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categoria: 2003

A NOITE FINAL: PRÊMIOS E VAIAS

A noite de encerramento começou cedo, no interminável tapete vermelho, cercado por centenas de pessoas, que aplaudiam e vaiavam como num jogo de futebol. O pessoal queria chegar mais cedo porque, mesmo sendo credenciado, há muitos convidados políticos e autoridades que lotam a sala. Uma hora antes já havia um bom público dentro do Palácio dos Festivais.
O Ministro da Cultura Gilberto Gil fez seu discurso, exageradamente longo mas que atraiu a atenção da platéia. Werner Schünemann e Mariana Ximenez foram os mestres de cerimônia.
Mauro Mendonça Filho foi o primeiro convidado a anunciar alguns vitoriosos. Não deixou de alfinetar Luana Piovanni e a gafe do ano passado de filme em 36mm. Quem entendeu, riu.
CAROLINA, do diretor gente boa Jefferson De, recebeu os principais prêmios: Filme, fotografia, Crítica (e ainda de acervo, pelo Canal Brasil). Zezé Motta, de atuação irrepreensível, perdeu para Dedina Bernadelli, de JONAS, que foi o azarão da noite e venceu as favoritas Zezé e Laura Cardoso. O primeiro grande crime da festa.
JONAS ainda recebeu o merecido kikito de direção de arte. O polêmico AMOR SÓ DE MÃE levou o kikito de música (4Nazzo & Flu) e montagem. O divertido NO BAR levou o óbvio júri popular e o de direção. O RESTO É SILÊNCIO ficou com prêmio de roteiro para o tarimbado Paulo Halm e de ator, para Valdo Nóbrega. TERMINAL, uma animação excelente, ficou com prêmio especial do júri.
Regina Duarte, sem medo e bem pertinho do Gil, Maria Fernanda Cândido, Marcos Palmeira, José Wilker, Betty Faria e o próprio Gilberto Gil, entregaram os outros prêmios da noite.
Entre os latinos, não houve surpresas pela excelente qualidade de três deles, em especial, que dividiram todos os prêmios, com destaque para LOS LUNES AL SOL, que ganhou quatro kikitos (filme, diretor, ator para Javier Bardem e crítica).
O uruguaio CORAZÓN DE FUEGO recebeu dois: especial do júri e júri popular e o belo argentino LUGARES COMUNES, o de melhor atriz, para a extraordinária Mercedes Sampietro. Qualquer um desses três poderia levar o prêmio principal.
A lamentar, apenas, que o ótimo Federico Luppi, de atuações notáveis nos filmes argentino e uruguaio, tenha saído sem prêmio algum.
Gramado surpreendeu um pouquinho entre os documentários. Todos os quatro eram de excelente qualidade, mas O PRISIONEIRO DA GRADE DE FERRO era o favorito. Levou apenas o kikito da crítica, de forma avassaladora. À MARGEM DA IMAGEM foi o melhor filme e O RISCO, LÚCIO COSTA E A UTOPIA MODERMA o kikito especial do júri.
Tragédia mesmo veio na entrega dos kikitos principais da noite. Marcelo Serrado, que tem boa atuação no fraquíssimo NOITE DE SÃO JOÃO, bateu o excelente e favorito Marco Nanini, e os que corriam por fora, Lima Duarte, Herson Capri e Silvio Guindane. Betty Faria chegou a exclamar: E é uma surpresa mesmo… ao anunciar o nome de Serrado, que foi vaiado, menos por ele, mais por Nanini. Segundo crime da festa.
NOITE DE SÃO JOÃO ainda levou outra vaia, pelo inacreditável prêmio de fotografia, em outro crime, já que se há méritos em O PREÇO DA PAZ é a magnífica – se bem que nada original – fotografia. Dira Paes, uma das atrizes mais queridas de Gramado, levou o kikito de atriz coadjuvante. Dira merece, não por esse filme, em que pouco pôde fazer. De qualquer maneira, foi um prêmio bastante aplaudido. Maria Fernanda Cândido era a aposta certa da noite, menos por seu talento e mais pela absoluta falta de concorrência. Apenas a fraquíssima Fernanda Rodrigues, de NOITE DE SÃO JOÃO, no caminho, já que o papel de Giulia Gam no épico O PREÇO DA PAZ é coadjuvante. Aliás, Giulia merecia o kikito pelo menos nessa categoria.
Wilker, amigo de Cândido, ainda disse um merecidamente na hora de anunciar o nome da brasileira mais bonita do século, pra dar mais uma força. Maria Fernanda dá vitalidade para a sua Capitu, mas não alcança momentos dramáticos de modo satisfatório. Desconta-se, é claro, o fraco roteiro de DOM, com diálogos absurdamente mal escritos para quem é tão bom no teatro (Moacyr Góes).
Ator coadjuvante, outra surpresa. Fábio Nepô, de atuação regular em DE PASSAGEM, levou o kikito. Emocionou-se e emocionou a platéia. DE PASSAGEM foi o grande vitorioso, recebendo os principais kikitos, melhor filme, diretor, roteiro e crítica. O júri premiou a equipe mais jovem, num ato quase de protesto pela baixa qualidade desse ano. Mas, com certeza, era a equipe mais disponível e simpática da semana festivaleira.
APOLÔNIO BRASIL, de Hugo Carvana, foi o grande perdedor do festival. Ganhou apenas um kikito, de consolação, prêmio especial do júri. Merecia o de ator e o de música, mas não levou. Música ficou com NOITE DE SÃO JOÃO.
O PREÇO DA PAZ, de méritos técnicos incontestáveis, ganhou os kikitos de direção de arte (um dos mais óbvios) e de montagem. E recebeu um terceiro, esse dos mais cobiçados, o do júri popular, prova que o filme responde bem ao público.
Acabou o festival, acabou a tietagem. Três horas depois do final da festa de encerramento, Gramado era a própria cidade fantasma. Uma chuvinha fina caía na madrugada, com cara de mudança de temperatura. Papéis, garrafas e outros lixos atirados pela rua principal, absolutamente vazia. Falta de luz. Poucos carros. Todos estavam dançando nas festas e raves, tentando dar um último beliscão na bunda de algum artista. E em matéria de festa, Gramado é insuperável.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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