- Entendeste alguma coisa?
- Nada… Que filme complicado…
- É sempre assim. Eu nunca entendo esses filmes brasileiros do festival. Sempre muito chatos…
- E a gente todo ano está aqui
O diálogo acima é reproduzido a partir da conversa de duas distintas senhoras, sentadas na platéia do Palácio dos Festivais, no dia da abertura do 35º Festival de Cinema de Gramado, logo após a exibição de CASTELAR E NELSON DANTAS NO PAÍS DOS GENERAIS.
As distintas senhoras e 80% da platéia viu e, provavelmente, não entendeu o filme de Carlos Prates, diretor amplamente premiado em Gramado em anos anteriores com CABARET MINEIRO e NOITES DO SERTÃO. Digo 80% – ok, talvez 90% – porque os aplausos foram tão tímidos, mas tão tímidos, que se podia contar na palma da mão quem estava aplaudindo.
Não que o filme seja complicadíssimo; é justamente a simplicidade que traz o estranhamento à obra. CASTELAR… é uma colagem de filmes produzidos no sertão mineiro durante o período da ditadura militar. Trechos de obras de Joaquim Pedro, Andrea Tonacci, Alberto Graça, Carlos Prates e Schubert Magalhães compõem uma sinfonia animada, entre a pornochanchada e o cinema político, sempre provocativo. O problema é que o produto final é pouco palatável para o público em geral, ocasionando bocejos em grande parte da platéia que assistia à obra.
A participação do elenco, que faz pequenos comentários, também não ajuda muito, já que, por vezes, os diálogos são herméticos, ainda que combinem com a doidice das imagens editadas na tela. Certamente CASTELAR receberá algum kikito, pelo tom documental do projeto, talvez em montagem. As senhoras distintas não gostaram do filme, mas concordariam que a edição é excelente.
O segundo filme da noite provocou reação oposta na platéia, sendo muito aplaudido, até ovacionado com gritinhos e assobios. Era VALSA PARA BRUNO STEIN, cinemão gaúcho dirigido por Paulo Nascimento, baseado na obra homônima de Charles Kiefer.
Walmor Chagas interpreta o personagem principal, dono de uma pequena olaria e também escultor, que vive no meio do nada com a mulher. Nesta casa, vivem(?) a nora e as três netas (ainda que duas delas entram mudas e saem caladas do filme). Entre silêncios e o nascer do tédio, Bruno Stein e Valéria, a nora, interpretada por Ingra Liberato, começam a desenvolver uma paixão proibida.
Todos os elementos de um cinema comercial estão aqui expostos, muitos deles de forma bem competente: um elenco conhecido que desamarra os nós de um drama familiar incestuoso, uma fotografia amarelada que explora muito bem a bela paisagem gaúcha, uma trilha sonora agradável, coadjuvantes que roubam a cena – caso de Sirmar Antunes, que faz um trabalhador mau-humorado bastante divertido.
A fotografia, aliás, juntamente com a direção, produzindo diversas cenas de personagens na varanda do casarão, lembra aqueles filmes norte-americanos ambientados no sul dos Estados Unidos, nos quais a própria natureza da região integra a obra. A trilha reforça essa idéia.
Se são muitos os méritos, são também vários os problemas, a começar pelo roteiro. Em certa altura, a neta, interpretada por Fernanda Moro, que apresenta altos e baixos no filme, diz que está louca para voltar para a cidade, deixando claro que ali é um lugar de férias. A mãe, porém, é questionada sobre por que viver naquele lugar. Morariam as filhas longe da mãe? O próprio material de divulgação do filme diz que todos vivem naquela casa, mas há cenas contraditórias que afirmam uma coisa ou outra. E isso é fundamental para que o público entenda as motivações dos personagens.
Outro problema são alguns diálogos pouco convincentes, como quando a mãe interrompe um passeio da filha para conversar sobre sexo. Ou quando o drama descamba na mesa da família, sempre gerando discussões óbvias. Também o eixo central do filme, a paixão entre sogro e nora, tem o sentido um pouco esvaziado, tendo em vista os outros tantos dramas que perpassam a história: a chegada do misterioso forasteiro, o pai bêbado do funcionário, a revolta da neta contra o avô, etc. Ressalta-se, ainda, que a excelente Aracy Esteves é, mais uma vez, pouco aproveitada numa produção gaúcha (aliás, desde ANAHY ela não recebe um papel de destaque).
Os melhores momentos de VALSA ocorrem quando se reúnem os três empregados de Bruno e o patrão, especialmente porque Sirmar Antunes tem bons diálogos e cai como uma luva para esse tipo de personagem.
VALSA PARA BRUNO STEIN não faz feio no todo, prova disso foi a calorosa recepção que teve quando foi exibido pela primeira vez para a platéia de Gramado. É um filme de boa produção, com bom elenco, que pode levar um bom público aos cinemas. Com relação a kikitos, muitos dizem que Walmor Chagas receberá o seu.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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