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categoria: 2005

QUARTA NOITE

ENTRE PAREDESÚnico representante nordestino na mostra competitiva em 35 mm, o curta do pernambucano Eric Laurence é inventivo e tem, no mínimo, quatro grandes trunfos, que o credenciam a kikitos: a atuação de Servílio de Holanda, a montagem (do próprio Eric), a fotografia de Juarez Pavelak e a trilha sonora de Naná Vasconcellos. Uma história sobre um casal nordestino numa pequena aldeia, isolados de tudo e de todos, quase idade média, e o ciúme corrosivo do marido. Trazendo elementos que lembram a literatura de Edgar Alan Poe, ENTRE PAREDES mostra o enlouquecimento do ser humano, apoiado por alucinações e desconfianças infundadas. É um dos grandes favoritos aos principais kikitos, pois mesmo que seja um pouco pretensioso em certos momentos, está anos luz da maioria dos seus competidores.

DOUTORES DA ALEGRIA – Mara Mourão, diretora do bobinho AVASSALADORAS, surpreende com este documentário inventivo e emocionante, sobre o trabalho dos Doutores da Alegria, atores que visitam crianças internadas em hospitais. Apoiada por belos depoimentos dos atores, que mostram uma sensibilidade e uma inteligência insuspeitas, mostrando como o projeto é sério, DOUTORES DA ALEGRIA tem seqüências memoráveis, engraçadas e tristes, ternas e desesperadoras, como é o próprio trabalho da equipe que leva diversão no meio da dor. Destaque também para a não-preguiça da diretora, que colheu esses depoimentos em diferentes ambientes, alguns inusitados: em cima da bicicleta, na beira da praia, dentro de uma psicina, etc. Trazendo também um pouco do histórico dos palhaços, o ator Wellington Nogueira, o responsável pelo projeto, dá um show à parte, contextualizando sua participação no grupo de Nova York, comentando sobre como passou a organizar os Doutores no Brasil, a partir da internação de seu pai na UTI. É um ator com timing e com extrema vivacidade, relacionando o trabalho dos palhaços com diversas situações cotidianas. Pontos positivos também para o depoimento dos médicos e dos pais. Em todo o filme, não há uma cena que demonstre a tentativa de se fazer emocionante, artifício que seria muito fácil levando em conta as cenas tristes de crianças adoentadas. Pelo contrário, é sintonia do grupo a afirmação que, mesmo nos hospitais, eles não estão ali para disfarçar, para fingir que nada de ruim está acontecendo. Estão ali para provocar, inquietar, fazer sorrir. Gramado ovacionou DOUTORES DA ALEGRIAS; palmas e batidas de pés no chão da sala apontam o documentário como um dos favoritos aos kikitos da categoria.

VISITA ÍNTIMA – Uma mistura de O CÁRCERE E A RUA com O PRISIONEIRO DA GRADE DE FERRO, o curta paranaense, de Joana Nin, tem bons momentos, apesar da estrutura convencional. Esses momentos promissores devem-se a algumas personagens cativantes, mulheres que contam como se apaixonaram por presos e discorrem sobre as dificuldades desses relacionamentos. Apesar de simples, é eficiente.

SAL DE PRATA – O longa do gaúcho Carlos Gerbase é, digamos, um meta-filme, ou seja, faz a linha do cinema que comenta o próprio fazer cinema. Por conta disso, a cena inicial de uma belíssima Camila Pitanga falando à câmera sobre o cinema em poses orgásticas é uma bom abre-alas do teor de SAL DE PRATA. Um dos grandes méritos de Gerbase é a direção de atores. Maria Fernanda Cândido está muito bem no papel da viúva que descobre roteiros perdidos no computador de um cineasta. Cândido se perde um pouco em cenas mais histriônicas, porém seu trabalho no início do filme, logo da morte do namorado (Marcos Breda, sem química para Maria Fernanda), com uma atuação sofrida, é talvez uma das melhores coisas feitas pela atriz. Quanto à história, depois de encontrados esses roteiros, alguns amigos diretores pretendem filmá-lo. Cada um a seu modo, com sua bitola, faz seu filme. A partir daí, a mulher começa por confundir-se entre realidade e ficção, achando-se em tudo o que nos escritos do namorado. Pitanga faz uma atriz-amuleto do diretor, por quem a personagem de Cândido começa a nutrir uma carga de antipatia e desconfiança. Também faz parte do elenco o global Bruno Garcia, que é alvo de uma pequena surpresa neste quadrilátero amoroso. SAL DE PRATA é infinitamente superior à TOLERÂNCIA, mesmo que pareça ser um filme para poucos, por tratar de temática tão específica. Apesar disso, é uma obra redondinha. Seus momentos irregulares não interferem no resultado final, uma boa diversão sobre o mundo do cinema.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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