As crônicas de Gramado este ano foram abundantes em notas sobre o incidente no qual o diretor Dennison Ramalho dirigiu-se ao público e a seus colegas de forma violenta e insultuosa. Devido à minha ausência e aos relatos fragmentários que tive, prefiro não opinar sobre o assunto. No entanto, não posso deixar de ceder ao senso de justiça que me fez notar a absoluta falta de comentários da imprensa especializada sobre o fato do filme ter sido premiado com o segundo lugar em um festival de filmes de horror no Canadá.
Também não posso deixar de lado a excelente impressão que me causou o seu trabalho no filme “AMOR SÓ DE MÃE”, como manifestei em um artigo publicado à época aqui no ARGUMENTO.net. Assim, acho oportuno dividir novamente com os amigos esta pequena nota sobre um grande filme (pelo menos a música do Flu foi premiada em Gramado). Polêmicas à parte, o filme é impressionante e merece toda a nossa atenção e o nosso respeito, acima de qualquer incidente, como uma obra sólida e madura.
Não sei quem disse que um crítico “é alguém que assiste à batalha do alto da montanha e que, depois que ela termina, desce e atira nos feridos”. Apesar de boa, a frase é mais engraçada do que verdadeira, principalmente quando pensamos que transmitir aos outros as nossas impressões estéticas pode ser uma excelente oportunidade de servir à própria Arte (o que quer que ela seja…): estimulando a reflexão, divulgando as obras e criando espaço para o debate. Mais do que tudo, dar opinião também é uma forma de expressão, e certamente por isso muitas pessoas (inclusive eu) lêem as críticas de espetáculos aos quais nem pensam em assistir, quase como uma forma substitutiva do show.
Mesmo assim, sempre evitei cuidadosamente poupar os devotados leitores (risos) de minhas opiniões pessoais sobre meus espetáculos favoritos. Em primeiro lugar, porque não tenho competência nem paciência para analisar os aspectos formais da criação alheia, pautando minha visão mais pelo fator emocional. Se a obra me carrega ou não para o seu universo é tudo o que me importa e não há muito a dizer sobre elementos tão pessoais.
Aquilo que emociona alguns nada significa para outros, de modo que prefiro reservar meu tempo para trabalhar minha criação, que é o que tenho. Assim, se pela primeira vez utilizo este espaço para opinar sobre o trabalho de alguém, é porque tenho fortes razões para isso. O nome do filme é AMOR SÓ DE MÃE, e o diretor Dennison Ramalho.
Aqueles um pouco familiarizados com meus textos devem ter imaginado com acerto que não costumo assistir filmes de horror, já que tenho o tenebroso privilégio de conhecer tão profundamente os meandros do Abismo e os Senhores das Trevas. De fato, embora tenha sido aficcionado quando jovem, há muitos anos os filmes sobre demônios e seus adoradores nada me provocam além de indisfarçáveis bocejos. Não há o que se compare ao terror real, à presença indesejada e maligna que se manifesta de repente, à vida que perde o nexo e permite que o impossível aconteça apenas para nos fazer sofrer.
Sem explicação e sem respostas, tropeçamos no Mistério a cada passo, cegos guiando cegos, num labirinto feito para os deuses distraírem o infinito tédio. “Dancem, marionetes, dancem!”. Morreremos, é certo, mas o show será bonito.
Isso é o terror… e se você já sentiu que forças desconhecidas agiam sobre você ou sua vida, então sabe do que eu estou falando. Aliás, caso você não tenha notado, não há ninguém no comando aqui… estamos à deriva no Tempo e à mercê da História, os ventos da Guerra varrem o planeta e cada um luta como pode, sem maior esperança de glória do que apenas sobreviver.
Por tudo isso, foi com grande surpresa que assisti a AMOR SÓ DE MÃE, e constatei duas coisas muito importantes: primeiro, que o cinema de terror ainda existe; e em segundo lugar, que eu ainda posso ser transportado por um filme desses. O enredo é inspirado em uma música de Vicente Celestino, de 1937, rocambolesca e caricata, mais própria para o riso do que para a emoção. O filme, no entanto, possui uma veracidade interior, um ritmo hipnótico que se impõe ao espectador com a força de um sonho mau e que nos arrasta à força para um universo desesperado, incontrolável e sobre o qual só podemos supor que seja a face visível de alguma outra coisa.
A iluminação merece atenção: primorosa e sobrenatural. A edição é impecável, nervosa e límpida ao mesmo tempo. A trilha sonora do músico gaúcho Flu sublinha o clima e é um elemento que contribui ainda mais para o efeito geral do conjunto. Como se não bastasse tudo isso, todos os atores são excelentes, transformando personagens que na música eram rudimentares em seres humanos com profundidade e dimensão trágica.
O efeito geral é como o de uma tragédia grega, avassalador e comovente ao mesmo tempo. A nota mágica, no entanto, ficou por conta da excelente assessoria que o diretor recebeu de Pai Alex, que tinha uma terreira no Pavilhão 9 do Carandiru e que, com certeza, entende de demônios como poucos. O altar com o Baphomet, os símbolos mágicos (verdadeiros) nas paredes, os transes, tudo gera uma força simbólica de grande impacto e que o diretor soube aproveitar em toda a sua extensão.
As mensagens subliminares (que não revelarei…) e os créditos também são parte importante desse pequeno filme que é uma grande obra. Ao final da exibição tive o prazer de parabenizar Dennison, a quem não conhecia, mas, naturalmente, não tive tempo de lhe dizer tudo isso. Assim, pelas páginas do ARGUMENTO.net, presto agora este tributo a um trabalho que merece a nossa atenção e a um artista que merece o nosso respeito.
AAFF – aaff@ordemnatural.com.br, perito em Ciências Ocultas, autor de “O Livro dos Demônios – Manual de Identificação de Cada Demônio e as Defesas Necessárias” e “Das Profundezas da Noite – Contos”. Nunca se sabe o que vai dizer a seguir. Webmonster do site www.ordemnatural.com.br – um espaço libertário sem respostas prontas nem perguntas proibidas, onde a dúvida e a inteligência acasalam com o Mistério. Magia Anarquista. Escreve a coluna “CULTURA PROIBIDA”, todos os sábados, no ARGUMENTO.net.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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