// você está lendo...

categoria: 2007

COCALERO: OS BASTIDORES DA CAMPANHA DE EVO MORALES

O primeiro concorrente latino do Festival de cinema é argentino, mas trata da campanha eleitoral de Evo Morales, candidato do MAS (Movimento Socialista) que se consagrou presidente da Bolívia.

Ainda que em técnicas cinematográficas COCALERO não apresente, na modalidade documentário, nenhuma novidade estilística, Morales revela-se uma figura carismática frente às câmeras e o longa de Alejandro Landes, lento em alguma medida, conseguiu cativar a platéia de Gramado. Para o público brasileiro, aliás, é impressionante o sabor de deja vu, pois as articulações armadas pró e contra Morales lembram, e muito, às que assistimos por aqui quando das primeiras eleições de Lula.

É a mesma bandeira nacionalista que sacoleja, mostrando a importância de um homem nativo – do povo, indígena – alcançar um posto inimaginável anos atrás. Essa mesma referência serve de base para a oposição, gritando que Morales é um despreparado, semi-analfabeto, etc. Interessante a passagem em Santa Cruz, terra onde Morales registrava os piores índices de popularidade, quando é xingado pelo povo num aeroporto.

O cerco da mídia também é registrado pela câmera de Landes, que mostra a força de uma jornalista operando em níveis que, por vezes, escapavam de um simples questionamento sobre o projeto do futuro presidente e invadiam a ideologia partidária, indagando, por exemplo, se a Bolívia ficaria repleta de cubanos, como teria se transformado a Venezuela de Chaves. Também é mostrado um comercial sobre o medo que certas pessoas tinham se Morales vencesse, campanha que remete à clássica de Regina Duarte mostrando-se amedrontada caso Lula chegasse ao poder.

Com relação à coca, à folha de coca, é interessante percebermos uma desmitificação da planta. Os nativos e alguns dados de importantes universidades mundiais mostram que, in natura, ela faz bem à saúde. E no caso boliviano, a folha da coca é que move parte da economia da região de onde Evo saiu.

Polêmico como era de se supor, COCALERO desnuda os bastidores da campanha que levou um descendente de índios ao poder. Destaque também para a pobreza do aparato da campanha, mostrando que muito mais que mídia, Morales contou realmente com seu carisma e com o diferencial de ser do povo para chegar onde chegou. Nunca sendo didático nem completamente parcial, já que deixa bem claro uma possível permanência exagerada de Evo no poder, COCALERO é uma boa aula sobre a História contemporânea da América Latina.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini

Comentários

Sem comentários para “COCALERO: OS BASTIDORES DA CAMPANHA DE EVO MORALES”

Deixe um comentário