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categoria: BOSTON/USA

SEVEN

O outono chegou e trouxe o frio que faz com que, todos os dias de manhã, eu perca o meu espírito escolar. A High School se tornou mais difícil de ser freqüentada por dois motivos: o primeiro conselho de classe, ou seja, o dia em que os professores dão uma nota para seus alunos está chegando. Eles, então, se esquecem de que sou uma estudante de intercâmbio e passam testes, temas e trabalhos de uma vez. Além disso, o frio faz com que a minha cama quentinha crie vida, me segurando cada vez que o maldito despertador toca.

 

Não sei se a estação muda as pessoas ou o meu senso de percepção. Pela primeira vez em dois meses, vi um casal de namorados se beijando. O beijo não pode ser chamado de “hollywoodiano”. Apenas uma singela demonstração de carinho, o que, na minha terra, as pessoas chamariam de “selinho”.

 

Entretanto, pude perceber outrosnão mais do que quatrocasais de namorados passeando de mãos dadas pelo colégio. Outro dia, ouvi, pela primeira vez, a famosa frase: “I love you”. Essa foi uma grande conquista para mim, visto que significa que, em dois meses, me tornei importante para alguém. Nesse dia, entrei na Internet e começamos a falar sobre a dificuldade de demonstrar sentimentos nos Estados Unidos.

 

Dei como exemplo a minha relação com a minha mãe, que faz com que eu repita todos os dias que a amo. Disse que acho necessário demonstrar nossos sentimentos para aqueles que amamos. Então, do outro lado do computador, a vergonha deu espaço para o sentimento ser expresso no teclado. I love you. Foi o que a minha amiga, ou melhor, minha primeira grande amiga desde que a minha vida mudou, disse.

 

Analisando o fato de que a minha amiga é de Hong Kong e de que a outra boa amiga que eu tenho aqui é brasileiramas mora nos EUA há anos – posso afirmar que os americanos não são pessoas muito afetivas.

 

Após a High School, por exemplo, os filhos vão para colleges, universidades, em outros estados ou países, e comemoram a tão esperada liberdade. Os pais, então, são desejados a longa distância ou em momentos de sufoco. “Mãe, o Canadá é frio! Me manda uma jaqueta.” “Mãe, me ajuda! Eu tenho que aprender a cozinhar.” São essas as frases ditas pelo filho mais velho da minha família, diretamente de Montreal, via telefone.

 

A mãe da minha amiga, a brasileira, me disse certa vez: “Apesar da violência e dos problemas sociais, o nosso povo está sempre de “braços abertos”, ou seja, os brasileiros são muito amigáveis e emotivos.

 

O primeiro “I love you” foi dito. Continuo, então, a minha jornada rumo ao terceiro, quarto, quinto… É muito complicado deixar algum sentimento no “coração americano”.

O frio pode não ser universal, mas o amor é.

Lívia Guilhermano - Quando foi para Weston e escreveu para o argumento.net, tinha 16 anos. Atualmente, é estudante de jornalismo na UFRGS.
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