Ela é uma das grandes atrizes do nosso país, com atuações marcantes em teatro, tevê e cinema. Numa de nossas estadas no Rio de Janeiro, a encontramos. E, como não poderia ser diferente, aproveitamos a oportunidade de registrar esta interessante conversa com Esther Góes. Na pauta, Teatro, Plínio Marcos, Cultura, a busca por uma sociedade melhor, a importância da leitura e o momento político atual.
ESTHER GÓES: ”Sou uma grande apaixonada pela leitura”
Esther, um de seus mais fortes trabalhos no teatro foi ABAJUR LILÁS, do Plínio Marcos. Por que essa escolha e como conseguir fazer um texto tão denso sem deixá-lo pesado?
Esther Góes: Isso eu devo ao Sérgio Ferrara, esse jovem diretor com tanta sensibilidade. Foi ele quem conseguiu fazer o Plínio dessa forma. Porque eu também só faria o Plínio assim. Nem todo mundo sabe fazer isso. Eu sempre digo que Plínio Marcos só pode fazer quem é capaz de transcender determinadas coisas. Porque o Plínio você mergulha muito fundo, você mergulha no pior. Se você conseguir transcender, você vai trazer o que ele traz: a grande compaixão, a grande ternura pela humanidade. Se você não conseguir fazer isso, você vai conviver com aquelas coisas e você pode permanecer lá com elas, né?! Tem muito essa transferência do ator para o personagem e vice-versa. Porque ele toca em questões humanas que são nossas e são muito fundas mesmo. Mas quando você é capaz de entrar nisso com leveza, você pode sair quase que ressuscitando a humanidade, porque acho que o lindo do Plínio é isso: depois que ele entra no terror, ressuscita a humanidade.
Como é enfrentar este risco: montar espetáculos que levem o público a pensar, numa época em que o Brasil está tão pontilhado de incentivos à superficialidade, à era da celebridade instantânea? De onde nasce a coragem para assumir um Plínio Marcos?
Sempre fiz o contrafluxo na vida, sabe… Acho que é um negócio da gente, que te pertence… nunca esteve tão contemporâneo um texto do Plínio Marcos. É tão visível… está ali na rua, a todo momento. Agora está muito claro. Agora não são mais os marginais, a periferia, a exceção. Agora é a regra. O que está em cena também está fora de cena. Então eu achei da maior importância, inclusive em revelar o que o Plínio tinha antevisto, o que ele tinha visto antes, digamos assim. O que ele viu na parcela, agora é o todo. E pra onde caminha, pra onde que a gente vai? Isso é uma pergunta muito séria que nós temos que nos fazer de fato.
Como você vê essa questão da superficialidade exacerbada acontecendo hoje – a televisão priorizando os rostinhos bonitos e até o teatro muitas vezes com montagens absolutamente comerciais, sem conteúdo?
Eu acho que o teatro vai ter sempre pessoas apaixonadas por ele e ele não vai morrer nunca. E quanto mais há uma fertilidade de coisas que vão se sucateando, e que vai ficando esse horror, esse vazio, esse oco, de outro lado as pessoas começam também a formar uma outra vertente que reage e que quer fazer algo bom. Isso sinto claramente em São Paulo, que existe de tudo, inclusive aqueles que se distinguem e que o continuarão fazendo com muita força, com muita energia e com mais paixão ainda. Isso é muito claro, isso me agrada muito. Eu me incluo entre essas pessoas. Agora, de resto, acho que este vazio de que nós estamos falando, essa bobajada, essa coisa toda é um momento da humanidade mesmo, é constrangedor mas é isso que está acontecendo, não só no país, mas no mundo. Isso aqui já é imitação de outras coisas, mas a gente espera que esse momento passe. A humanidade já ficou doente de outras coisas muitas vezes, não é verdade?! Sempre que acho que as coisas estão muito ruins para o ser humano, penso que são ciclos também. É possível que não seja o fim porque já houve. Na época do Hitler, todo mundo acreditou que fosse acabar tudo com aquele extermínio. Quer dizer, em muitos momentos a humanidade sofreu coisas terríveis, críticas e ela mesma chegou a limites terríveis dela mesma. E no entanto, num outro lado, prevalece alguma coisa nova, onde aparece e se encontram possibilidades. Eu confio muito que seja um ciclo, um momento muito terrível, muito crítico pro ser humano, por isso é que temos a obrigação de responder com muito vigor, contextualizando, colocando idéias e pensamentos para serem amadurecidos, esperanças concretas e sólidas. E devemos também ser muito guerreiros na prática, porque a gente tem que conseguir uma sociedade melhor não é só nas idéias, mas também na força, na guerra, na luta.
