que eu abaixo a cabeça, vem música”. Ele morreu fazendo. Diz simplesmente o seguinte…
Eu não vou falar isso porque eu me sinto emotivo, eu vou me emocionar se disser… então vou dizer depois… O que é que o Ravel respondeu? Eu ontem tava lendo o texto do Machado de Assis, naquela palestra. Ce sabe que parei de ler o texto porque ia chorar? Quer dizer… tem uma coisa que é você… essa é uma distinção que não sou eu que tô fazendo, essa é uma distinção clássica, entre o gênio e o talento. Diz que o talento é uma força que você maneja, uma força que você domina. E o gênio é uma força que domina você, pela qual você é dominado. Então ontem eu tava falando de uma coisa, mas o meu fecho emotivo tava em outra. Aquilo tudo, aquele buquê de flores que apresentei ali foi pra esconder uma dor, saiu ali, transfigurado. Bom, essa é que a questão. Então se fez pro público, fez pra isso… Ele diz o seguinte: ”Se a minha valsa, não, se todos os deuses é um Deus, todas as valsas são a minha Valsa” (Ri muito). Essa… os caras ficaram loucos, o que era isso… Fez uma valsa de pedaços de valsa. Pegou o primeiro Strauss, e fez uma valsinha que não acaba e vai… E os jornalistas estavam perguntando se ele tava fazendo pro público, pra ele, ou pra que público… Ele se achou tão fora do mundo que nem se incluiu com o público. Essa é uma questão muito triste, e é a questão central: há uma força que está agora lentamente se apagando, apagando-se lentamente, é uma força que é a força do gênio. E essa é uma força que tá além da mente agora, numa pessoa, que representa e é esse… essa razão dessa minha emotividade e de toda emotividade nossa. E essa é que a tristeza, que me deixa num duplo de fenecimento e ressurreição… é a perda de um gênio, não um gênio do Cinema Brasileiro, um gênio do cinema mundial. É porque o foi, não é porque se chamava Antônio. E essa é que é a tristeza que, pessoalmente, me deixa mudo.
Um dos seus filmes mais bonitos, que mais me tocou, que fiquei completamente apaixonada quando vi, foi O MANDARIM. E uma das coisas que mais me impressionou ontem, vendo FILME DE AMOR, foram as músicas que você escolheu. Quando entra aquela imagem belíssima do Rio de Janeiro com a música tão bela em perfeita sintonia com a imagem mostrada, a gente vai sentindo toda uma musicalidade que compõe a trilha e a musicalidade dos seus filmes…
Você sabe o que me levou àquela música foi o verso do Lamartine: ”Rio de Janeiro a Janeiro… Rio de Janeiro a Janeiro…”, foi isso que me levou a essa música… Não, deixa te dizer uma coisa: não tô hoje, agora. nem em condições, vamos encerrar isso agora porque já fui além do que eu podia, entendeu?! Mas o filme do Mário Reis… eu era amigo do Mário Reis, então, aquele filme não fui eu quem fez, não foi mesmo, fui habitado por… uma orientação e tal, foi feito além-túmulo pelo Mário. Sinceramente. Foi uma transa espírita. Foi feito aquele filme de além-túmulo. Foi o Mário que fez aquele filme, ele me deu tudo pronto, fui e juntei ali e fiz aquele filme. Eu mesmo não me lembro do filme… teria que ver de novo pra tentar reconhecer, porque não me lembro do filme. Sei que foi o Fernando Eiras, está espetacular, agora eu próprio não me lembro. Aquele filme tem um defeito que é o fato de eu ter botado como Diretor. Que é uma coisa que não deveria ser porque não tem, aquele filme não tem nada a ver com a minha… não fui eu quem fez. Me foi dado e eu fiz… (neste ponto a entrevista é encerrada porque Bressane cai em lágrimas).
Aurora Miranda Leão - Cosmopolita por vocação, nascida em Fortaleza e carioca por opção, é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, onde faz atualmente Pós-Graduação em Audiovisual em Meios Eletrônicos. É também atriz, documentarista, produtora cultural e radialista. Filha do crítico de cinema, LG de Miranda Leão, cultora de Vinícius de Moraes, adora Paralamas do Sucesso, torce para o Boca Juniors, é encantada por Paris e Buenos Aires, ama o Rio de Janeiro, é adepta das festas populares do Maranhão e apaixonada por dança.
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I recently came accross your blog and have been reading along. I thought I would leave my first comment. I dont know what to say except that I have enjoyed reading. Nice blog.
Tim Ramsey
Achei essa bela entrevista neste buraco negro que é a internet. Anos depois me deparo com este material lindo, que vou utilizar em minha pesquisa sobre o Julio Bressane. Também quero entrevistá-lo.
abrc