Vivendo já há algumas semanas no México, em intercâmbio, resolvi registrar alguns aspectos da cultura mexicana que eu achei interessantes.
Total descaso com horários
Os mexicanos não parecem ter nenhum senso de preocupação com a pontualidade. Em várias oportunidades, fui criticado por perguntar a que horas deveríamos chegar a determinado local ou compromisso, e se já não deveríamos preparar-nos para sair de uma vez. De fato, uma das primeiras coisas que minha mãe daqui me ensinou é que tudo no México é relativo. Não há exemplo melhor para isso que a reunião do Rotary Club, que estou frequentando: a reunião, marcada para as duas horas, começou às três e meia, e isso foi considerado perfeitamente natural. O próprio presidente não chegou antes das três!
O horário das refeições também é totalmente sujeito a mudanças diárias. O café da manhã pode ser às seis horas ou lá pelas seis e meia, dependendo da vontade de cada um de despertar. O almoço é o horário mais subjetivo de todos. Podemos comer às duas horas (assim que eu chego do colégio) ou podemos esperar até as três e meia, quando meu irmão chega à casa. Isso, é claro, quando ele não atrasa. A janta depende de cada um. Na casa onde estou vivendo, cada um prepara a sua comida noturna, e come quando quiser.
Para dizer a verdade, eu passei a gostar de não ter estresse com horários. Como as pessoas não se importam com atrasos, não é necessário estar toda hora apressado, e isto é agradável.
Tudo é pretexto para beber
Um fortíssimo aspecto da cultura mexicana é o álcool. Não demorou para que eu notasse que o povo daqui está mais do que acostumado a beber exageradamente, e já fui informado em mais de uma ocasião que tudo é pretexto para uns goles de cerveja. A veracidade desta informação se evidencia nas protuberantes barrigas de chope que exibem muitos mexicanos.
Na quarta fui com meu irmão daqui à casa de um amigo dele, com o propósito de assistir à partida da seleção do México contra o fraco time da Colômbia. Mais do que nunca eu acreditei que tudo é um pretexto para beber, pois cada um dos caras que estavam lá bebeu cerca de seis cervejas (Dario,meu irmão daqui, não bebeu naquela ocasião porque cabia a ele dirigir o carro de volta pra casa). Eu parecia ser o único que dava qualquer importância à partida. Fui o único que vibrou quando o goleiro mexicano defendeu um pênalti mal batido pelo atacante adversário, e o único que demonstrou qualquer frustração com a derrota da seleção nacional para os peladeiros da Colômbia.
Após a partida, me questionaram sobre a importância que a seleção do México tinha para mim, pois eu parecia ter ficado um pouco desapontado por perder para a Colômbia… Imagina se eles me vissem assistindo a um jogo do Grêmio.
As festas às quais compareci até agora também eram uma mera reunião para “ponerse borracho”. Eles não dançam, dificilmente se vê um casal se beijando, e os caras daqui parecem estar muito mais interessados em saber quem bebe mais do que nas mulheres. Até agora eu não encontrei nenhum mexicano que não bebe.
Chili
Tudo, absolutamente tudo, pode ser complementado com chili. Salgados, doces, e até aquelas balinhas de criança são incrementadas com este condimento, e em alguns casos eu me pergunto: “por que diabos eles comem tanto essa coisa?”
Já perdi a conta de quantas vezes eu já me “enchilei” aqui. Como eu não consigo ficar sem comer durante o período de aula, porque almoço muito tarde, sempre acabo levando algo de casa ou comprando na lanchonete da escola. Quando eu compro algo, é natural que esse algo leve chili. Não há grandes problemas quando se sabe que aquilo que você está prestes a comer vai queimar a sua boca, pois nesse caso, você já se prepara antecipadamente. O ruim é quando a gente morde algo estranho e repentinamente parece haver um incêndio em sua língua, e isso já aconteceu algumas vezes…
Se algum dia vierem ao México, não acreditem em um nativo que lhes diga que a comida “no pica”, porque na maioria das vezes a comida “pica” bastante.
