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categoria: PAPO CULT

JOSÉ WILKER: “NUNCA TANTA GENTE VIU TANTO CINEMA COMO AGORA”.

Ele nasceu em Juazeiro do Norte, CE, e saiu cedo do cariri cearense para estudar em Recife. Fortaleza era terra mais distante. Não pensava em ser ator e sim em transformar a realidade política do país. A estréia no palco foi com o saudoso Rubens Corrêa (de quem tive a honra de ser aluna), um dos nomes mais emblemáticos do Teatro Brasileiro. Nunca mais parou. Acabou virando dramaturgo, diretor, foi para a tevê e nos anos 90 iniciou sua carreira de crítico de cinema, fazendo programas para a TV e escrevendo sobre o tema em jornais e revistas. Suas crônicas sobre a Sétima Arte viraram livro em 1996, com a publicação do excelente Como Deixar um Relógio Emocionado. Costuma repetir: “O único lugar onde a palavra Sucesso vem antes de Trabalho é no dicionário.

José Wilker é dos mais atuantes e competentes atores da cena artística brasileira, desses atores stanislaviskianos, de entrega absoluta ao personagem, capaz de fazer a platéia sonhar junto. Assim, de corpo, alma, idéias e sentimentos criou tipos memoráveis como o Vadinho de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (de Bruno Barreto), maior bilheteria do cinema brasileiro; o Mundinho Falcão, de “Gabriela” (novela de Walter George Durst e com direção de Avancini); o Tenório Cavalcanti de O HOMEM DA CAPA PRETA e o Antônio Conselheiro de GUERRA DE CANUDOS (ambos dirigidos por Sérgio Rezende); o galã Roque, de Roque Santeiro (do magistral Dias Gomes) e o homossexual Ariel em Desejos de Mulher, em 2002 (novelas da Rede Globo). Com o Giovanni Improtta de Senhora do Destino (novela de Aguinaldo Silva) reafirmou sua enorme empatia popular.

Como dramaturgo, a estréia foi com Renata Sorrah vivendo Trágico Acidente Destronou Tereza. Em cinema, a primeira atuação foi em ESTRANHO TRIÂNGULO, ao lado de Carlo Mossi. À época, devia ter uns 20 anos e considera sua atuação péssima. Nem gosta de lembrar do trabalho… Acabou virando cinéfilo de carteirinha e hoje possui filmoteca com quase 5 mil títulos. Quando está em casa, o programa preferido é assistir a um bom filme. Aliás, diga-se de passagem, se é Cinema, ele começa achando bom: “Muitas vezes ver um filme realmente ruim, muito ruim, é uma experiência maravilhosa. Presidente da RioFilme (órgão da prefeitura carioca responsável pela produção e distribuição dos filmes brasileiros), além de contratado da Rede Globo, trabalha no Telecine (canal por assinatura) e atua no rádio.

Desde o início do ano está mais uma vez na telinha, desta vez vivendo o presidente Juscelino Kubitschek na minissérie JK, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira. A caminho, novos trabalhos em cinema: OS DESVALIDOS, de Francisco Ramalho Jr., O MAIOR AMOR DO MUNDO, repetindo a dobradinha com Cacá Diegues, e o próximo do amigo Hugo Carvana, CASA DA MÃE JOANA, história de quatro homens em torno de 50 anos, os quais relembram os bons tempos vividos no Rio de Janeiro das décadas de 70 e 80. Todos devem estrear em 2006.

PC: Como foi a decisão de entrar para a vida artística?
JW: Quando comecei, meu compromisso em representar era diretamente ligado a uma atividade político-partidária. Eu era do pessoal da juventude comunista. Tínhamos um grupo de teatro cujo trabalho tinha por base o método Paulo Freire. Nossa intenção era contribuir para eleger Miguel Arraes governador de Pernambuco. Não sabíamos nada de dramaturgia, a não ser que Mao Tsé-Tung, quando fez a Grande Muralha da China, estava acompanhado por um grupo de teatro.

