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categoria: PAPO CULT

A CASA DE SILVIA CANARIM

Este espetáculo é daqueles momentos de exceção que o teatro nos permite. E que só se explica graças ao cuidado que vai desde a decisão sobre o texto, a concepção do espetáculo em si, e a maneira pela qual se resolveram as dificuldades, transformando-as no próprio sucesso do trabalho”, disse o crítico Antonio Holfeldt sobre A Casa, que concorreu em nove categorias do Prêmio Açorianos 2007: Melhor Espetáculo, Melhor Coreografia (Silvia Canarim), Melhor Bailarina (Maria Albers e Iandra Catani), Melhor Trilha Sonora (Felipe Azevedo), Melhor Cenografia (Voltaire Dankwardt), Melhor Produção (Valência Losada) e Melhor Figurino (Coca Serpa).
A Casa venceu em três categorias, incluindo a mais importante, Melhor Espetáculo de Dança. Conquistou também o prêmio de Melhor Trilha Sonora, de Melhor Cenografia, além do Troféu Júri Popular de Melhor Espetáculo de Dança da TVCOM.
A mentora do espetáculo é Sílvia Canarim, jornalista pós-graduada em Dança, coreógrafa e bailarina de flamenco com diversos cursos na Espanha e no Brasil.

Como surgiu o Flamenco na tua vida?
Foi um pouco por acaso. Fazia faculdade de comunicação, mas não estava satisfeita com o meu curso e com o rumo que a minha vida tomava. Estava decidida a retomar uma parte importante da minha vida, a dança. Sempre fui apaixonada pelo ballet clássico, mas por várias razões o havia abandonado e achava que eu já não tinha idade para isso. Hoje sei que isso é uma grande bobagem. Enfim, quando liguei para a primeira escola de dança, à procura de aulas, a secretária respondeu: “Aqui só temos ballet clássico e flamenco”. Decidi pelo flamenco. Foi amor à primeira batida (risos). Hoje trabalho em dois grupos, o Grupo Flamenco Silvia Canarim e o Aires de España, do Centro Español de Porto Alegre.

Falando nisso, como está o mercado de dança, especificamente flamenca, no Brasil?
O flamenco no Brasil tem evoluído muito. Quando comecei, há quase quinze anos, não tínhamos acesso a músicas, vídeos e poucos professores vinham ao país ministrar aulas. Atualmente, a situação mudou muito e para melhor. De qualquer forma, trabalhar com qualquer tipo de arte no Brasil é algo muito difícil. Em termos de flamenco, ainda existem poucos grupos profissionais. São poucos também os guitarristas e cantaores, parte essencial para a existência da dança flamenca. Os bailarinos sobrevivem por ministrarem aulas e não por sua atuação no palco.

Como surgiu a idéia do espetáculo A Casa?
Sempre fui fascinada pela obra de García Lorca e, dentro da vertente teatral, pela peça A Casa de Bernarda Alba. Além disso, tinha um sonho antigo de trabalhar com dramaturgia. Resolvi que era hora de tentar me aventurar neste caminho e convidei o diretor teatral Decio Antunes para trabalhar junto ao meu grupo. O projeto não era apenas realizar um espetáculo de dança flamenca, mas sim ampliar o repertório de movimentos e adentrar no universo da danza-teatro flamenca. Para fortalecermos essa leitura diferenciada sobre esta obra, convidei o compositor Felipe Azevedo para criar a trilha sonora. Felipe não é músico originário do flamenco, mas possui um trabalho marcado pelo multiculturalismo, no qual a música brasileira dialoga com outras manifestações musicais.

Como foi adaptar um texto teatral para a linguagem da danza-teatro flamenca?
A Casa foi um laboratório no qual a ausência da palavra foi o nosso desafio. Esse é um texto forte, carregado de emoções complexas, de conflitos e metáforas sobre a repressão social e política da Espanha na década de 30, em pleno governo franquista. O trabalho começou justamente com a leitura da obra. O elenco, juntamente com os diretores, discutiu o que representava aquela obra para cada um de nós, as relações entre as personagens e os ecos que encontravam na equipe. Na fase seguinte, iniciamos as oficinas teatrais, conduzidas por Decio. Essas oficinas funcionaram como uma espécie de laboratório de movimentos que, mais tarde, deram suporte para as coreografias. A música, obviamente, também influenciou a maneira como nossos corpos se movimentavam e traduziam as emoções desejadas.

