QUINTO DIA – 16 de agosto
Gramado QUENTE: temperatura de verão, movimento crescente, engarrafamento de carros, patricinhas, mauricinhos e tietes.
OK, Gramado agora está com aquela saturação humana típica do Festival de Gramado. Carros e pessoas por todos os lados, mais do que a estrutura da cidade garantiria. Filas para tudo, inclusive para andar em algumas partes da rua. Esqueça aquele trajeto na frente do Palácio dos Festivais, você vai ficar preso na multidão jovem que substitui a frente da Casa da Velha Bruxa por aqueles postinhos de Porto Alegre: todos olhando todos, numa caçação geral e irrestrita.
Ok, também faz parte. Para quem está aqui desde o início da semana é um tanto irritante, mas a paciência, nessas horas, é a alma do negócio.
A última noite da mostra competitiva prometia ser longa, por apresentar quatro curtas, dois longas e mais a premiação nacional de 16 mm e da mostra gaúcha. O brasileiro da noite, SEPARAÇÕES, na voz do diretor Domingos Oliveira, ficou irritadíssimo com a possibilidade do filme passar lá pela meia-noite como de hábito. Exigiu que tudo fosse mais rápido. Bem que se tentou. Pela primeira vez, a noite oficial começa pontualmente às sete e meia, com meia dúzia de gatos pingados para assistirem a O ENCONTRO, do paranaense Marcos Jorge. Pena, porque perderam a obra mais inventiva da mostra de curtas. Um casal e um encontro. A diferença é a linguagem: cinemês. Foi criada toda uma sintaxe especial (por exemplo: eu feminino é Monroe e masculino é McQueen), não que faça diferença (a compreensão dos diálogos não é necessária), pois a primeira idéia do diretor era fazer um filme mudo. Cada corte revela, em plano e contraplano, um novo figurino, com várias referências a clássicos do cinema. Como se para cada situação fosse necessário um novo visual, específico. Foi muito aplaudido e deve abocanhar algum prêmio especial.
Logo em seguida, ALUMBRAMENTOS, de Santa Catarina. Dirigido por Laine Milan, é uma obra caprichada, com um roteiro sensível. Mas há alguma coisa que dá um tom exagerado, como se fosse tão esmerada para parecer bonita que acaba forçando a barra.
Chega a vez do longa mexicano, o último latino em competição. LA PERDICION DE LOS HOMBRES, de Arturo Ripsten, é um duro teste para manter a platéia acordada. Todo sussurrado, em preto e branco com pouquíssimos planos, é repetitivo e enfadonho, em nada fazendo honra à qualidade da cinematografia mexicana atual, de AMORES PERROS e E TUA MÃE TAMBÉM. O tédio se instalou na platéia. Quem não saiu (e foi impressionante como as pessoas debandaram), cochilou – ou quase.
Não tem intervalo. O pedido de Domingos é bem ouvido. Mas a premiação dos 16mm e da mostra gaúcha é tão demorada que de nada adianta. O grande vencedor em 16mm foi UM SOL ALARANJADO. Entre os gaúchos, ISAURA levou o de melhor filme, Vanise Carneiro melhor atriz por VAGA-LUME e Emerson Peixoto por ÚLTIMA TRINCHEIRA. Como sempre, surpresas, pois filmes como LEMBRA MEU VELHO e DONA CRISTINA PERDEU A MEMÓRIA foram completamente ignorados.
A noite prossegue com outro curta em competição: CHAMA VEREQUETE, do Pará. Dirigido por Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira, é uma homenagem sem muito brilho a mestre Verequete, um cantador de Carimbó. Convencional, pra não dizer chato.
O último curta em competição, COMO SE MORRE NO CINEMA, de Lueiane Corrêa tem cara de vitorioso. É a típica boa idéia que foi bem produzida. A história do papagaio de VIDAS SECAS, de Nelson Pereira dos Santos, invejoso pelo sucesso da cadela Baleia, que chegou a ser convidada para ir a Cannes é divertidíssima. Um (falso) documentário, com participação do diretor, dos produtores (Barretos) de Maria Ribeiro, a atriz principal que fala, de modo divertidíssimo, de seu dilema quando Nelson pediu que ela matasse mesmo o papagaio em cena. Junto a isso, uma condessa criou uma polêmica pela morte da cadela, e foi quase exigido que Baleia viajasse até a França para provar que estava viva. Tem um roteiro primoroso e, por ainda por cima falar de cinema, num festival que faz trinta anos, é o favorito.
Quinze para a meia-noite. De nada adiantou começarem na hora, a cerimônia sempre atrasa. O último brasileiro foi SEPARAÇÕES, do já premiado diretor de AMORES. É a mesma fórmula, meio Woody Allen, sobre várias etapas na separação de um casal. É um filme divertido, mas repetitivo, todo apoiado em diálogos rápidos, recheados de piadas cultas, que acabam cansando. A atuação sempre igual de Domingos Oliveira, o diretor, incomoda por seu jeito histriônico. Mas deve receber alguns kikitos.
E assim acabaram-se as mostras competitivas. Agora é esperar pela noite de premiação, esperando que Gramado não repita a velha acomodação e não reparta os kikitos, cada um ganhando alguma coisa. Veremos. O que ficou é a multidão ainda na rua, quase duas da manhã, na busca desesperada por clics e assinaturas…
Gramado respira o glamour, mas não pode se esquecer do cinema. A fraca mostra latina, em que o argentino é anos luz superior, é apenas um indício.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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