E daí pra chegada ao teatro…
Eu achava que teatro era entediante, porque o teatro que entendia era o de pessoas assistindo a uma encenação com homens montados a cavalo falando de reforma agrária, de um futuro melhor… Até que conheci Rubens Corrêa e ele me chamou pra fazer O Arquiteto e o Imperador da Assíria. E aí comecei a me apaixonar por teatro.

E o que a peça tinha de tão especial, além da oportunidade de contracenar com Rubens?
Ah, era uma viagem interior fantástica. Foi também uma época em que a gente descobriu o LSD… aí comecei a perceber que era muito sectário em relação a uma porção de coisas, dividia tudo entre direita e esquerda, e aos poucos fui-me curando de tudo isso. Comecei a duvidar de minhas posições políticas e passei a não ter certeza alguma.

O que é mais importante na formação de um Ator?
Eu acho que o texto de teatro, televisão, cinema, é como uma partitura de música e cabe ao ator lê-la, e ao ser capaz de ler, tocá-la. O importante é que você acumule cultura pra administrar seu talento, porque tê-lo sem conhecimento pode quase nada… Qualquer forma de teatro, qualquer estilo de interpretação, pode ser importante. O Teatro tem que ser inclusivo. Nós tínhamos uma atitude rancorosa, preconceituosa, em relação a algumas formas de teatro. Eu era de um grupo que achava que só a forma de teatro que a gente fazia era certa, era boa. Mas o mais belo pra mim na arte de interpretar é a verdade no texto que é dito e no personagem criado, seja ele qual for. Não conheço nenhum grande ator internacional que antes não tenha sido um grande ator nacional.

O que você acha das críticas ao trabalho em televisão?
Já fiz teatro e lamentei ter feito. Já fiz televisão e cinema e também lamentei. Mas já adorei fazer todos eles. Fiz teatros muito ruins que prestaram enorme desserviço a mim, ao teatro e ao povo brasileiro… Por exemplo, ao dizer Eu te amo… Às vezes você sussurra na tevê e berra no teatro, e ambas as formas podem ser bem feitas. Veja a telenovela brasileira, que desempenha um papel muito importante na educação sentimental do povo. Ainda não se estudou a mudança profunda no comportamento do homem provocada pelas telenovelas. O homem brasileiro hoje é muito mais tratável, consegue expressar seus sentimentos de forma muito mais clara graças a essa mudança de padrão ocorrida na sociedade e expressa e difundida de forma sutil e poderosa pela telenovela.

Você contou no programa “Sem Censura”, da Leda Nagle, uma história insólita: que certa vez falou a um jornalista sobre um cineasta estrangeiro, e passou uma hora falando sobre o cara, e o jornalista anotando. Só que o cara foi uma invenção sua. E foi muito engraçado ouvir você contando essa história…
É, eu não tenho a menor paciência pra burrice e pra ignorância. Burrice é desesperante! E eu sou meio irônico. Aí o cara veio me perguntar sobre coisas sem a menor importância e eu mandei o nome de um tal Bohainsenberg, “Um grande cineasta que fez mais de tantos filmes…” E o cara foi acreditando, anotando tudo, e eu fui aumentando a história cada vez mais. E ele acabou publicando tudo. Depois ficou muito chateado comigo… O que acontece é que minha geração foi meio privilegiada. Nós fomos obrigados a nos levar a sério, então a gente teve de aprender a ler. Não apenas ler, mas ler e entender o que estava lendo, e daí fazer da leitura uma coisa útil, produtiva. Hoje não, qualquer débil mental aparece na tevê e ganha notoriedade. E aí as pessoas confundem e acham que isso é talento. A minha geração batalhou muito pra chegar onde está e não tinha um décimo da notoriedade que se ganha hoje.

