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categoria: 2005

TERCEIRA NOITE

Tinha em mente, desta vez, não me referir a outras coisas que não aos filmes. Mas é impossível. O Festival de Gramado está se aperfeiçoando, a cada ano, na auto-promoção. O que não é condenável, não. Apenas uma direção um pouco diferenciada e, talvez, perigosa. A própria estrutura do Festival privilegia o glamour, ao estender tapetes vermelhos e montar arquibancadas para o público tiete. O que tem se repetido nos últimos anos é quase um constrangimento aos não-famosos que passam pelo tapete, em especial aos não credenciados nem como imprensa ou convidados, que são achincalhados por uma platéia, não raro, mal educada. Piadinhas preconceituosas, bagacerices de deixar vovó vermelha, impropérios, enfim, é uma artilharia de gosto duvidoso às portas do Palácio dos Festivais. Os famosos também padecem com o desespero desmedido de fãs afoitos, que berram, se escabelam e gritam palavras inacreditáveis, além de serem xingados, muitas vezes.
Mas enfim, a terceira noite oficial de Gramado trouxe muita, muita chuva, mas nem ela, a chuva, arrefeceu os ânimos de excursões de tietes, que deságuam na cidade serrana, saem de seus ônibus e partem para o ataque. Enquanto personalidades do calibre de Anderson Muller, Eunice Baía (a Tainá), Letícia Spiller, Dalton Vigh desfilavam pelo tapete vermelho, os fãs urravam como numa arquibancada em dia de clássico de várzea, quebrando cadeiras de plásticos dispostas ao longo da passarela, ao pularem de pé, em cima delas.
Mas vamos aos filmes:


DO LUTO À LUTA – O diretor Evaldo Mocarzel está se especializando no Festival de Gramado, já kikitado por À MARGEM DA IMAGEM dois anos atrás, também tendo participado ano passado com o belo MENSAGEIRAS DA LUZ. Em DO LUTO À LUTA, Evaldo tenta desmitificar a síndrome de down, mostrando como, hoje em dia, os familiares já encaram com outros olhos a doença. Há belos personagens, como o casal que aparece no final do filme, com uma desenvoltura encantadora. A lamentar, apenas, um certo formalismo na condução do roteiro. Não há nada inovador, tudo é meio repetitivo. Outro ponto negativo é a escolha de famílias de classe média para cima. Seria muito interessante observar como se desenrola a situação na margem da sociedade, ouvindo famílias com baixo níveo sócio-cultural. De qualquer maneira, DO LUTO À LUTA é um filme necessário que, aliás, já tem ganho espaço de luxo na televisão, na onda da novela global América.

COMO SE FOSSE ONTEM – Uma história bobinha, com depoimentos manjadíssimos dos atores para a câmera, a la PEQUENO DICIONÁRIO AMOROSO, contando o amor entre um casal numa final de um campeonato de futebol de bairro. Nada acrescenta, mas também não incomoda.

GAIJIN – AMA-ME COMO SOU. A primeira coisa que se pode pensar: ”Por que esse subtítulo inacreditável?” A segunda, após o término da obra: Por que fazer esse filme?” Tizuka Yamazaki é uma das cineastas que mais levou público às salas de cinema, menos pela qualidade das suas obras e mais devido aos mega-projetos comerciais dos quais fez parte, do tipo Xuxa e Os Trapalhões. Pois seu projeto de dar seqüência ao premiado em 1980 em Gramado, GAIJIN, por tanto tempo acalentado, é quase kamikaze.
Um dos maiores males do cinema é a pretensão. Por que não pensar numa história simples, com um bom roteiro e bons atores? Porque existe a possibilidade de se fazer algo grandioso. Invariavelmente, esses projetos fracassam.
GAIJIN é constrangedor; um épico que pretende mostrar quatro gerações de japonesas em terra brasileira, mais precisamente, no Paraná, em Londrina. A história é mal amarrada, repleta de clichês, a começar pela surrada idéia do narrador-que-escreve-um-livro e conta ao espectador a grandiosidade dos fatos. Tudo é superlativo na obra: um didatismo piegas, uma adjetivação irritante, a duração de mais de duas horas. Neste filme, tudo acontece, desde a imigração japonesa, passando pelas guerras, até tragédias naturais como um terremoto. O roteiro tem falhas infantis, com diálogos sofríveis que incluem pérolas como: “Sim. É e etc. A atuação de parte do elenco é também fraca, em especial de Tamlyn Tomita (atriz de Hollywood, fez filmes como GRANDE HOTEL), nas cenas mais melodramáticas. Inexplicável também é a escalação de bons atores para papéis minúsculos, que ficam minutos (e olhe lá) na tela, casos de Zezé Polessa, Luis Melo e Mariana Ximenes. Mas há, ainda, micro participações de Dado Dolabela e Louise Cardoso.
GAIJIN tenta abarcar tanto que fica até difícil resumi-lo, mas, enfim, o filme trata da vinda de uma japonesa com sua filha ao Brasil, em busca de uma vida melhor no novo paraíso: Londrina. A menina casa com um professor, que é assassinado por um tio malvado que fica com raiva de quem dizia que o Japão havia perdido a guerra. Apesar de absurda, a trama é baseada em fatos reais. A direção é pesada. Não há sutileza nas cenas, tudo é exageradamente dramático, querendo emocionar. Mas voltando à enorme sinopse: da união deste casal, nascem o nosso narrador que levou um tiro e ficou paraplégico quando criança e a heroína que se casa com um italiano mercenário (Jorge Perrugoria, em atuação desastrosa). Esse foge para o Japão depois do casal se separar e… e por aí vai.
Junto a isso, as situações se alternam absurdamente – problemas de roteiro e edição – e o espectador, a certa altura, parece estar vendo o mesmo filme de quinze em quinze minutos.
Infelizmente, tirando a divertida vovó, interpretada por Aya Ono, já favoritíssima para o kikito de coadjuvante (ainda mais que ela está em Gramado), nada dá certo no filme, que tem mais cara de um gigantesco audiovisual do estilo GENTE QUE FAZ, mostrando a garra do povo japonês e a colonização de Londrina. Lento, repetitivo, mal acabado. E selecionado para a competição especial. Se Gramado quis apostar numa auto-homenagem ao escolher um filme-continuação de um vencedor de kikito, o tiro saiu pela culatra.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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