Poderia ser assim: estava atravessando a Itália de norte a sul, num trem, rumo a Brindisi, na ponta do salto da bota. Lá, embarcaria num cruzeiro pela Grécia.
Mas foi assim: estava parado, dentro da segunda classe de um trem caindo aos pedaços, atrolhado de italianos barulhentos (mas divertidos), com medo de perder um ferry gratuito pra quem compra passe de trem pela Europa, preparado pra um sobe-e-desce dos infernos que iria consumir mais de 28 horas até chegar em Atenas.
Parado, pela quinta ou sexta vez, entre o nada e o lugar nenhum. Sempre tinha escutado: os trens na Europa são superpontuais. Menos na Itália. Pois é… estava tendo a prova. Anoitecia. Um trajeto que tinha começado lá em cima, em Roma. Tinha saboreado cada pequeno detalhe, aquela coisa bem turística: cada ovelhinha naquela Itália árida era um AH, cada cidade mais ou menos conhecida que o trem entrava era um OH… Foggia, Bari (as massas Barilla… ok, depois descobri serem de Parma, mas não deveriam ser Parmilla?). Mas tudo repentinamente estava começando a virar um IH…
O trem, devagar quase parando, andava um pouquinho e estancava, do nada, no nada. A cada parada, os italianos corriam para o corredor e xingavam tudo, todos, Deus e o papa, olhando para a paisagem perdida, conferindo o relógio. E eu me dei conta de que talvez perderia meu navio. Meu maior sonho era conhecer a Grécia. Não podia dar tudo errado.
Lentamente comecei a examinar, um por um, aquela máfia italiana. Não sabia ao certo onde estava, alguém tinha de me ajudar. Foi quando entraram em cena Carmelo, um italiano que trabalhava no porto de Brindisi, e sua noiva, Laura. Foram meus escolhidos: jovens, simpáticos e, aparentemente, aptos para ajudar um estrangeiro desesperado. Ciao…Do you speak English? Não, não sabiam inglês. Carmelo disse que sabia falar hamburger e hot dog. Ok, mas agora não é o caso, fratello. Puxei meus ancestrais não sei de onde e fiz um portuliano. Surpresa, até que fui bem-sucedido. Pelos cálculos dos dois, se o trem andasse, eu teria uma meia hora para chegar da estação até o porto, o que era razoável, segundo eles.
Se o trem andasse. Mas o trem não andava, e os italianos xingavam, e eu já querendo caçar, matar e assar aquelas malditas ovelhas.
E o trem andou, e todos bateram palmas lá dentro. Viva a Itália. Sorri de novo e até senti carinho pelas ovelhinhas… mas logo o trem parou outra vez. Pensei que os italianos fossem descer e empurrar a velha máquina, de tão bravos… Soqueavam o trem, aturdidos. E ele andava um pouquinho… e parava um pouquinho… e mais gritaria e mais um sorriso, e assim, indo e parando, chegamos em Brindisi, uma cidade só famosa por seu porto com destino à Grécia e ao Oriente. E percebi que teria exatos dez minutos para chegar ao porto. Isso se descobrisse onde ele ficava.
Noite fechada, sexta-feira. Carmelo percebeu meu desespero. Então encarnou um Harrison Ford. Pegou sua mochila, Laura a dela, e saíram correndo, me dizendo pra seguir os dois. E eu com uma mochila enorme nas costas, daquelas meio do Exército, cada movimento e ela tascava com força nas minhas costas, e eu correndo, correndo, sou obediente e fiz o que eles me mandaram.
Pausa. Quase ouvia a musiquinha do CARRUAGENS DE FOGO. Percebia-me em câmera lenta… tan-tan-tcha-tan-tan-tcha-tan-tan-tan-tan-tan-tan…
Os brindisianos (?) na rua, tomando cerveja, riam daquela cena patética. Laura de sapatinho de salto, correndo, assumiu um personagem daqueles técnicos esportivos carrascos e me dava força pra não desistir. E os sapatinhos clac-clac… Oh, Dio, por favor, que estes saltos não quebrem, não quero ficar com remorso, a guria toda arrumada… Carmelo mais na frente, pra avisar o pessoal do navio. Quase sumia. E eu com meus trezentos quilos nas costas, já achando que ter chegado até Brindisi seria legal… ah, ok, olha no mapa, guri. Tu tá no sul da Itália. Tá, nem preciso ir até Atenas… Nem quero mais brincar de andar de navio…
Mas eles estavam tão compenetrados na missão de me ajudar, que me faziam segui-los sem raciocinar. Vamos vencer este desafio… não desista da medalha… O quê? Eu sou brasileiro e não desisto nunca… E foi então que, naquela maratona dos desesperados, tudo ganha sentido quando compartilhado. Olho para trás e… olá, colegas, bem-vindos a uma cena antológica (isso vai virar um texto, pensava eu). Descubro outros retardatários, suados, quase babando de desespero e… ops, tem um ali querendo até nos ultrapassar… Isto não ! Audácia. Aumentar o ritmo, vamos seguir na dianteira!
O mais legal era pensar: e se não estou correndo para o lado certo. E toda esta trupe aqui atrás. Hehe, seria engraçado.
