Nós somos as antas, evidentemente. Nós do público, que lotamos os cinemas, que pagamos em bilheterias os filmes dignos de serem pagos. Nós, definitivamente, não entendemos nada sobre a sétima arte, temos visões limitadas, superficiais ou talvez apenas gostemos de filmes normais, com histórias, bem fotografados e inteligentes.
Não importa. Ao ver como pensa a crítica “especializada” e o júri que parece nela se inspirar, senti que eles só escolhem o diferente para serem diferentes, para dizerem que têm visões mais aprofundadas, mais artísticas. Se um crítico gostasse dos mesmos filmes que nós, normais, e não demonstrasse sequer capacidade de dar um passo adiante em uma interpretação, talvez nem precisassem existir.
Procurei em todos os sites da área que conheço, nas seções de cinema dos principais portais brasileiros, e as matérias sobre o dito “mais importante festival de cinema do país” são descabeçadas e cópias baratas dos releases e materiais de divulgação. Por onde andará a opinião em nossa imprensa? Onde andará algum material que possa acrescentar ao que assistimos nas telas? Será que dependeremos dos jornalistas bêbados que ficaram tirando onda por serem da grande imprensa e se fazendo de grandes conhecedores?
Voltando aos jurados, deve existir outra explicação para a entrega dos prêmios “kikito” do Festival de Cinema de Gramado do que escândalo, burrice, desconhecimento, falcatrua, ou sei lá que outra palavra poderia ter força suficiente para designar o que vi acontecer. Até alguns vitoriosos mostraram-se constrangidos ali no palco, incrédulos, sob intensas (nem tantas como deveriam) e justas vaias.
Lembrei-me do Oscar e de como costumo escrever textos colocando os equívocos que na minha opinião a premiação americana costuma cometer, mas confesso que eles são de ordem subjetiva. Em Gramado ultrapassaram sem dúvida o limite do gosto pessoal e de visão de cinema.
Nos filmes de menor duração, o grande colecionador de kikitos chama-se CAROLINA, um filme bem fraco, quase inexpressivo, onde Zezé Motta escreve sem parar em papéis enquanto entram frases sobre a tela contando a vida de Carolina Maria de Jesus, uma escritora negra e pobre alimentando seu diário. O tema é interessante e provavelmente até pudesse render uma boa história e um bom filme, mas o que se vê na tela é um grande nada.
Como filme, CAROLINA, curta-metragem em 35mm, é um razoável manifesto contra o preconceito e parece que os jurados levaram em conta o discurso do diretor e líder negro Jeferson De na hora de premiá-lo. Anteriormente ele tinha lançado o Dogma Feijoada, que até parecia interessante teoricamente, mas que já em seu filme de estréia – também premiado em Gramado – mostrava sua fraqueza cinematográfica.
Seus filmes são simplistas defesas dos negros. E não me coloquem como exemplos Spike Lee ou o QUILOMBO de Cacá Diegues, como fez o diretor no palco, porque o realizador americano e o filme de Diegues são interpretados e/ou feitos por negros, mas não são somente manifestos a favor da raça, e sim obras muito bem realizadas e com histórias bem pensadas e contadas. CAROLINA é só um manifesto negro e isso torna seus prêmios, na minha visão, completamente equivocados, tanto que o júri popular evidentemente não escolheu o filme. Isso, é claro, não se deve à suposição do público não gostar de negros, e sim de preferir filmes com histórias, com acertos técnicos e que não sejam simplesmente teses sociais.
Pelo menos temos de admitir que há um critério para a quantidade de prêmios recebidos pelo longa-metragem DE PASSAGEM, de Ricardo Elias. O filme, fazendo uma analogia aos curtas-metragens, consegue ser pior do que CAROLINA, já que os curtas neste ano estiveram realmente muito fracos, e os longas pelo menos tiveram dois exemplares bastante superiores aos demais. Um deles era APOLÔNIO BRASIL, de Hugo Carvana (o grande injustiçado do ano), e o outro o belíssimo filme paranaense O PREÇO DA PAZ, de Paulo Morelli, que pelo menos ganhou o prêmio do júri popular.
DE PASSAGEM é quase a oposição completa ao filme paranaense. Não agradou ao público, tecnicamente é bastante precário – em alguns momentos primário – é mal interpretado, mal dirigido e chato. Evidentemente que estes atributos recorrem a espectadores normais, que gostam de filmes com histórias, estrutura, técnica e não teses sobre a pobreza. Ouvia-se pelos corredores que esta era a resposta à CIDADE DE DEUS e críticas altas à obra de Fernando Meirelles. Provavelmente, se o filme que nos representou no Oscar entrasse na disputa deste festival, sairia de mãos abanando, porque é um filme muito bem feito para ser premiado, é cinema da melhor qualidade e parece que é ofensa num festival fazer filmes que agradem ao público, que lotem as salas, que os espectadores fiquem até o final, se emocionem, riam, entrem na história e saiam discutindo empolgados e aplaudindo o cinema nacional.