Que conselho você daria para quem está se iniciando nas Artes Cênicas?
Procurar aqueles que possam ser um bom condutor, um bom espelho, para não serem levados pela onda. Infelizmente, tenho muitos alunos e vejo o quanto é fácil ser carregado por isso. Porque a força dos meios de comunicação é muito violenta então, tem horas que você está lá querendo montar uma coisa importante. Eu montei ELECTRA (do grego Sófocles) agora com um pessoal. Mas quando fala em Big Brother, Casa dos Artistas, ou qualquer coisa assim, os olhos deles faíscam, você percebe que é meio impossível, é muito forte o apelo. Mas a onda passa, a onda vai passar…
Que importância teve a leitura na sua vida?
Toda. Eu sempre digo isso. Todos os meios de comunicação são importantes, a internet é ótima, mas o livro, não adianta porque não tem outro. O livro veio antes do cinema ainda, né?! Ler é Tudo.
Um livro que lhe marcou profundamente.
A ILÍADA é um livro que me marcou profundamente. Eu li muito… O Guimarães Rosa, com o GRANDE SERTÃO: VEREDAS, OS SERTÕES, do Euclides da Cunha, tanta coisa, tanta coisa… Eu sempre fui leitora, sempre li muito, muito, desde criança que era apaixonada por livros. Tenho certeza que desemboquei na Arte por causa da leitura. E da paixão pelo livro que sempre tive. Sempre. Gosto muito de ler, o que depois se transformou em leitura de Dramaturgia, mas ainda assim não bebo só nas peças, bebo na capacidade crítica que a leitura em geral me dá. Porque não dá pra você construir a Dramaturgia só a partir dela própria. Você precisa do que está acontecendo no mundo pra poder, enfim, contextualizar. Então, gosto de tudo, leio tudo, sou uma grande apaixonada pela leitura realmente.
Você é uma atriz que torna qualquer papel um trabalho relevante. Foi assim, por exemplo, no filme POR TRÁS DO PANO. O que lhe move a escolher um personagem? É uma mensagem que você quer passar ao público?
Quando tenho de escolher, sim. Quando escolho uma coisa pra fazer. Por exemplo, sei porquê quis fazer Tarsila do Amaral. Tenho meus motivos, aqui dentro. Mas às vezes sou convidada, como no POR TRÁS DO PANO. E às vezes você aceita ou não. Tem coisas que não aceito porque sei que não vou me dar bem. Não tenho afinidade e já vejo que aquilo não rola. Mas POR TRÁS DO PANO tinha umas coisas muito interessantes, tinha aquele nível de loucura, né?!, a loucura do estrelato que é uma coisa que leva a pessoa a extrapolar qualquer limite e se tornar quase que uma louca. Eu achava isso muito engraçado, porque vejo isso nas minhas colegas, muitas vezes, e penso a mesma coisa do jeito que o estrelismo vai modificando a pessoa até ela ficar pirada por total. Achava muito engraçada essa personagem, e tinha uma pequenina cena da Cleópatra que era imperdível fazer. E essa cena me demandou muito esforço, porque tive de ler, tive de estudar toda a Cleópatra pra isolar uma cena deste tamanhinho e chegar lá e fazer. Eu não podia fazer aquilo tirado do nada. Então foi uma coisa muito incrível tive que estudar mesmo, me dedicar a fazer uma ceninha tão pequena. Mas é Cleópatra, do Shakespeare, então valia a pena. Achei muito legal, adorei fazer!
