Na quarta tarde do Festival de Cinema, aconteceu a exibição do longa cubano ROBLE DE OLOR, dirigido por Rigoberto López. O filme, um épico histórico, trata de um amor multi-racial no século XIX, envolvendo um alemão (Jorge Perugorria, competindo em outro longa) e uma negra descendente de uma família abastada do Haiti (Lia Chapman). Juntos, os dois constroem Angerona, o segundo maior cafezal de Cuba. O sucesso da grande fazenda provoca a ira dos adversários, em especial de uma prima loura que aporta nas terras. Com um ingrediente melodramático, ROBLE DE OLOR peca pelo excesso. Além de ter quase duas horas e meia, é repleto de cenas longas, repetitivas, como as várias posições sexuais que a dupla protagoniza em lugares (aparentemente) poéticos, ao vento, com panos, e até em cima do cavalo! Tudo é por demais artificial. Outro detalhe, que lembra muito a obra do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, Concerto Campestre, é toda a parte que mostra um maestro negro, a pedido do dono da fazenda, organizando uma orquestra entre os escravos. Diferentemente de Concerto Campestre, porém, o longa cubano não mostra o processo de ensaios da orquestra, apenas o resultado afinal. Aliás, uma seqüência constrangedora vem do extermínio dessa orquestra. A trilha sonora é muito bonita e pode levar o kikito. Lia Chapman tem os melhores diálogos e é a melhor coisa do filme, que traz um Perugorria fora de forma fazendo vezes de galã. Apesar de possuir um longo repertório de clichês, e de um elenco coadjuvante muito ruim (em especial a prima loura, caricata, e seu acompanhante, também músico), ROBLE DE OLOR tem alguns bons momentos, apoiados numa fotografia correta, explorando as belezas das locações. Um grande novelão mexicano, mas que de certa maneira contempla a sempre necessária discussão do preconceito e da intolerância.
Na segunda parte da tarde, foi exibido em pré-estréia o documentário da talentosa diretora gaúcha Liliana Sulzbach (A INVENÇÃO DA INFÂNCIA e O CÁRCERE E A RUA) sobre Erico Verissimo. Diferentemente de suas obras anteriores, O CONTINENTE DE ERICO é um trabalho linear e sem nenhuma inovação na sua forma. Com um material tão rico em mãos, confesso ter ficado desapontado com a infinidade de depoimentos sobre a vida e a obra do escritor gaúcho. Os melhores momentos são no início e no final, quando aparecem a bela locução de Walmor Chagas, lendo trechos de Solo de Clarineta e depoimentos do próprio Erico, ilustrados com uma animação eficiente. No mais, são profissionais das letras, como Luís Augusto Fischer, Maria da Glória Bordini, Armindo Trevisan, Lya Luft e familiares, como Luis Fernando e Clarissa Verissimo comentando, por vezes de forma desanimada, algumas curiosidades que, aliás, muitos já conheciam. Um material que pode ser usado de forma educativa, em escolas e comunidades, mas que não faz jus à inventividade, pregada pelo próprio documentário, do brilhante escritor.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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