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categoria: 2003

CENAS DO QUINTO DIA

OS TRÊS VELHINHOS

A última noite de competição revela, pela primeira vez, o clima de Gramado. O frio aumentou e uma neblina sob encomenda enfeita a noite serrana. Werner Schünemann e Daniela Escobar iniciam a noite chamando o curta O RESTO É SILÊNCIO, de Paulo Halm. O filme, feito especialmente para deficientes auditivos, encantou a platéia por ser poético e espirituoso. Em seguida, RUA DA ESCADINHA 162, um mini documentário sobre Cristiano Câmara, um colecionador com mais de trinta mil discos de vinil e de cera, além de fotos e vasto material musical. O personagem real, divertidamente ranzinza, conquistou a platéia.
O último longa latino em competição é o uruguaio CORAZÓN DE FUEGO. Um trio excelente de atores, Hector Alterio, Federico Luppi, Pepe Soriano, um roteiro simples e eficiente e uma edição segura de Diego Arsuada garantem um belo filme. Três velhinhos e um menino roubam uma locomotiva-símbolo uruguaia, que foi vendida para os Estados Unidos, a fim de protestar contra a venda do patrimônio público. Na sua jornada pelos trilhos do Uruguai, vão desviando de policiais e conquistando a simpatia da mídia e do povo, que torce pelo sucesso da empreitada.
O filme foi o mais aplaudido entre todos os longas latinos exibidos, devendo levar fácil, ao menos, o prêmio do júri popular. Com um lirismo tocante, prova que um filme não precisa ser verborrágico para ser político. O trio de atores deve levar algum prêmio especial, em conjunto, principalmente porque Luppi também concorre no longa argentino.
O filme já ganhou prêmios em Vallodolid de novo diretor e atores (os três), mais o Goya de melhor filme estrangeiro de língua espanhola, e em Montreal de melhor filme latino, roteiro e especial do júri.

PRIMEIROS PRÊMIOS

A segunda parte da noite inicia com as premiações de curtas gaúchos e curtas e médias em 16 mm. Entre os gaúchos, MÃE MONSTRO, com Sandra Possani e Roseane Milani no elenco (será parente de nosso editor Robledo?), foi o bicho papão da noite, vencendo melhor filme 16mm, roteiro, fotografia, edição e filme de diretor estreante. Ana Maria Maineri, por RITA e Roberto Oliveira, por PESADELO, venceram como melhores atriz e ator. PESADELO, de Tomás Creus, venceu ainda melhor filme 35mm, diretor e som. Depois de uma tumultuada e demorada entrega, com direito a um jabá político insuportável, com gente que não entende de cinema entregando prêmios e se promovendo, veio o infeliz discurso do presidente da Assembléia Legislativa Gaúcha, Vilson Covatti, do PP. Pra começar, citou, macarronicamente, algo como Caca Dieguês, com acento tônico no “e” final, como se o cineasta brasileiro fosse francês. Tropeçou na concordância, engoliu palavras, uma vergonha. Foi vaiado. Lamentável que num Festival como o de Gramado haja esse tipo de amadorismo.
Após, a entrega dos vencedores em 16mm. Bárbara Paz, amicíssima de nosso editor Robledo Milani, venceu como melhor atriz por PRODUTO DESCARTÁVEL, e Diegho Kozievitch (o menino do CASTELO RÁ-TIM-BUM) venceu como melhor ator por PAISAGEM DE MENINOS, que ainda levou melhor filme média, roteiro, especial direção de arte. CINEMA PAGADOR levou o kikito de melhor curta em 16mm, André Luiz de Luiz melhor diretor por NÃO PERCA A CABEÇA, e JOÃO por experimentação de linguagem.

A GUERRA QUE DEVE LEVAR MUITOS KIKITOS

Depois de longos agradecimentos, veio o último curta em competição. TEMPO DE IRA, de e com Marcélia Cartaxo, co-dirigido por Gisella de Mello. Um belo curta, com excelente atuação de Cartaxo e de Antonieta Noronha, sobre uma mãe e uma filha abandonadas no sertão. Bela fotografia e final surpreendente.
Finalmente, o último filme brasileiro em competição. O PREÇO DA PAZ, épico de guerra dirigido por Paulo Morelli, com grande elenco global e roteiro de Walter Negrão. O filme surpreende pela esmerada produção, excelentes fotografia e reconstituições de cenário e figurino. O roteiro é bem amarrado, mas a temática guerra histórica apresenta sempre clichês clássicos, como o herói mal compreendido, que não se vende e sofre por isso, a preocupada esposa, o inimigo justo, o inimigo malvado, a empregada que se envolve com um soldado, e por aí vai. Não é à toa que Lima Duarte, um dos atores, brinca que o filme é a casa dos sete machos. É impressionante a similaridade, mesmo tratando-se de outra guerra (aqui, a Federalista). De qualquer forma, ao que se propõe, é um filme muito bem realizado, favorito absoluto para todos os kikitos técnicos e, talvez, alguns principais, porque inegavelmente é a obra de maior qualidade. Tem boas atuações de Lima Duarte, Giulia Gam, Herson Capri e Camila Pitanga. José de Abreu é o vilão canastra e sem sutilezas de sempre.
De qualquer maneira, o filme foi bastante aplaudido e é um belo trabalho da emocionada equipe paranaense.
Depois, quase uma e meia da madruga, teria a exibição fora de concurso de CONCERTO CAMPESTRE, do gaúcho Henrique de Freitas Lima, mas o povo debandou, com fome, sono e dor no corpo pela longa noite.
Acabou-se a mostra em competição. Agora é esperar os kikitos. Gramado já está lotada de curiosos, patricinhas e mauricinhos azarando, e muito artista circulando pelas ruas, ou fugindo das tietes cada vez mais mal-educadas.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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