TERCEIRO DIA – 14 de agosto
Gramado FRIO: temperatura em declínio, ventos gelados durante o período.
A terceira noite oficial do Festival de Cinema de Gramado era reservada a uma homenagem a Roberto Farias, diretor de O ASSALTO AO TREM PAGADOR e PRA FRENTE BRASIL. Algumas figurinhas tarimbadas de Gramado deram o ar da graça, como Beth Faria (sem o carro aberto de outros tempos), Beth Mendes, Lima Duarte, entre muitos outros.
A noite começa com o curta VINTE E CINCO, de Maria Ribeiro, uma atriz (de TOLERÂNCIA) que pela primeira vez dirige. É um filme despretensioso, bonitinho, que conta com a participação da ex-Casa dos Artistas Bárbara Paz – que dizem as más línguas está com o ego nas alturas. As lembranças de uma jovem de vinte e cinco anos em Búzios: a adolescência e a entrada nos quase-trinta. A trilha bacana dos Los Hermanos e a produção do marido Paulo Betti garantem qualidade na estréia da carioca.
Em seguida, o Rio Grande do Sul pôde se orgulhar, mais uma vez, da qualidade do pessoal da Casa de Cinema de Porto Alegre. DONA CRISTINA PERDEU A MEMÓRIA, de Ana Luiza Azevedo, é um belíssimo trabalho da premiada diretora de TRÊS MINUTOS. Os encontros de dois vizinhos, um menino de oito anos e uma senhora de oitenta, rende momentos de extrema poesia. Dona Cristina é uma senhora que só tem a memória afetiva: recorda-se do marido, do filho aviador, dos seus traços familiares. Mesmo seu nome é inventado: ela não gosta do original. Antonio é o vizinho que anda de bicicleta pelo quintal, e a todo momento se depara com uma pequena vala que não consegue atravessar. O filme fala de como suas vidas se cruzam, as descobertas do menino, as lembranças da idosa, e como Antonio acaba entrando na memória afetiva da vizinha. Nem oito nem oitenta, eles precisam encontrar o caminho do meio.
A direção de atores é excelente. Os novatos Pedro Tergolina e Lissy Brock estão muito bem, e o filme dependia 99% de suas atuações. Há passagens de um simbolismo forte, que pode render várias interpretações: o construir e desconstruir da cerca, as voltas em círculo da bicicleta, os encontros e a memória em círculos, o patinho na passagem do tempo, os objetos guardados…
DONA CRISTINA foi ovacionado pela platéia, e é um dos meus favoritos até agora, junto com o cearense O CÉU DE IRACEMA.
O terceiro longa em competição foi o uruguaio ESTRELLA DEL SUR, de Luis Nieto, que também gira em torno do passado, da memória, do tempo. Uma família volta ao Uruguai depois de um longo tempo vivendo na Espanha. Gregório (o ator Jean Pierre Noher, de UM AMOR DE BORGES, premiado em Gramado no ano passado) tem um segredo – armas escondidas no seu tempo de guerrilheiro – que compartilha com o filho, (Roger Casamajor, que foi visto no filme SALVAJES, em première aqui em Gramado) e a partir daí a vida deles se transforma.
O grande problema do filme é o roteiro. Ele perde o foco a todo o momento, ora se centrando no filho e na namorada, ora na namorada e na mãe dela (Laura Schneider, de NETTO PERDE SUA ALMA, toda editada na obra), ora em Gregório, sua esposa e sua filha. No final, as ações perdem força e interesse, e o bom elenco não consegue fazer muita coisa.
Após o intervalo, teve a premiação do SUPER 8. O grande vencedor da noite foi JARDIM DE ALÁ, com alguns prêmios indo para CIRCO, TERRA DE SILÊNCIO e O CASAMENTO DE JACUTINGA. Foi quando ocorreu o momento alternativo. Uma mulher surge no palco berrando, com camisa de força, “eu só quero criar”. Coisa super cabeça, da galera do cinema desconstrução. Outro momento engraçado foi quando a apresentadora chamo um dos vencedores de Osmar. Ele disse que era Osnei, e ela responde: “Nossa nem Oscar nem Osmar…”.
Em seguida, a homenagem a Roberto Farias, com direito a um clipão bem meia-boca. Mais homenagem aos já premiados com o kikito, e o festival teve seu momento anos 70.
Kátia D’Angelo, premiada em Gramado por BARRA PESADA, pega o microfone e faz um discurso sobre a violência urbana, relembrando a morte de seu filho, assassinado. Deixa perguntas aos governantes e abre o casaco, mostrando uma camiseta com um grande ponto de interrogação de purpurina verde e amarela:?
A platéia aplaudiu, e esse tipo de mico também faz parte do festival.
Reinicia a segunda parte com o curta ZAGATI, de Nereu Cerdeira e Edu Felistoque. Com um personagem maravilhoso, um catador de papel apaixonado por cinema que encontra pedaços de celulóide e resolve fazer sessões de cinema na periferia, ZAGATI conquistou a platéia. Confesso que achei o curta bom, mas acho que poderia resultar numa obra muito mais emotiva, pela natureza rica do personagem. De qualquer maneira, vale a pena.
Para terminar a noite, UMA ONDA NO AR, de Helvécio Ratton. A história de uma rádio pirata na favela e sua influência na comunidade rende um filme completamente equivocado. De boas intenções o inferno está cheio, e UMA ONDA NO AR é um desfile de clichês e discurso panfletário. Ingênuo, trata do racismo como se fosse um trabalho em grupo da quinta série. Personagens caricatos, a velha história maniqueísta, com direito a punição para quem pega o caminho do mal, marginal.
Não foi uma boa noite. Aguardemos a quarta noite, que terá a pré-estréia especial de A PAIXÃO DE JACOBINA, desde já tido como uma das coisas mais constrangedoras já vistas por aqui, a julgar pelo burburinho de quem já assistiu, em pré-pré-estréia.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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