QUARTO DIA – 15 de agosto
Gramado GELADO: céu azul, com elevação da temperatura no decorrer do período
A quarta noite começa com o atrolho normal de Gramado nas vésperas do final de semana de um Festival de Cinema. As tietes agora estão cada vez mais ousadas e gritonas, de meninas a senhoras desesperadas por um autógrafo e por uma foto. “Chama aquele ali pra mim… como é o nome dele mesmo??”.
Noite da pré-estréia, fora de concurso, do PAIXÃO DE JACOBINA. As más línguas dizem que o filme é medíocre, mas só se fala nele e todos querem assisti-lo.
O primeiro curta da noite é O TEMPO DOS OBJETOS, de Bruno Carneiro. Todo realizado dentro da faculdade (USP), o filme tem um roteiro excelente e é uma boa surpresa: simples, barato (feito com filme vencido que eles ganharam de outras grandes produtoras) e bem realizado. Conta a história de um homem que vai encontrando pedaços de objetos pela casa, cada um deles remetendo a objetos antigos, guardados num sótão bagunçado da casa. Samuel Andrade e Nea Simões, atriz do tempo da TV Tupi, fazem o casal que vai vivenciando essas (re)descobertas e (re)organizando a própria memória e o próprio passado.
Em seguida, mais uma animação: O LIMPADOR DE CHAMINÉS, do gaúcho Rodrigo John, é uma brincadeira bobinha de um limpador que, ao cair do telhado, começa a ter visões e a fazer previsões para os vizinhos.
O único longa da competição oficial da noite é DURVAL DISCOS, de Ana Muylaert. Durval é um quarentão (o ótimo Ary França) que não desiste dos vinis. Vive com sua mãe (Etty Fraser, que deve ganhar algum prêmio em Gramado) e os dois decidem contratar uma empregada. Letícia Sabatella (com sotaque caipira e um cabelo engraçadíssimo) faz a misteriosa empregada que some e deixa uma criança de 5 anos, supostamente sua filha (a carismática Isabela Guasco). A chegada da menina dá nova vida à casa, com momentos hilariantes que foram aplaudidos em cena aberta pela platéia. Após isso, a própria estrutura do filme se assume: primeiro o lado A deste filme-vinil, depois o lado B, quando o suspense e o non-sense assumem o posto. Há uma guinada radical que incomoda, já que o início é tão divertido, mas não chega a destruir o filme. Há cenas sensacionais, como a do passeio de charrete e as do cavalo. A música, com pérolas da MPB, também dialoga com o roteiro. DURVAL DISCOS é apontado como um dos favoritos, por assumir uma estrutura diferenciada e por ter ótima direção. Há um plano seqüência inicial maravilhoso, com créditos espalhados pelas ruas de São Paulo (os nomes dos atores e equipe pendurados nos postes, em camisetas de pedestres, em cartazes pelas paredes…). Também merecem destaque as participações especialíssimas de Marisa Orth e Rita Lee.
É um filme que faz pensar, mas que diverte tanto no início que fica um gostinho de “ah, que pena” quando envereda para o lado B. De qualquer maneira, é uma das apostas de kikitos.
Após o intervalo, tivemos a exibição fora de concurso do curta O PRÍNCIPE DAS ÁGUAS, de Werner Schüneman e de A PAIXÃO DE JACOBINA, de Fábio Barreto. Mas sobre os filmes você fica sabendo mais tarde, na nossa coluna especial PREMIÉRES de GRAMADO.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
Comentários
Sem comentários para “QUARTO DIA”
Deixe um comentário