Gramado estava diferente nesse ano. Primeiro foi a temperatura, que passou dos trinta graus, dando uma cara à cidade de balneário serrano – galera bebendo cerveja no gargalo, de bermuda e sem camisa. Dias bonitos que geraram frustrações ao pessoal do norte do país, munidos de grossos casacos e ávidos por frio, neblina e, quem sabe, neve. Estava diferente também pelo assustador comportamento da tietagem. O que antes era uma simpática demonstração de afeto e carinho, agora é quase uma corrida desenfreada atrás de autógrafos, uma competição entre menininhas chatas que se tapeiam – literalmente – por qualquer tipo de rabisco em seus caderninhos. Elas berram, interrompem entrevistas, puxam com força, quase arrancam partes da roupa de quem esteja com um crachá pendurado. Alguns artistas, aqueles que já meio que cansaram dessa brincadeira, mostravam-se preocupados. Uma legião de jornalistas atrás para as entrevistas e uma legião ainda maior de tietes dificultando o trabalho. E não é só isso. Foi comentário geral que a simpática população gramadense está se renovando, e o nível está caindo. As pessoas que antes aplaudiam os artistas que passavam no tapete vermelho da noite oficial, agora, além disso, vaiam quem não for famoso. Vaiam e xingam e soltam ofensas constrangedoras. E a boa educação local sempre foi um ponto forte. Estava diferente, por fim, pela sensação de frustração, de todos que acompanharam o festival, pela safra dos filmes brasileiros. Foi, sem dúvida, a mais fraca dos últimos anos. A votação, e foi o comentário geral, seria para o “menos pior”. E isso é muito triste. Mais triste ainda em comparação com os belos filmes da mostra latina, ponto forte do Festival de Gramado. Os cinco filmes são de qualidade comprovada, premiados em diversos festivais pelo mundo. Já entre os brasileiros, havia três diretores estreando no cinema e um em seu segundo longa. Chance maior de alguns equívocos. Mesmo o experiente Hugo Carvana, do simpático APOLÔNIO BRASIL, não estava em seus momentos mais inspirados, e acabou saindo com apenas um kikito, a legítima consolação num prêmio especial do júri. Falar em premiação é ainda mais complicado. Numa mostra fraca, em que críticos chegaram a votar a proposta da não entrega de um prêmio especial da crítica aos longas de ficção por conta da baixa qualidade, acabam acontecendo “votos de protesto”. Mas mesmo assim, ocorrem surpresas difíceis de entender. Entre os latinos, não houve surpresas pela excelente qualidade de três deles, em especial, que dividiram todos os prêmios, com destaque para LOS LUNES AL SOL, que ganhou quatro prêmios (filme, diretor, ator para Javier Bardem e crítica). O uruguaio CORAZÓN DE FUEGO recebeu dois: especial do júri e júri popular e o belo argentino LUGARES COMUNES o de melhor atriz, para a extraordinária Mercedes Sampietro. Qualquer um desses três poderia levar o prêmio principal. A lamentar, apenas, que o ótimo Federico Luppi, de atuações notáveis nos filmes argentino e uruguaio, tenha saído sem prêmio algum. O problema foi entre os nacionais. DE PASSAGEM é uma obra com sérios problemas de atuação, de roteiro e de montagem. Mesmo assim, é muito bem intencionado, e a maciça premiação confirma uma espécie de protesto: já que todos são ruins, vamos votar naquele que é feito por jovens e retrata a periferia brasileira. Levou os kikitos de melhor filme, diretor, roteiro, ator coadjuvante (para Fábio Nepô, de atuação apenas regular) e prêmio da crítica. Mas os maiores absurdos estavam na exagerada premiação do fraquíssimo NOITE DE SÃO JOÃO, que levou surpreendentes quatro kikitos. Foi vaiado em duas delas. A problemática fotografia recebeu o kikito, na piada da noite. Piada quase superada pela conquista de Marcelo Serrado do prêmio de melhor ator. Serrado está bem e é das poucas coisas positivas na obra, mas ser considerado melhor que Marco Nanini, magistral em APOLÔNIO BRASIL, ou até que Herson Capri e Lima Duarte pelo O PREÇO DA PAZ, é absurdo. Gramado acaba sendo, cada vez mais, um festival desacreditado. Resta torcer para que esse tenha sido apenas um ano ruim na safra competitiva nacional. Ainda mais se recordamos que um ano atrás, o excelente DURVAL DISCOS saía como o grande vencedor da noite, e competia com bons filmes como SEPARAÇÕES e DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA. Ainda bem que os documentários brasileiros, cada vez mais, mostram o crescimento da qualidade na área. Todos os quatro são muito bons. Entre os curtas, a mostra não foi tão boa e parelha como a do ano passado, mas bons filmes foram exibidos, entre eles CAROLINA (o grande vencedor da noite), TEMPO DE IRA, NO BAR, ÁGUAS DE ROMANZA, O RESTO É SILÊNCIO e TERMINAL. Entre os filmes da mostra fora de competição, CELESTE E ESTRELA e NARRADORES DE JAVÉ recuperam qualquer sensação de frustração pelo cinema nacional em duas excelentes obras. Que os curtas e os documentários sirvam de inspiração. E que os grandes filmes brasileiros voltem a acreditar no Festival de Gramado, e inscrevam suas obras. Por mais que Gramado insista em surpreender, negativamente, na hora da premiação. Acabou o festival, acabou a tietagem. Três horas depois do final da festa de encerramento, Gramado era a própria cidade fantasma. Uma chuvinha fina caía na madrugada, com cara de mudança de temperatura. Papéis, garrafas e outros lixos atirados pela rua principal, absolutamente vazia. Falta de luz. Poucos carros. Todos estavam dançando nas festas e raves, tentando dar um último beliscão na bunda de algum artista. E em matéria de festa, Gramado é insuperável.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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