// você está lendo...

categoria: 2005

QUINTA NOITE

DESVENTURAS DE UM DIA OU A VIDA NÃO É UM COMERCIAL DE MARGARINAAnimação paulista, dirigida por Adriana Meirelles, o curta conta a história de uma jornalista num dia maluco de seu cotidiano. Tem boas sacadas, como quando a personagem se transforma em criancinha ao ouvir a bronca do chefe, ou quando recebe a visita do chato da informática, prontamente dispensado, a quem, depois, precisa se rastejar para pedir um favor. Pode levar algum kikito especial.

EM TRÂNSITO – O documentário de Henri Arraes Gervaiseau tem um início inquietante. Pessoas caminham de um lado para o outro, sem nada falar. São alguns minutos de silêncio ruidoso, pois o que o espectador ouve é o barulho da cidade de São Paulo, que provocam uma monotonia enorme. Aos poucos, porém, esses rostos apressados vão ganhando nomes, e a platéia vai comprando a idéia (teve aplausos em cena aberta) do tempo que se perde – e se ganhadurante os trajetos dentro de um meio de transporte. Gervaiseau entrevistou pessoas que pegam metrô, ônibus, trem, van, as que andam a por não terem dinheiro e, ainda, motoboys, motoristas de ônibus e de carro. Tem personagens fantásticos, que garantem o interesse até o final da obra e comprovam o óbvio: é uma excelente mostra competitiva esta dos documentários de 2005.

ÍMPAR PAR – Uma fábula sobre pés, sapatos e almas gêmeas. O bem cuidado curta do diretor Esmir Filho cativou a platéia de Gramado, com a história de um sapateiro que se apaixona por uma mulher. Destaques para a trilha sonora, a fotografia e a direção de arte deste belo trabalho que conta com a participação especial de José Rubens Chachá e da sumida Imara Reis. Uma curiosidade é a produção executiva da vj da MTV Sarah Oliveira, que também faz uma participação especial.

DIÁRIO DE UM NOVO MUNDO – O aguardado trabalho de Paulo Nascimento, terceiro longa gaúcho em competição, baseado no livro do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, Um quarto de légua em quadro, (aliás, imperdoável a grafia incorreta do nome do autor nos créditos iniciais), encanta pelo cuidado artístico. Fotografia, direção de arte, figurinos, trilha sonora (inusitada para um filme de época, assinada por Duca Leindeker, bem moderninha, com solos de guitarra e etc), tudo enche os olhos. A direção de Nascimento também revela maravilhosos passeios de câmera, especialmente nos primeiros trinta minutos do longa. O médico (Edson Celulari, em atuação correta) que vem ao Brasil, no século XVIII, e se envolve com uma mulher casada, no sul da colônia, conta um pouco da história da colonização açoriana em terras gaúchas. A bela mulher em questão é Daniela Escobar, com quem tem um caso proibido em pleno conflito entre Castela e Portugal – a mulher é casada com um oficial português. A obra é um dos clássicos da literatura gaúcha, mas a transposição para as telas, infelizmente, resultou num filme irregular. A primeira metade é excelente e promissora, mas aos poucos a narrativa tem problemas de ritmo, ora apressado, com eventos históricos mal explicados à platéia, ora lento, com demoradas seqüências repetitivas mostrando a bela geografia local. Apesar disso, é louvável o profissionalismo da equipe, que enfrentou todas as dificuldades para produzir um caprichado filme de época, intento conseguido com mérito. DIÁRIO DE UM NOVO MUNDO, mesmo que um pouco insípido, sem um grande envolvimento do espectador com os personagens, é cinema para dar orgulho no aspecto técnico e, por isso mesmo, merece sair com alguns kikitos nestas categorias.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini

Comentários

Sem comentários para “QUINTA NOITE”

Deixe um comentário