Na escola, me deram para provar uma balinha, aparentemente inofensiva. Foi simplesmente a coisa mais horrível que já comi. Assim que pus aquele maldito doce (que nem chega a ser doce) na boca, me arrependi solenemente de tê-lo feito. Além de ter chili naquela porcaria, o gosto em si era pior do que horrível.
Eles comem também o chili puro. Sim, purinho: pegam a pimenta e mordem. Uma vez me deram uma pimenta verde, pequenina. Criei coragem e mordi toda de uma vez. Tive a impressão de que havia um incêndio em minha boca. As chamas queimavam minha língua impiedosamente e desciam de forma tortuosa pela minha garganta, para finalmente explodir no meu estômago como uma bomba. Logo após essa indesejável experiência, fui informado de que aquele era simplesmente o chili mais forte que existia.
Todos se cumprimentam
O povo mexicano é naturalmente simpático. Pelo menos aqui na cidade de Aguascalientes todos se “saludam”, mesmo que não tenham ideia de quem seja a pessoa que estão “saludando”.
Gostei muito deste aspecto em particular da cultura mexicana. É muito agradável ver as pessoas na rua e cumprimentá-las, e logo em seguida ser cumprimentado com um sorriso.
Tacos, Tortillas e Quesadillas
A cada esquina existe uma taqueria, ou algum comerciante que venda tortillas e quesadillas. Na quinta, saí com David (meu pai daqui) e Dario para comer tacos. Os sete tacos que eu comi estavam simplesmente deliciosos! Pelo quase patético preço de 5 pesos cada (cerca de setenta centavos de Real) comi muito melhor do que se come em um Mc Donalds, por exemplo.
Dinheiro
Quase tudo aqui é barato, principalmente a comida. Mesmo assim, dinheiro vai tão rápido como se o estivéssemos queimando. Uma nota de cem pesos não dura nada! É triste ver aquela nota bonita, que pelo número 100 presume-se valer muito, evaporar da carteira quase instantaneamente.
Sem falar nas moedas. No Brasil eu sinceramente não dava o valor devido às moedinhas. Aquelas coisinhas chatas que ficam fazendo barulho, e que mal são dinheiro! Aqui no México não… Eles têm moedas até de vinte pesos! Toda vez que pago algo com notas, me devolvem em moedas. Já recebi troco de 110 pesos em moeda! Vale lembrar que um real equivale a 7.7 pesos, e cada vez vale mais. Em setembro, estava valendo sete.
Bom, por enquanto, acho que é isso… Assim que bater a inspiração novamente, escrevo mais sobre a vida de um adolescente brasileiro no México.
Matheus Steffen - 16 anos, porto-alegrense, gremista, aluno do Colégio João XXIII, faz intercâmbio no México, vivendo na cidade de Aguascalientes, na região central mexicana.
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Muito legal a tua descrição do México!!! Gostei muito!!
Um abraço e continua mandando relatos das tuas experiências.
Margarete Hülsendeger
Muito bom Matheus
Adorei teu relato
continue escrevendo, é uma experiência e tanto.
Parabéns pelo contraponto, aspectos positivos/negativos da cultura, assim é que se avalia o novo.
felicidades
Eliana Lugon
Matheus ri muito com os seus comentários sobre o méxico, pois estava pesquisando sobre a cultura, tudo muito formal quando acabei encontrando sua página e com certeza na hora da minha apresentação sobre a culinária vou lembrar de vc, comendo as balinhas de chili.
Divertido e enriquecedor o seu texto. Estou pesquisando sobre a cultura mexicana para um trabalho na faculdade, e com certeza suas palavras servirão de base para mim. Obrigada e continue assim! Escreve muito bem para um rapaz tão jovem.