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categoria: 2002

QUARTO DIA

QUARTO DIA – 15 de agosto

Gramado GELADO: céu azul, com elevação da temperatura no decorrer do período

A quarta noite começa com o atrolho normal de Gramado nas vésperas do final de semana de um Festival de Cinema. As tietes agora estão cada vez mais ousadas e gritonas, de meninas a senhoras desesperadas por um autógrafo e por uma foto. “Chama aquele ali pra mim… como é o nome dele mesmo??”.
Noite da pré-estréia, fora de concurso, do PAIXÃO DE JACOBINA. As más línguas dizem que o filme é medíocre, mas só se fala nele e todos querem assisti-lo.
O primeiro curta da noite é O TEMPO DOS OBJETOS, de Bruno Carneiro. Todo realizado dentro da faculdade (USP), o filme tem um roteiro excelente e é uma boa surpresa: simples, barato (feito com filme vencido que eles ganharam de outras grandes produtoras) e bem realizado. Conta a história de um homem que vai encontrando pedaços de objetos pela casa, cada um deles remetendo a objetos antigos, guardados num sótão bagunçado da casa. Samuel Andrade e Nea Simões, atriz do tempo da TV Tupi, fazem o casal que vai vivenciando essas (re)descobertas e (re)organizando a própria memória e o próprio passado.
Em seguida, mais uma animação: O LIMPADOR DE CHAMINÉS, do gaúcho Rodrigo John, é uma brincadeira bobinha de um limpador que, ao cair do telhado, começa a ter visões e a fazer previsões para os vizinhos.
O único longa da competição oficial da noite é DURVAL DISCOS, de Ana Muylaert. Durval é um quarentão (o ótimo Ary França) que não desiste dos vinis. Vive com sua mãe (Etty Fraser, que deve ganhar algum prêmio em Gramado) e os dois decidem contratar uma empregada. Letícia Sabatella (com sotaque caipira e um cabelo engraçadíssimo) faz a misteriosa empregada que some e deixa uma criança de 5 anos, supostamente sua filha (a carismática Isabela Guasco). A chegada da menina dá nova vida à casa, com momentos hilariantes que foram aplaudidos em cena aberta pela platéia. Após isso, a própria estrutura do filme se assume: primeiro o lado A deste filme-vinil, depois o lado B, quando o suspense e o non-sense assumem o posto. Há uma guinada radical que incomoda, já que o início é tão divertido, mas não chega a destruir o filme. Há cenas sensacionais, como a do passeio de charrete e as do cavalo. A música, com pérolas da MPB, também dialoga com o roteiro. DURVAL DISCOS é apontado como um dos favoritos, por assumir uma estrutura diferenciada e por ter ótima direção. Há um plano seqüência inicial maravilhoso, com créditos espalhados pelas ruas de São Paulo (os nomes dos atores e equipe pendurados nos postes, em camisetas de pedestres, em cartazes pelas paredes…). Também merecem destaque as participações especialíssimas de Marisa Orth e Rita Lee.
É um filme que faz pensar, mas que diverte tanto no início que fica um gostinho de “ah, que pena” quando envereda para o lado B. De qualquer maneira, é uma das apostas de kikitos.
Após o intervalo, tivemos a exibição fora de concurso do curta O PRÍNCIPE DAS ÁGUAS, de Werner Schüneman e de A PAIXÃO DE JACOBINA, de Fábio Barreto. Mas sobre os filmes você fica sabendo mais tarde, na nossa coluna especial PREMIÉRES de GRAMADO.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras. Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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