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categoria: HIGH SCHOOL

SOBRE A SAUDADE E OUTRAS VIAGENS

Outro lugar muito legal que conhecemos foi Querétaro. Com tudo pronto, saímos em direção a essa cidade, de mais ou menos três milhões de habitantes, que fica a quatro horas de Aguascalientes. Querétaro, capital do estado de Querétaro (quase todos os estados mexicanos têm a capital com o mesmo nome) é tão interessante quanto Guanajuato. A diferença é que Querétaro é atualmente a segunda melhor cidade pra fazer negócios no México, e é um centro econômico, cultural e turístico.

 

Javier tinha uma reunião de negócios em Querétaro, então Sandra, Jorge, Dante e eu ficamos dando voltas pelo centro histórico da cidade. Como ficamos só por uma tarde, não deu tempo de ver tudo, mas tudo que deu tempo de ver foi muito interessante. Passamos por parques, museus, igrejas e até por uma árvore cujos espinhos saem em forma de cruz.

 

Uma das construções mais interessantes que eu já vi fica em Querétaro. O antigo aqueduto da cidade tem mais de um quilômetro de comprimento, e uma altura média de 23 metros. Foi construído por volta do ano 1730, a pedido de uma das freiras do convento local. O marquês que mandava na cidade se apaixonou por ela, e a freira prometeu que se ele construísse o aqueduto, ela faria algo que o levaria ao céu. Quando ele terminou, ela disse “legal, agora eu vou rezar uma ave maria e um pai nosso todos os dias, e dedicar a ti… assim tu vais para o céu”. O marquês, obviamente, ficou furioso…

 

Em Querétaro foi bombardeado um dos principais responsáveis pela independização do México. O austríaco Maximiliano I foi morto por conspiração em favor dos mexicanos, e tem umas quantas ruas e monumentos dedicados a ele na cidade. Infelizmente, não pude ficar muito tempo em Querétaro, porque voltamos na segunda-feira à noite.

 

Sobre a saudade

 

Ao viajar para o México, eu sabia que haveria um choque de culturas. Eu sabia também que sentiria saudades da minha família e dos meus amigos. O que eu não tinha em mente era que as amizades que eu criasse seriam muito importantes para mim. Ultimamente, eu me encarinhei muito pela minha família anfitriã atual e pelos meus amigos daqui, principalmente os outros intercambistas.

 

Estou há quase quatro meses vivendo com a família Rios. Eles são pessoas muito boas, e eu passei a gostar muito deles. Eu realmente não queria mudar de família, porque aqui tenho acesso à comida da casa, além de outros confortos que eu não tinha na primeira família. O ambiente familiar é outra historia. Eu estou tão feliz vivendo com eles que passei a gostar deles como se fossem uma família a mais (além das duas que eu já tenho no Brasil). Eles me disseram que também estão muito felizes comigo. Eu acho que de certa forma eu faço eles lembrarem-se de Jorge, o filho primogênito, que está nos Estados Unidos.

 

Antes de sair de intercâmbio, eu não imaginava que passaria a gostar tanto de uma família que, no início, me pareceu muito fechada, e muito fanática no que corresponde à religião. O que aconteceu foi que eu não só passei a aceitar algo do que eles pensam sobre religião, mas também encontrei quatro pessoas que são mais do que amigos para mim.

 

Desde o início da minha estada aqui no México, conheci muitos intercambistas e obviamente muitos mexicanos. Criei laços de amizade muito fortes com algumas dessas pessoas, e dói saber que daqui a uns meses já não vou mais ver ninguém desse pessoal… Não pensei que o intercâmbio fosse ter essa parte difícil também.

 

Apesar do carinho imenso que eu sinto pela família Rios e pelos meus amigos, a saudade do Brasil é cada dia maior. Quase todos os dias eu repasso mentalmente os últimos momentos que passei junto com o pessoal no Brasil. A cada vez que eu vejo fotos das minhas famílias e dos meus amigos brasileiros, me dá um nó na garganta.

 

Fora todo esse lance emocional, aprendi algumas coisas novas ultimamente. Estou aprendendo a tocar violão, e também a patinar no gelo. Violão é mais fácil do que eu pensava, mas patinar no gelo é fogo… Tô com todo o corpo dolorido, de tanto me espatifar no chão.

 

Estou também fazendo trabalho voluntário em um orfanato. Me apaixonei pelas criancinhas que vivem na Ciudad de Los Niños, uma espécie de cidade-orfanato que abriga cerca de 230 crianças e idosos. Conheci o lugar através de um padre amigo meu, que vai lá fazer caridade. Eu vou lá frequentemente ensinar inglês para as crianças, mas acabo brincando bastante com eles também. Quase todas as crianças já aprenderam o meu nome.

 

Esse lugar é recheado de crianças com histórias de vida horríveis. Há casos de crianças cujas famílias, por falta de condições financeiras, as abandonaram. Uns dois meninos apareceram lá cheios de sangue, após uma de muitas surras que já haviam levado dos seus pais. Este é o lar de muitas pessoas que tiveram a infância roubada, e com as quais a vida não foi nada gentil. O mais novo é um bebê de dois meses, que com três horas de vida foi abandonado pela mãe de 18 anos na frente da Ciudad.

 

No início, me apertava o coração ir lá e ver tantas crianças sem família própria. Acontece que depois que eu conheci o lugar, eu percebi que esses niños têm tudo do que precisam. Além de comida e um lugar para dormir, eles recebem o amor e o carinho das outras crianças, e dos padres e freiras responsáveis pelo lugar. Apesar de ser difícil para muitos dizer palavras como “família”, “pai”, “mãe”, todos são irmãos. Eles já me dizem que eu sou irmão deles, e os que têm consciência de que daqui a uns meses eu vou embora não querem que eu vá.

 

Esse lugar é “um pedacinho do céu”, e pra quem acredita nessas coisas, é visivelmente obra de Deus. Também não se pode desmerecer o imenso trabalho das freiras que cuidam das crianças, e do padre responsável pelo lugar. A pequena ajuda que eu dou ensinando inglês não me satisfaz… Eu gostaria de poder ajudar mais, mas creio que mostrar amor e carinho para essas crianças sem infância já é algo de inestimável valor.

 
 

Matheus Steffen - 16 anos, porto-alegrense, gremista, aluno do Colégio João XXIII, faz intercâmbio no México, vivendo na cidade de Aguascalientes, na região central mexicana.
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