Se você tivesse que citar alguns dos filmes de que mais gosta…
Com prazer: CIDADÃO KANE, O PODEROSO CHEFÃO I, UM BONDE CHAMADO DESEJO, O NOME DA ROSA, RAN, do Kurosawa, O ILUMINADO, TERRA EM TRANSE, DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL e tantos outros.

De que filmes brasileiros mais gosta?
Gosto de todos. O pior filme nacional, na opinião de quem quer que seja, para mim é o melhor filme do mundo. Falou em português, maravilha.

E os diretores de cinema, quais os preferidos?
Os grandes diretores de cinema vêm de uma sólida formação teatral. Esta passagem do teatro para o cinema é essencial. Eu diria Kurosawa, Orson Welles, Martin Scorcese, Stanley Kubrick, Brian de Palma, Billy Wilder, Kazan, Fellini, a família Barreto, Cacá Diegues, Walter Salles e outros que me escapam agora.

Você diz não gostar muito de se ver atuando…
Estou sempre em crise com esse negócio de ser ator. Já cheguei até a achar que o cara que se divide em dois é esquizofrênico e que eu devia ser internado… Sou muito crítico com o que faço, sempre acho que poderia ter feito melhor, que saiu exagerado, mas não tenho medo de correr risco. Não sou um ator que planeja, estuda. Vou na intuição mesmo, no feeling… Não sei nada, estou aprendendo, começando, me reinventando. Mas posso dizer que a melhor coisa que me aconteceu como ator foi me conhecer. Pude olhar pra dentro de mim, me investigar e reconhecer meus defeitos graves e minhas qualidades. Descobri como viver em paz comigo mesmo.

Você já declarou que considera o Big Brother um desserviço à profissão de Ator, mas a tevê já engatou uma nova edição. O que mais te incomoda no programa?
Eu acho reality show uma novela muito mal escrita. Se alguém gosta de fazer de sua vida privada um pequeno varejo, eu tenho muita pena e só. Não quero dividir cena com essas pessoas porque elas atrasam meu trabalho.

E quanto ao Oscar, você disse que o prêmio não tem a menor importância para o Brasil. É isso mesmo?
Pois é, um dia vamos ganhar e nada vai mudar. Porque a premiação para filme estrangeiro é só uma espécie de mea culpa do cinema americano pela invasão e o massacre que promovem no mundo todo. O colégio eleitoral que escolhe o filme estrangeiro não tem muito significado e os jurados às vezes nem vêem os filmes porque são legendados, e americano não gosta de ler legenda, não tem saco nenhum pra filme estrangeiro.

O Cinema é uma das prioridades na sua vida. E para o cidadão comum, você arriscaria apontar um grau de sintonia?
Eu entendo cinema como uma coisa importante na medida em que ele invade e se deixa invadir pelo dia-a-dia. Sendo assim, uso o cinema para entender o cotidiano e o cotidiano para revelar sentidos aparentemente ocultos nos filmes. Nunca tanta gente viu tanto cinema como agora. Ligue a tevê e confirme, repare no número de cineclubes em funcionamento no país, há festivais em todas as partes, bilhões assistem à entrega do Oscar…

E o Cinema Digital?
É o futuro. Trata-se de uma revolução tão importante quanto a chegada do som aos filmes. Claro, como em toda revolução, haverá um período de instalação gravemente conturbado, mas será um período necessário e inspirador. É preciso acabar com a vaidade de só aceitar o filme na tela grande, no cinema.

