// você está lendo...

categoria: 2005

BALANÇO FINAL

Termina mais um Festival de Cinema de Gramado. Como não poderia deixar de ser, surpresas e resultados injustos acabam chamando a atenção na hora da premiação. O primeiro fator a ser lamentado é a divulgação, no site oficial do Festival, dos resultados ANTES do término da noite de premiação. Pela metade da cerimônia, telespectadores ligaram à TV COM e reportaram o fato: todos os premiados já tinham sido revelados na Internet. Desorganização lamentável. Também a velha questão dos lugares causou problemas e incômodo. Por conta da inchada de filmes concorrentes, mais gente circulou pelo Palácio. Desta forma, por exemplo, a imprensa teve pouco mais de uma dezena de lugares à sua disposição, ou seja, o bate-boca entre os jornalistas foi grande. Alguns, irritados com a organização, acabaram por arrancar as papeletas que informavam, em cada acento, a quem aquele lugar pertencia. Por tabela, assessoras de filmes como DIÁRIO DE UM NOVO MUNDO e SAL DE PRATA, sem parte de seus lugares, protagonizaram cenas de rinha: “Estes lugares são para a Camila Pitanga e para a Maria Fernanda Cândido, a mais bonita da festa! ” “Não! Estes lugares são para o DIÁRIO DE UM NOVO MUNDO” Como resultado, muita demora e gente de pé.
José Wilker, super bem-humorado durante toda a semana em Gramado, deu um show como mestre de cerimônia. Já Renata Boldrini não teve o mesmo sucesso, tropeçando nas palavras, se atravessando, com uma leitura, muitas vezes, ruim e monocórdia. Ana Luíza Engel, apresentadora oficial das tardes, em Gramado, teve muito melhor repercussão.
Os prêmios para GAIJIN surpreenderam boa parte da imprensa, especialmente o de melhor filme, repetindo o feito dos anos 80. GAIJIN é o mais caro. Compare os seus 10 milhões com os 55 mil de CARREIRAS. Aliás, o sempre interessante Domingos Oliveira provocou discussão sobre orçamento no Festival, declarando que dezenas de filmes podem ser feitos com o dinheiro gasto numa super-produção, indireta para Tizuka Yamasaki, uma simpatia, que acabou recebendo o kikito de melhor diretora, fato menos surpreendente pois a diretora ainda não tinha esse kikito (só tinha sido homenageada, ano passado). Certo mesmo era o kikito para Aya Ono, a simpática atriz de GAIJIN, como coadjuvante, já que Gramado adora conceder esse prêmio menos pela atuação e mais pela persona, basta lembrar que Maria Zilda, Susana Saldanha e Sonia Braga têm seus kikitos em participações pouco inspiradas. O quarto kikito de GAIJIN, grande vencedor da noite, veio pela música de Egberto Gismonti, também previsível.
O segundo vencedor da noite foi CAFUNDÓ, que recebeu igualmente 4 estatuetas, porém de “menor” valor: Ator (outra barbada de Lázaro Ramos), fotografia, direção de arte (prêmio que seria mais justo para DIÁRIO) e Especial do júri, o famoso prêmio de consolação para o não-vitorioso da noite. Barbada também foi o prêmio de melhor atriz para Priscila Rozenbaum, colecionando seu segundo kikito, o isolado do filme CARREIRAS. Priscila fez um discurso vibrante, dando um pouco de vida à insípida cerimônia final. Mas o melhor discurso da noite veio através de Miguel Ramos, kikito de coadjuvante por O CERRO DO JARAU. Giba Assis Brasil, figurinha repetida, venceu mais uma vez como melhor montagem por SAL DE PRATA, o grande injustiçado da noite. Esperava-se mais na premiação e o abatimento da turma da Casa de Cinema era visível. Talvez o grande golpe em SAL tenha sido o prêmio de júri popular para DIÁRIO DE UM NOVO MUNDO. E o prêmio de roteiro, também para o DIÁRIO, foi um equívoco.
Na categoria documentários, SOY CUBA ganhou dois kikitos, do júri oficial e da crítica (que resolveu conceder apenas um kikito para o melhor longa, independentemente da categoria). O ótimo DOUTORES DA ALEGRIA e o bem intencionado, porém fraco, DO LUTO À LUTA receberam, cada um, kikito de prêmio especial. DOUTORES levou um segundo, graças ao júri popular.
Entre os latinos, destaque para o filme argentino UM MUNDO MENOS PEOR, levando os principais kikitos: melhor filme, diretor e atriz (para a ótima Julieta Cardinali). O venezuela PUNTO Y RAYA ganhou o kikito da crítica por unanimidade e de ator. O simpático casal da produção mexicana UM DIA SEM MEXICANOS levou para a casa o kikito especial do júri.
Nos curtas, conforme o argumento previu, o excelente ENTRE PAREDES levou cinco kikitos principais: filme, diretor, crítica, música e edição. EU TE DAREI O CÉU levou quatro, o de atriz, roteiro, júri popular e ator, para um emocionado André Gonçalves. O gaúcho OS OLHOS DO PIANISTA levou o prêmio de direção de arte e o fraco DESEJO, o de fotografia. VISITA ÍNTIMA recebeu o prêmio especial do júri.
Gramado despediu-se com uma multidão nas ruas, berrando ao ver as estrelas passarem pelo tapete vermelho. Dia seguinte, domingo chuvoso, ressaca e todo mundo voltando para a sua vida real. Com a sensação que ainda não foi desta vez que Gramado ofereceu um Festival à altura do que procura.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini

Comentários

Sem comentários para “BALANÇO FINAL”

Deixe um comentário