Como foi a escolha do elenco?
O grupo já tinha uma formação de alguns anos. Além desses bailarinos, Maria Albers, Iandra Cattani, Rita Zanini, Jaqueline Ferreira e Adriano Ferreira, convidamos Daniele Zill e Ana Medeiros da Companhia Andréa Del Puerto.

E os músicos?
Para a execução da trilha ao vivo, foram chamados o guitarrista flamenco Giovanni Capeletti, a cantaora Thaís Rosa, o violoncelista Douglas Araújo e o percussionista Tuti, além do próprio Felipe, que tocou o violão brasileiro.

Por que apresentar o espetáculo num espaço não-tradicional, como o Solar Conde de Porto Alegre?
Essa foi uma proposição do diretor. Ele tinha interesse em realizar o espetáculo em um casarão antigo. Por uma incrível coincidência, o primeiro casarão visitado foi o Solar, onde funcionou a sede do DOPS em Porto Alegre na época da ditadura militar e que hoje abriga o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Esse fato foi de extrema importância para a dramaturgia que estávamos começando a construir. O paralelo entre as ditaduras brasileira e espanhola, entre a repressão política e social, entre o flamenco e a cultura brasileira ficaram muito mais coerentes.

Qual o enredo de A Casa?
A peça de Lorca conta a história de uma matriarca que encerra as cinco filhas dentro da própria casa para cumprir um luto de oito anos. Essa foi a metáfora utilizada por Lorca para simbolizar o enclausuramento da Espanha durante os obscuros anos da era franquista.

O que representa García Lorca no universo do flamenco?
García Lorca foi um dos primeiros intelectuais espanhóis que valorizou o flamenco. Antes dele, vários poetas, escritores e viajantes estrangeiros já haviam percebido a grandiosidade da arte flamenca, porém, como ela era cultivada nos bairros mais pobres, seus artífices eram marginalizados pelos próprios compatriotas. Ele, talvez como nenhum outro, soube traduzir a universalidade da cultura andaluza na sua expressão mais representativa: o flamenco. Lorca nasceu na província de Granada, que fica na Andaluzia, região sul da Espanha, berço dessa arte. Seus livros Poema Del Cante Jondo y Cancionero Gitano são uma verdadeira crônica da vida dos ciganos espanhóis. Outra faceta importante da obra de Lorca foi a música. Sua amizade com o compositor erudito Manuel de Falla originou o primeiro concurso de Cante Jondo de Granada. O Flamenco, que então passava por um período de obscuridade, entrou em um processo de revalorização.

O espetáculo, que tem uma produção requintada – um elenco de dezoito artistas, entre bailarinos, atores e músicos –, que ocupa três níveis do casarão, com deslocamento da platéia, deve ter sido muito caro. Além disso, ficou em cartaz mais de um mês em Porto Alegre, o que é raro para um espetáculo de dança. Vocês receberam algum tipo de patrocínio?
Nós recebemos financiamento do Funproarte – Fundo de apoio à Produção Artística e Cultural da Prefeitura de Porto Alegre – uma das poucas alternativas para os artistas locais viabilizarem suas produções.

Com nove indicações ao prêmio mais importante de dança do Rio Grande do Sul e quatro estatuetas conquistadas, A Casa foi o grande vencedor do Açorianos de 2007. O que isso representou na trajetória dA Casa?
Acredito que foi o reconhecimento de mais de um ano de muito trabalho, pesquisa e produção, de um espetáculo que, com certeza, ficará nos nossos corações e na memória de toda a equipe que acabou se tornando uma grande família ao longo desse processo. Além disso, representa uma conquista para os artistas que trabalham com o flamenco em Porto Alegre, pois essa foi a primeira vez que um espetáculo que tem essa linguagem é indicado ao Prêmio Açorianos.

Quando A Casa volta em cartaz?
Não temos uma data definida, até porque não temos patrocínio ainda. O espetáculo é realmente muito caro e a única forma de viabilizá-lo de novo é conseguindo verba para podermos iniciar uma nova temporada.

Quais são teus próximos projetos?
Tenho várias coisas em mente, mas não fechei as portas dA Casa ainda!

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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