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categoria: 2007

IDÉIAS CURTAS

Terça-feira de sol e calor em Gramado. Quase 60 adolescentes perambulam pelas ruas da cidade serrana com a curiosidade típica da faixa-etária. São meus conhecidos, todos eles. Mais especificamente, meus alunos do segundo ano do Ensino Médio do Colégio João XXIII, que fazem parte de um projeto de curtas na escola. Eles devem produzir um filme baseado em contos de Machado de Assis neste ano.

Pois bem, estavam essas dúzias de adolescentes por Gramado, como eu dizia, entre chocolates e máquinas digitais em busca de algum semblante conhecido (e até Tatata Pimentel, na falta de celebridades maiores, entrou no visor de um deles), aguardando os 4 primeiros curtas da seleção nacional do Festival. A partir deste ano, a mostra é exibida em 3 dias, em programas de 4 ou 5 filmes.

- Paulo, com esses curtas dá vontade de sentar num cantinho e chorar, disse-me uma das minhas alunas, expectativas um tanto frustradas, a qual inclusive pretende estudar cinema na faculdade.

Não posso deixar de concordar com a Bárbara. Os 4 primeiros curtas apresentados no 35º Festival de Cinema de Gramado não apresentaram grandes inovações. O primeiro, muito bem produzido, foi PERTO DE QUALQUER LUGAR. Pop na linguagem, apostava na empatia com o público adolescente. Sorte a produção teve, pois a platéia estava repleta dele, os meus e outros, de outras escolas. Ainda assim, a história da primeira vez sob a ótica de uma menina não empolgou completamente. O bom elenco parece ser de uma geração além da retratada na tela. Não dá para acreditar muito que aquelas meninas tenham seus 15, 16 anos… Mas isso é um mero detalhe.

O filme começa bem, numa brincadeira quase surrealista pelos andares de um prédio. Entre bobagens típicas da fase, um casal se descobre e transa. A partir daí, PERTO DE QUALQUER LUGAR segue alguns estereótipos básicos: o da menina-apaixonada que fica na eterna espera de um telefonema; o do cara-insensível que some; os conselhos da melhor amiga que, talvez, nutra sentimentos maiores que a amizade, etc. Apoiado numa boa trilha sonora, com fotografia competente, o curta de Mariana Bastos ainda assim começa a perder o fôlego, até a previsibilidade da seqüência final. Contudo, a última cena, muito bem filmada, é um alento e injeta um pouco de vida na quase moribunda personagem principal que, embalada na música de um night club, deixa-se envolver pelo ritmo, como quem diz que a vida continua. E é óbvio que continua.

O segundo curta da tarde foi inventivo ao extremo e também ofereceu bons momentos, ainda que o seu final tenha sido por demais auto-referencial. O tão na moda docudrama traz o encontro de um estudante com Valter José, um ser complexo, diretor de vídeos pornôs e pós-doutorando em filosofia na USP. A grande sacada do filme é a utilização apenas do áudio do encontro entre Valter e uma prostituta, enquanto o tal aluno o aguarda. Filmado quase todo num plano-seqüência, A PSICOSE DE VALTER é um exercício estiloso que acaba por se perder em suas próprias pretensões.

O terceiro da tarde foi OFICINA PERDIZ, simplório curta-metragem que só tem interesse pela figura sensacional de Perdiz, proprietário de uma oficina mecânica situada em local irregular, em Brasília, oficina essa que ainda funciona como espaço teatral. Por demais televisivo, OFICINA PERDIZ não traz nenhuma inovação e só se sustenta pelo carisma do personagem documentado, ainda que apenas isso não seja suficiente para garantir um bom programa.

Para fechar a tarde, se o primeiro filme exibido falava sobre sexo e sentimento do ponto de vista de uma menina, em BALADA DO VAMPIRO é a visão masculina sobre sexo que entra em jogo. Uma visão tarada, machista e poética, surgida a partir do texto de Dalton Trevisan em seus contos que se passam em Curitiba. É um desfile de mulheres (mas só tinha mulher feia, sor, ainda me disse um aluno depois) em trajes sensuais – ou nem tanto –, com narração em off desse vampiro canalha que funciona melhor na literatura, ainda que o curta tenha seus bons momentos.

O fim da primeira sessão deixou um ar de frustração. Se bem me lembro dos bons tempos de Festival de Cinema de Gramado, eram sempre os curtas que mereciam os maiores destaques. Esperemos pelos próximos!

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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