Como tem sido presidir a RioFilme?
O cinema e a administração estadual têm ritmos bem diferentes. O da administração é muito lento. Os cineastas precisam contar minimamente com o apoio oficial. Mas o cinema tem que aprender a caminhar de acordo com esse ritmo. O orçamento é uma ficção: é um desejo que o governo tem de arrecadar determinada quantia, que pode ser maior ou menor. Mas o grande problema do cinema não é a produção. A gente pode fazer filme sem dinheiro nenhum ou com muito dinheiro…

E agora nós podemos dizer que o cinema brasileiro encontrou enfim seu caminho?
Não acho que o cinema brasileiro vive um grande momento. Eu acho que a gente tem hoje filmes muito expressivos, mas ainda não temos um Cinema. Porque um filme não gera outro filme. Gera dívidas para o cineasta. E acho que ao invés de a gente se empenhar tanto em conseguir um Oscar, a gente deveria se empenhar fortemente em aprender a escrever pra cinema. Nós temos um problema grave que afasta o público brasileiro de nossos filmes que é a notável pobreza dos nossos roteiros. Na média, os nossos roteiros são muito fracos.

Com relação à minissérie JK, como você se preparou para “viver” Juscelino?
Partindo do princípio de que não é um documentário a respeito de Juscelino, não estou fazendo nada de especial. Somente o que sempre faço quando começo um trabalho: ler muito a respeito. Li “Brasília Kubitschek de Oliveira” (Ronaldo Costa Couto) e “JK: O Artista do Impossível” (Cláudio Bojunga). Não sei até que ponto vou usar isso para representar. Mas, com certeza, se não tiver a informação, não saberei como fazer. Porque, na verdade, por mais que a gente busque ser fiel ao personagem, a fidelidade é sempre mais de idéias do que de verossimilhança, semelhança física ou semelhança gestual.

O que é melhor ou mais fácil de criar: personagens fictícios ou pessoas reais?
Gosto de fazer as duas coisas, mas prefiro sempre os desafios. Acabei de filmar Lampião (OS DESVALIDOS, de Francisco Ramalho). E assim fiz Tiradentes, Antônio Conselheiro e Tenório Cavalcante e também o Vadinho, de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, do Bruno Barreto, um personagem que existiu… e me falavam muita coisa a seu respeito… Era um “personagem” que tinha “muito dono”. Eu me sinto confortável com esse tipo de personagem.

Como você faz para dar conta de fazer tanta coisa ao mesmo tempo?
Quando se faz o que se gosta, o tempo é seu aliado. Do contrário, ele se torna seu carrasco. Disciplina é tudo para dar conta das coisas.Agora mesmo, além da minissérie e do próximo filme, estou produzindo uma peça de teatro que quero estrear até o fim do ano chamada Sangue, do sueco Lars Norén, na qual vou atuar ao lado da Marília Gabriela.

Que imagens da infância em Juazeiro são mais fortes em sua memória?
Em frente à minha casa, em Juazeiro, eu cresci vendo um rastro de sangue na porta que era o sangue das pessoas que vinham de joelho, de muito longe para pagar promessas… Presenciei tudo quanto é tipo de fé. Havia dois extremos em mim: a fé monumental e a desconfiança brutal porque via que nada dava certo. Hoje sabemos que não é a caridade cristã que leva a gente a algum lugar. E tem mais: antigamente, se levava muito tempo até acontecer um milagre. Hoje os milagres são oferecidos na tevê a cada minuto, você paga pra ver os milagres acontecendo… É demais!

E como você se define?
Sou uma
pessoa absolutamente anárquica, mas ao mesmo tempo sou absolutamente disciplinado. Sou o preguiçoso que mais trabalha que conheço, uma pessoa tranqüila e organizada, apesar de doido!

 

 

Aurora Miranda Leão - Cosmopolita por vocação, nascida em Fortaleza e carioca por opção, é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, onde faz atualmente Pós-Graduação em Audiovisual em Meios Eletrônicos. É também atriz, documentarista, produtora cultural e radialista. Filha do crítico de cinema, LG de Miranda Leão, cultora de Vinícius de Moraes, adora Paralamas do Sucesso, torce para o Boca Juniors, é encantada por Paris e Buenos Aires, ama o Rio de Janeiro, é adepta das festas populares do Maranhão e apaixonada por dança.
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