Enfim, conseguimos. Saco, o navio foi avisado do atraso do trem. Nem precisei atuar, como nos filmes em que há cenas no porto: “Parem este navio”, e a distância entre o cais e o navio aumenta e a pessoa dá um salto… a plateia suspira… e a mãozinha agarra o ferro e começa a subir no navio. Não. Nada disso. A tripulação grega fedia a asa. Nos aguardavam, mal-humoradíssimos. Entro. Agradeço ao casal italiano e me pergunto se eles eram reais, ou seriam meu biso e minha bisa encarnados em… ok… nada de ghosts…
Feliz por conseguir ter chegado. Durmo em uma poltroninha, um pouco decepcionado… Parecia um ônibus aquático; cama só pagando mais. Tudo bem. Acordo em Corfu, a primeira parada na Grécia, e nem acredito. Uau. Está amanhecendo. Que imagem linda. Inesquecível. Chegamos no ponto final do navio, na pequena cidade de Patras, onde pegamos um trem até Atenas, percorrendo a costa grega. Uau, tudo muito bonito.
Olha lá as ovelhinhas de novo, mas essas são gregas, bem mais branquinhas e fazem um mééé diferente, na certa. No mais, paisagem de calendário: aquelas casinhas brancas, o mar muito azul. Me belisco.
É tão engraçado ouvir os gregos conversando. Parece que estão se xingando sempre. Combino com umas argentinas que estavam no navio de ir para o mesmo hotel que elas, recomendado no Let’s go to Europe. Fazemos a reserva por telefone, numa das paradas.
Chegamos em Atenas de madrugada. Pegamos um bonde, daqueles bem antigos. Eu me achando, nem acreditando… e pá. Um barulho assustador, todo mundo berra, o bonde quase vira. Ai, Jesus, o que foi agora? Um fogareu lá em cima, nos cabos. Uma das argentinas berra e desce correndo do bonde. O motorista, muito calmo, pede para todos descerem. O negócio desengatou, faíscas para todos os lados. Esperamos um pouco até arrumarem. Peço pra não morrer eletrocutado, pelo menos não antes de eu ver a Acrópole…
Não preciso dizer que o hotel é horrível, fede, num ponto tão barra pesada que todas as pessoas para quem pedíamos informações arregalavam os olhos ou torciam o nariz, a dizer, vocês realmente querem ficar lá?
Paciência. Chegamos. Campainha. Uma imensa escadaria. Ploft, ploft. Desce uma figura inacreditável, o porteiro-gerente, uma mistura de Cauby Peixoto com Hebe Camargo, numa peruca ruiva – será que ele acha que alguém acha que ISSO não é uma peruca? – que lembrava Walter Mercato. Inacreditável. E ele diz que como nos atrasamos passou adiante nossos quartos. Sorry, people change your plans… é tudo o que ele diz… Não acredito.
Na TV, Tom Cruise falando sobre o OSCAR. Porra, mundo globalizado de merda. Na nossa frente, esse ser esdrúxulo, vestido com um casaco vermelho puído, desbotado… Desespero. Queria arrancar aquela peruca e dar um soco na cara do cara.
Ele consegue um outro quarto pra mim, onde já dormem duas pessoas, roncando. Um quarto fétido, cheirando a peido estrangeiro, o que, acreditem, é muito pior, um cheiro podre, diferente, mistura de falta de banho com bafo e chulé azedo… Mas não há o que fazer. Vou tomar um banho, um banheiro improvisado que mais parecia um roupeiro com torneira. Ai Jesus.
Chega!!! Saio para comer, já de saco cheio das porteñas, e encontro um casal argentina-bolívia em uma lanchonete.
Conversamos.
Corta.
No outro dia.
Troquei de hotel. Segui o conselho dos meus amigos, o casal. Mais barato, muito melhor localizado. Ufa, eu mereço. Vamos esquecer tudo e começar do zero. Encontro uma cidade diferente, cheiro de orégano e ervas, feiras livres, um ar de oriente. Decadente. Rumo à Acrópole. Volto mais de dois mil anos no tempo e encontro um museu branco a céu aberto. Sento numa rocha, olhando a cidade lá de cima. E quase não acreditando, olhos cheios de água, tudo começou a valer muito a pena. Tudo. Retrospectiva bizarra: otremqueparavaoportoescondidoobondepegandofogoohotelvagabundo…
Tudo vale a pena. Aquele céu azul não sai da minha memória, em contraste com o branco da acrópole. Lindo. Viva a Grécia. Quando ando e me perco, os gregos gentis quase me levam onde eu deveria ir. Este sou eu mergulhando nos livros de história.
4 dias depois, vou embora. Desta vez, espertinho que sou, gasto mais e compro uma cama em um quarto, no navio. Sim, muito chique: uma cabine. Ainda não sabia que meu sono na caminha cara duraria poucas horas… só o tempo de perceber que minhas bagagens tinham despencado do armarinho e caído em cima de mim, luzinhas de emergência a piscarem. Enfrentamos um maremoto. Juro por Zeus. Mas isto já é outra história.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Paulo
ADOREI a viagem. Fui junto com o texto às risadas. Com certeza, deves ter outras passagens como essa da tua viagem à Europa Conta mais!Conta!
Abraço, Gilka
Paulo, foi muito bom encontrar seu texto, vi-me com você passando esses apuros; eu e meu marido, provavelmente, viajaremos para a grecia agora em setembro, gostaria de saber os dados do hotel em que você ficou e outrar dicas da grecia.
obrigada!