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categoria: EU ANDO PELO MUNDO

OPOSTOS DE SANTIAGO E VALPO

Santiago revela em ruas simétricas seus opostos. Em direção ao Parque Quinta Normal, ao leste do centro, para quem olha um mapa, uma cidade diferente finalmente aparece. Mais pobre, e nem por isso menos interessante. Testemunha-se filas em um hospital público, carrinhos de ambulantes a vender refrigerantes, biscoitos e guloseimas, e casas muito simples. Pessoas humildes sentadas nas calçadas, e uma vida que corre lenta neste domingo de sol intenso.

 

Ao lado contrário, a oeste do centro, em direção ao Pueblito de los Dominicos, belo recanto de tranquilidade e linda artesania, uma caminhada faz descobrir, assim que se chega no elegante bairro Providencia, uma Santiago rica, de lojas luxuosas e estilosas. E quanto mais se anda, mais cresce a riqueza de edifícios envidraçados e casas que demonstram um alto poder aquisitivo. Eis que nasce uma Avenida Paulista sem sujeira e confusão: é a Avenida Apoquindo. Centros comerciais gigantescos surgem, como o Parque Arauco, em uma composição diferente, mais horizontal. É o bairro Las Condes, o que há de mais nobre na cidade. Depois daqui, apenas as ricas fazendas encravadas nas montanhas das Cordilheiras. Também é para esses lados que aparece, pomposa, a Escola Militar. Impossível não se lembrar do período da ditadura e da formação danosa que aquele centro hierárquico deve ter proporcionado.

 

O povo parece sempre hospitaleiro. Os plátanos perdem suas folhas amareladas pelas largas ruas, e lembro-me de um muro escrito em Valparaíso, que dizia: Por qué se suicidam las hojas cuando se sienten amarillas.

 

A pouco mais de uma hora e meia de Santiago, Valparaíso é surpreendente. São tantas cidades em uma apenas. Valparaíso é um conjunto confuso de casa coloridas emparedadas, num sobe e desce peculiar. Logo que se chega, nas cercanias da estação, a gritaria dos vendedores ambulantes, o que destoa da pacífica, organizada e quase silenciosa Santiago em fevereiro, quase assusta.

 

Basta um caminhar para perceber-se o mais característico transporte da cidade: os elevadores. São antigos, caixotes desajeitados que sobem os morros – e são muitos – de Valpo, como carinhosamente a chamam os chilenos. No corte em diagonal, outra paisagem se revela: vai-se o burburinho, surge o canto das gaivotas: o mar agiganta-se.

 

E nestes dias de céu absolutamente claro, sem nuvens, a visão do oceano pacífico se faz poesia. Versos e rimas que, aliás, surgem nas casas simples que se fazem itinerário rumo à maior atração da cidade: La Sebastiana, uma das três casas de Pablo Neruda (as outras são em Santiago e em Isla Negra, ali perto).

 

As gigantescas ladeiras lembram Lisboa, assim como as casinhas e suas janelas com roupas à vista. Emolduradas pelo azul do céu e do mar, cada construção revela-se mais esquisita que a outra. O incrível é que aos poucos o olhar do turista começa a captar a magia do lugar, adaptando-se, e tudo faz sentido, esteticamente falando. As escadinhas brincam de esconder em um jogo de sete erros. Perde-se. Acha-se. Museu a céu aberto revela pinturas. Sobe-se. Desce-se. O caminhar é um desbravar constante, até chegar-se na Casa de Pablo Neruda.

 

Cada canto da casa, casa onde o poeta menos ficava, mas especial para ele por lhe ser inspiradora, mostra o jeito mais particular de Neruda. Aqui, diferente das outras, o turista pode entrar e sair dos cômodos sem pressa, e sem a companhia desagradável dos guias, exigência das outras duas. É assim que se pode perder horas analisando o bar do poeta, quase feérico em sua composição. Aliás, toda a casa é uma mistura de estilos, o que é a cara de Valpo. E os janelões revelam uma vista de perder o fôlego. Outra vez Valpo se faz tão parecida com Lisboa.

 

Os objetos pessoais, livros policiais… Os pratos, os quadros, tudo fala na casa. E é impossível não voltar ao tempo, quase vemos o poeta Pablo recebendo seus amigos nas vésperas do novo ano. Era sempre aqui que Neruda vinha para admirar o estourar de fogos na baía bela de Valpo.

No escritório, um pequeno suporte, uma espécie de gradeado horizontal, uma terraça, lugar que Neruda brincava ser para encontros extraterrestres. Talvez tivesse razão e tudo aqui seja coisa de outros mundos.

 

Abandona-se a casa. Mais caminhada. Sobe-se. Desce-se. Uma empanada de pina carne. Novos bairros incrustados, próximo ao porto, um dos mais importantes da América Latina, mostram-se mais requintados. Finas casinhas que funcionam de atelier apresentam ricas obras em artesanato. Pinturas e esculturas quase sempre inspiradas na própria cidade.

 

É uma passeio inebriante. Mirantes e miradas, e gentes nas janelas das casinhas coloridas a espiar aquelas pessoas estranhas que tanto olham, procurando simetria em lugares em que a matemática não se faz necessária.

 

Sobe-se.

 

Desce-se.

 

Valparaíso é patrimônio da humanidade, e não a conhecer, é um pequeno pecado. Grande pecado mesmo é fingir que se conhece, participando de tours que levam os viajantes dentro de suas gaiolas andantes, com ar-condicionado. Quem não respira a atmosfera contagiante da cidade, não a conhece. 

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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