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categoria: 2002

SEGUNDO DIA

SEGUNDO DIA – 13 de agosto

Gramado CHUVOSO: 16 graus, neblina pela manhã, muita chuva no resto do período.

O dia era de Marieta Severo, todos os holofotes estariam voltados para ela. Ela seria a primeira atriz homenageada com o troféu Oscarito, no segundo dia do Festival. A apresentação da noite coube aos jornalistas gaúchos Tânia Carvalho e Clóvis Duarte, que passaram por várias saias justas durante a cerimônia. Nada que se compare, é verdade, à sutileza de Bira Valdez, um dos apresentadores da primeira noite, que após a entrega de um prêmio especial a vencedores de kikitos disse para os homenageados: “Ok, por favor, podem se retirar do palco!”, para espanto da cansada platéia.
Aliás, a platéia no Festival de Gramado é um caso à parte. Como são poucos os ingressos para o público serrano, a maioria dos espectadores é gente do cinema, produtores, atores, jornalistas, diretores, técnicos, penduricalhos, etc. É justamente este pessoal acostumado com o ofício que não cansa de proporcionar péssimos exemplos: celular ligado que toca e, ainda por cima, é respondido em meio à sessão (será que estão sempre em busca de fatos novos e informações imprescindíveis?), um entra e sai interminável, aos papos no meio dos filmes – tem gente que entrou na segunda noite faltando dez minutos para o filme argentino terminar, e por aí vai.
Mas o lado positivo foi que a segunda noite competitiva foi incrivelmente superior à primeira. A começar pelo curta O CÉU DE IRACEMA, do Ceará. Dirigido por Iziane Mascarenhas, são vários os trunfos da obra: o roteiro sensível, sem diálogos, a bela fotografia do premiado Antonio Luiz Mendes, a montagem, a trilha sonora que praticamente atua junto, e a atuação das duas crianças na fase dos seus onze-doze anos. É a história de uma disputa de pandorgas entre um casal, piruetas no céu azul da praia de Iracema num embate visual belíssimo. É desde já um dos favoritos e, com certeza, não vai sair de Gramado de mãos vazias. Foi muitíssimo aplaudido pelo público.
Em seguida foi a vez de O FILHO DA NOIVA, do argentino Juan Jose Campanella, que já havia emocionado Gramado com o excelente EL MISMO AMOR, LA MISMA LLUVIA. A obra concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro e é, com certeza, favorita absoluta para abocanhar os principais kikitos da categoria Latino. É a história de um homem em crise, num país em crise. Rafael, Ricardo Darín, de NOVE RAINHAS, herdou do pai (Héctor Alterio, excepcional) um conceituado restaurante em Buenos Aires. Vive em conflito causado pela correria de seu trabalho, sempre envolto com clientes e fornecedores, um dos motivos da sua primeira separação. A ex-mulher não agüentou o desgaste, e Rafael vive se alfinetando com ela por causa da filha pequena. Junto a isso, ele enfrenta o drama da mãe que sofre de Alzheimer (Norma Aleandro, em atuação inspiradíssima) e da namorada que quer compromisso. O roteiro é delicioso, um filme com diálogos sensíveis e divertidos. Há quase mini blocos, pequenas histórias desses argentinos em dúvidas existenciais que procuram novos rumos a suas vidas. O elenco é excelente, principalmente por conta dos veteranos Aleandro e Alterio, que dão um show. Aleandro tem o olhar vazio de quem sofre da doença, e transita entre a ternura e a antipatia num piscar de olhos. Alterio faz o eterno romântico, que resolve se casar na igreja com a mulher com quem viveu 44 anos, e que agora está numa clínica. O FILHO DA NOIVA arrebatou a platéia, foi ovacionado e merece cada palavra dos elogios a ele dirigido, o que só vem a consolidar a excelente fase que o cinema argentino vem atravessando, o que esperamos que a grave crise econômica não venha a arranhar.
Intervalo. O Palácio está lotado, pois Marieta Severo está para receber a homenagem. Astros por todos os cantos, alguns pouco lembrados pelas tietes como Felipe Camargo e Alexandre Paternost, largados pelos cantos.
A entrega do troféu Oscarito é simples, precedida por um clipão dos momentos inesquecíveis de Marieta no cinema, como em BYE BYE BRASIL, VAI TRABALHAR VAGABUNDO II, CARLOTA JOAQUINA. Sempre politicamente correta, Marieta aceita a homenagem em nome de todas as atrizes brasileiras. Aplaudida de pé, com gritos de maravilhosa!. Ok, Gramado também tem seu momento Cannes.
Início da segunda parte. O curta O JARDINEIRO DO TEMPO, de Mauro Giuntini, é um tanto constrangedor, numa aventura futurista que tenta resgatar a memória do paisagista Roberto Burle Marx. Uma boa intenção que, infelizmente, resulta numa obra confusa e mal acabada, com atuações de Mark Hopkns, o estrangeiro de O CASAMENTO DE LOUISE, e Luís Mello, sem chances de brilhar.
Em seguida, um dos filmes mais aguardados da mostra nacional, DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA, de José Joffily, baseado na peça de Plínio Marcos.
As alterações do roteiro – a ação se passa em Nova York ao invés de Santos e é um casal, e não dois homens, os perdidos – são muito interessantes, mas o filme é tão cru que não chega a envolver. Dois imigrantes que discutem a dureza da vida soa um tanto artificial:eles vivem numa espécie de loft subterrâneo, meio estilizado demais, que não convence como podridão. A melhor coisa do filme é, disparada, a atuação de Débora Falabella, a aposta certa aqui em Gramado para o kikito de melhor atriz. Débora surpreendeu o próprio diretor e está muito bem. O papel, aliás, tem cheiro de prêmio: a velha história da menina que se masculiniza pela sobrevivência. Roberto Bomtempo não compromete, mas não é um ator que segure o interesse de uma obra tão centrada em apenas duas figuras. É por isso que a jovem Débora merecia um opositor melhor na guerra das palavras e violência em Nova York. A ressaltar as excelentes trilha sonora e fotografia. DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA é uma produção competente, e foi muito aplaudido.
Foi uma segunda noite revigorante, principalmente pelos equívocos da primeira. Gramado já valeu a pena por ela, mas é sempre esperançoso acreditarmos que vamos encontrar outros bons trabalhos pela frente.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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