É. Chegou a hora. A família na frente do portão de embarque, todo mundo segurando o choro. O melhor é nem se despedir. Fingir que é só uma viagenzinha, que vai voltar logo. Mas não é. É o tal do intercâmbio, meio ano, mas por outro lado pensa só em vinte semanas. Dependendo fica melhor.
Mas aí quando eu penso em “Nova Zelândia” vem o que na cabeça? Ovelhas, kiwis, neve e praia. Natureza! Nada mais que isso, mas é isso que eu quero. Estou indo para uma cidade pequena (ou minúscula) justamente para fugir do caos e aproveitar a simplicidade. Nelson tem 50 ou 60 mil habitantes, no norte da Ilha Sul. Sei que assim não vou conhecer muita gente, mas vou conhecer todo mundo.
Passando o portão de vidro, a ficha ainda não caiu. Até São Paulo eu ainda estou numa boa. Encontro a gurizada do resto do país e embarcamos para o Chile. Depois de quase vinte e quatro horas entre aeroportos e aviões, embarcamos rumo a Auckland. Aí a gente pega um voo de desconfortáveis e longas treze horas. Cadeiras péssimas e comida que dispensa comentários. Mas “tá tranquilo”, é do jogo.
Depois de passar a alfândega, tem aquele momento de felicidade e tristeza juntas. A primeira ligação do país. Se a tua mãe chorar no telefone saiba que é normal, a mãe de quase todo mundo chorou. Depois disso vem um dia que parece durar uns cinco. “City Tour” e palestras dos coordenadores. A noite no hotel é só loucura, parece que estamos em uma viagem pra Disney. Só os brasileiros fazendo confusão nos quartos.
No outro dia é que todo mundo se divide. Cada um vai pra sua cidade, o aeroporto fica em tom de despedida. Agora a gente pega um avião minúsculo (de hélice) que chega num aeroporto minúsculo onde vai ter uma família esperando. Depois de pegar as malas rola o primeiro contato. É estranho como eles quase nem apertam as mãos.
Quando tu entra no carro da família e puxa um assunto qualquer, vem aquela resposta num sotaque pra lá de estranho. Tu realmente não entende nada. É aí que a ficha cai.
Com um pouco mais de tempo, tu descobre que a carne de ovelha na verdade é cara, kiwis só em reservas; é muito frio pra ir pra praia e as pistas de ski são longe. Mas a natureza é realmente impressionante. Pelo menos uma coisa eu acertei.
Bem, de resto a gente “só” conhece a nova casa, os novos irmãos (no meu caso, uma nativa mais dois que já saíram de casa; além de outros intercambistas: um alemão, um de Hong Kong e uma Vietnamita) e os novos costumes. Mas isso a gente vê com o tempo. Intercâmbio é isso.
Ah! E a semaninha de férias acabou, segunda-feira já tem aula.
Gustavo Tessler - Gremista, aluno do segundo ano do Ensino Médio do Colégio João XXIII, participa de um intercâmbio em território neo-zelandês, na pequena cidade de Nelson.
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