O que se faz quando todos os sonhos se acabam? É partindo dessa premissa que o diretor Pablo Trapero constrói seu NACIDO Y CRIADO, outro representante da Argentina a concorrer entre os latinos. Trapero é diretor do ótimo FAMÍLIA RODANTE, mas aqui o seu talento não voa muito longe.
Não que NACIDO Y CRIADO não seja um bom filme. O problema é a previsibilidade e o exagero em que os extremos são tratados. Extremo 1: a feliz e perfeita família de Santiago, digna de comercial de margarina. É bem casado e tem uma linda e esperta filha. Sua casa é lindíssima, tudo muito branco e clean. Tudo compactua para aquela felicidade irritante. Todos bonitos e felizes. Decidem viajar. O óbvio. Um acidente, previsivelmente filmado, acaba com todo o paraíso.
Extremo 2: Santiago está sujo, barbudo, com cicatrizes e vive no gélido sul argentino. Agora o branco vem da ausência de todo e qualquer calor, tanto o afetivo, quanto o climático. Santiago trabalha num aeroporto no fim do mundo e esconde seu passado. Até que a morte da esposa de um colega de Santiago traz à tona todos os sentimentos mal-enterrados.
Apesar de ser uma coletânea de clichês, NACIDO Y CRIADO consegue ter muitos méritos, em especial a excelente atuação de Guillermo Pfening. O elenco de apoio também é muito bom, o que aliás é uma constante no cinema argentino. Ainda que o roteiro oscile e derrape em seus próprios exageros, há ótimas cenas e bons diálogos.
NACIDO Y CRIADO não animou a platéia de Gramado, mas teve um bom volume de aplausos.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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