Você tem ainda algum personagem que gostaria de fazer?
Eu tenho uns Brecht assim… quer dizer, a Mãe Coragem eu queria fazer. Os Brecht todos são maravilhosos… os personagens-Mães do Brecht são todos maravilhosos. Gostaria muito de fazer algum. Tennessee Williams tem algumas coisas que eu gostaria de fazer, sim, mas são todas montagens muito complicadas, muito cheias de problemas em geral. Mas um dia desses eu pego a gata pelo rabo. Ainda acho que também tem uns gregos, né?! Gostaria de fazer uma tragédia, quem sabe os Shakespeare também, aqui e ali. Quero fazer uns graúdos desses aí, que esses caras são bons demais.
E do Brasil, fora o Plínio Marcos, qual é o outro graúdo que você gostaria de fazer?
Tem um cara muito bom aparecendo. Eu vi uma peça mínima dele agora, mas adorei. Ele escreve bem demais. Chama Bosco Brasil. É marido da Ariela Goldmann, que dirigiu… não me lembro o nome agora… era uma pequena peça. Eu achei maravilhoso. Não esquece este nome: Bosco Brasil. (NR: alguns meses depois, o diretor foi premiado com o texto de NOVAS DIRETRIZES EM TEMPO DE PAZ).
Se você tivesse que escolher uma, qual seria a maior lição que o Teatro lhe deu?
Fidelidade a si mesmo. É a coisa que mais aprendi. Porque vejo todo mundo sempre se esforçando em muitos caminhos. Essa é uma carreira de ilusões e você precisa ter uma noção de porquê você a faz. Então o motivo tem de ser muito verdadeiro, senão você será apenas mais um. Isso tenho absoluta certeza.
Você concorda com Plínio Marcos quando ele diz que “A imprensa não é contra mim mas contra o povo brasileiro”? Como você avalia essa afirmação dele e como você vê o atual momento político do país?
Eu acho que nós temos a necessidade, a obrigação de uma grande mudança. Senão, se a gente não conseguir mudar esse modelo econômico, ele vai nos destruir. Isso está muito claro, tal como aconteceu com a Argentina. Nós somos realmente destinados a um tratamento desses. Então, acho que é o momento que a gente tem que ter consciência e tem que ter coragem. Coragem de lutar por essa mudança e por enfrentar aqueles que se consideram os donos do mundo nesse momento, PORQUE O NÃO SÃO, porque não devem ser e porque é preciso mudar esse esquema sim, é preciso mudar tudo isso. Eu acho que isso demanda coragem, demanda conseqüência. Então eu acho que não a imprensa em si – porque a imprensa, inclusive, é reveladora, a imprensa escrita – mas principalmente a televisão, a comunicação em vídeo em geral, ela tem uma tendência a fazer um caminho de obstrução dessa consciência, de detonar tudo como se fosse normal, light… Brecht falava muito sobre isso. Acho que é preciso ver o mundo como estranho, pra que a gente possa ver que isso não é normal, não é legal e que precisa ser mudado.
Aurora Miranda Leão - Cosmopolita por vocação, nascida em Fortaleza e carioca por opção, é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, onde faz atualmente Pós-Graduação em Audiovisual em Meios Eletrônicos. É também atriz, documentarista, produtora cultural e radialista. Filha do crítico de cinema, LG de Miranda Leão, cultora de Vinícius de Moraes, adora Paralamas do Sucesso, torce para o Boca Juniors, é encantada por Paris e Buenos Aires, ama o Rio de Janeiro, é adepta das festas populares do Maranhão e apaixonada por dança.
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