NOSSA SENHORA DE CARAVAGGIO – Fábio Barreto, ao apresentar seu novo filme à platéia, disse que a obra estava inacabada. Referia-se a problemas no som e na fotografia, ainda em fase de finalização. Mas, ao término da sessão, não são apenas esses os problemas. NOSSA SENHORA DE CARAVAGGIO não frustra as expectativas: é um filme ruim como o anterior, PAIXÃO DE JACOBINA. Mas uma ressalva: não é pior que o seu antecessor. O roteiro é desenvolvido em três tempos: 1432, quando em Caravaggio, a jovem Joaneta vê a Virgem Maria; em 1875, quando os imigrantes chegam a (hoje) Farroupilha, cidade da serra gaúcha, e escolhem Nossa Senhora do Caravaggio como padroeira e 2005, quando uma mulher batalhadora e honesta, Cristiana Oliveira, tenta vencer as dificuldades geradas pelo desemprego e pela violência doméstica, causada pelo marido alcoólatra, Luciano Zafir. Percebe-se que o teor melodramático é intenso. Tudo é exagerado no filme, feito na medida para agradar católicos praticantes. Não há emoção, nem envolvimento com os personagens. Cristiana Oliveira esforça-se e confere alguma dignidade a sua personagem, mas não pode fazer tudo sozinha,nem ir muito além por culpa de um roteiro fraco, com diálogos sofríveis. Porém, o ponto mais negativo do filme é a atuação de Zafir, como o ébrio desesperado que encontra redenção na fé. Suas cenas são risíveis, involuntariamente, é claro. Os atores coadjuvantes que circulam Cristiana também não ajudam em nada, em especial os que interpretam o padre e o motorista da família abastada. Todo o conflito que surge na história de 2005 gira em torno da surrada diferença de classes. Angélica (Cristiana), caixa de supermercado, perde o emprego por ter olhado torto para o filho de uma madame que roubava um cd. Depois disso, graças à ajuda do padre da comunidade, a madame malvada emprega Angélica em sua casa. É claro que ela sofre com as intrigas dos filhos mal-educados e com a opressão da patroa, mas ambas descobrem a amizade através do amor à santa. Ou seja, tudo é resolvido pela fé. Todos os personagens, de uma certa maneira, conseguem superar as dificuldades graças ao poder da oração, em soluções simplistas e equivocadas. NOSSA SENHORA DO CARAVAGGIO é um exemplo de cinema a não ser seguido, feito para emplacar entre a comunidade católica, sem o menor cuidado artístico. A platéia que assistiu em Gramado, no Centro Municipal de Cultura, aplaudiu, emocionada. Os jornalistas, esses saíram com o olhar meio torto. Dirão que o filme não foi feito para a crítica, mas um pouco mais de qualidade não cairia mal.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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