O que poderá levar Hugo Carvana a colocar seu próximo filme no festival se ele faz um excelente que é ignorado pelo júri? Mais grave foi o preterimento da fantástica trilha sonora do multipremiado David Tygel, que fez uma reconstituição de grandes clássicos, rearranjou-os, fez meses de ensaios para os atores cantarem e tocarem com perfeição e perdeu o prêmio de melhor trilha sonora para um filme em que o único destaque musical são as participações de Borguetinho (gaiteiro sulista). Este prêmio, pelo menos, revoltou a Rubens Ewald Filho enquanto transmitia a cerimônia pela TV Cultura. É um absurdo completo.
A espetacular interpretação de Marco Nanini – vivendo o pianista Apolônio Brasil – também foi preterida na premiação por um constrangedor Marcelo Serrado no filme gaúcho NOITES DE SÃO JOÃO. Não há subjetividade que resista. Se o kikito ainda fosse destinado a Herson Capri ou José de Abreu poderíamos entrar na questão da subjetividade. Para Marcelo Serrado cheira a logro, falcatrua.
O mais grave ainda estava por vir. Mesmo com o fotógrafo Luis Branquinho tendo feito, junto com Paulo Morelli e equipe, de O PREÇO DA PAZ tecnicamente um dos filmes mais magníficos na última década brasileira e com um destaque todo especial à fotografia por sua beleza, riqueza de detalhes e sutilezas, perdeu o prêmio para um filme de visíveis e graves problemas técnicos chamado… NOITE DE SÃO JOÃO! O próprio fotógrafo do longa-metragem gaúcho admitira dias antes que havia tido problemas no laboratório.
No final da exibição de NOITE DE SÃO JOÃO, o que se comentava entre os técnicos era o que poderia ter acontecido de errado para o filme estar visualmente tão ruim, sendo uma fotografia do renomado Rodolfo Sanchez. Só para se ter uma idéia, há diálogos onde uma pessoa fala de dia e outra responde de noite, é inacreditável. Em outra cena – que se passa no meio da madrugada e onde Fernanda Rodrigues vai visitar sua avó no quarto – entra sol pela janela. A continuidade de fotografia é de tantos erros que gerou risadas na platéia e dentro da mesma cena muitas vezes via-se alterações terríveis na temperatura de cor da luz.
É de fato tão inacreditável que muitas pessoas comentavam se haveria a possibilidade de consertar tantos problemas antes do filme entrar em cartaz. E esta fotografia, considerada por muitos profissionais presentes como a pior vista em anos, acabou vencendo não só a de O PREÇO DA PAZ, como também a de Nonato Estrela por APOLÔNIO BRASIL, em que o consagrado fotógrafo recria com primazia e grande pesquisa as luzes das boates cariocas da década de 60 recheadas de detalhes e primor técnico.
Evidentemente que as vaias surgiram altas, nem tantas quantas deveriam, porque boa parte do público não tem e nem precisa do conhecimento técnico. Atrevo-me a dizer ser este o mais absurdo prêmio que já ouvi falar em qualquer festival de cinema ao longo da história. Não poderia acontecer, o presidente do festival deveria subir ao palco durante a premiação e dizer que se tratava de uma imensa piada.
Enfim, os erros de organização do festival são tolerados com paciência, com vontade de ajudarmos a saná-los visando um melhor festival nas próximas edições. Agora, estes equívocos grosseiros, vergonhosos e incompreensíveis do júri deveriam – depois de corar a organização – servir de base para extensa reflexão, no sentido de que nunca mais, em qualquer hipótese, possam voltar a se repetir. O único detalhe é que não parece haver grande preocupação com isto, e sim de saber quantas atrizes da MALHAÇÃO poderão comparecer na próxima edição do festival.
Depois que algumas pessoas leram meu texto, deixaram-me claras suas sensações que eu estaria escrevendo mal de CAROLINA, DE PASSAGEM e NOITE DE SÃO JOÃO. Não é nada disso, acho que os filmes são honestos, resultados de grandes esforços coletivos e todos de papéis importantes numa idéia de diversificação de nossa produção cinematográfica.
Não tenho nada contra qualquer um de seus profissionais, até por que o prêmio mais criticado em meu texto (fotografia de longa-metragem) foi justamente para Rodolfo Sanchez, uma pessoa que costumo trabalhar em diversos comerciais e que – além de uma grande pessoa – é um fotógrafo de inequívoca capacidade e talento.
>>> LUCAS GONZAGA – lucas@argumento.net, editor de comerciais, trabalha na Academia de Filmes. Em Gramado assistiu 8 Longas, 1 média e 55 curtas e já não se lembra da metade deles.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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