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categoria: 2002

PRIMEIRO DIA

PRIMEIRO DIA – 12 de agosto

Gramado MORNO: 20 graus, céu azul e limpo.

Chegamos em Gramado sem o frio característico. Nada que remeta aos outros gélidos festivais. A primeira certeza: a organização se esmerou em trazer as estrelas para a serra – elas estão por toda a parte.
Em geral, os primeiros dias do festival são vazios de celebridades, mas desta vez, para comemorar os 30 anos, artistas com história mais ou menos ligada ao cinema estão por aqui desde cedo.
De cara, Débora Falabela, uma das favoritas ao kikito de melhor atriz por DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA se diz espantada com o circo armado, repórteres e fotógrafos em marcação cerrada com a Mel do Clone.
Paulo Betti, Daniel Filho, Murilo Rosa, Christiane Torlonni, Sueli Franco, Nívea Stealman, Mel Lisboa, Caco Ciocler (e vamos ficar só por aqui) estão passeando por aqui.
A noite de abertura promete ser longa. São seis filmes, dois longas, três curtas e um média. Logo de início, um pequeno contratempo. A minha visão é prejudicada pelo tamanho da criatura que se sentou bem a minha frente, que depois descobrimos ser o (pseudo) hollywoodiano Christian de la Fuente, astro de Driven, um filme de corrida automobilística com Stallone. O cara veio com sua excelentíssima, atriz de quinta também, que fez O Escorpião Rei. A dupla forma o casal internacional da vez. Vieram para ancorar alguns programas televisivos.
Começa a sessão, com atraso. ISMAEL E ADALGISA é um média mezzo documentário mezzo ficção, dirigido por Malu de Martino com Christiane Torlonni, Murilo Rosa e Bruno Garcia. Fora de concurso em Gramado, revela requinte na produção e traz à tona a história do pintor Ismael Nery e sua esposa Adalgisa, que resolve escrever após a prematura morte do marido, incentivada especialmente pelo poeta Murilo Mendes. Adalgisa, depois, tornou-se uma jornalista influente e polêmica. É interessante porque resgata nomes artísticos pouco conhecidos do público – à exceção de Murilo Mendes, reconstruindo um pedaço da nossa memória cultural.
O curta ONDE ANDARÁ PETRUCIO FELKER? é um divertido exercício de animação, dirigido por Allan Sieber, que critica os artistas de vanguarda e seus gênios inovadores. O final é meio bobinho, mas o curta foi bem recebido.
O curto AÇAÍ COM JABÁ, de Marcos Daibes, Alan Rodrigues e Waleriano Duarte acabou tendo a melhor receptividade da platéia. É uma comédia rasgada com Ernesto Picollo, num duelo de açaí pelo norte brasileiro. Divertido.
TAXI PARA TRES, o longa chileno de Orlando Lübbert, que teve bilheteria recorde no Chile, conta a história de um taxista que é seqüestrado por dois assaltantes, mas logo toma gosto pela coisa e passa a assaltar junto, por livre e espontânea vontade. É um filme regular, com poucos momentos interessantes, e com uma pseudo tentativa de fazer uma analogia com A ODISSÉIA (livro que a filha do taxista – chamado Ulisses – lê), que fica no meio do caminho. A projeção teve legendas estranhíssimas, de um verde escuro, abaixo da tela, quase imperceptível, um duro exercício para os olhos.
Intervalo. Após um tempo maior do que o previsto, a cerimônia prossegue com a nova Orquestra Brasileira de Cinema, regida por Celau Moreira, que executa clássicos cinematográficos e é ovacionada pelo público. Em seguida, uma homenagem a nomes que fizeram a história do festival. José Lewgoy, Walmor Chagas, Darlene Glória, John Herbert, entre outros, recebem um troféu comemorativo aos 30 anos da competição. Finalmente a sessão vai recomeçar.
É a vez do curta DOMINGO, de Gustavo Spolidoro, um dos queridinhos de Gramado desde o super 8, narra uma história triste, um vai e vem no tempo de Sandra, uma mulher que faz trinta anos e relembra seus momentos na praia gelada, quando tinha dez anos e a figura do pai por perto. Uma coisa meio desenterrar o passado de forma literal, escondido nas areias, que foi bem aplaudido pelo público.
QUERIDO ESTRANHO, o primeiro longa nacional a ser exibido, de Ricardo Pinto e Silva, tinha recebido boas críticas, principalmente com relação à atuação de Daniel Filho. Mas é decepcionante. A história do pai que, no dia do seu aniversário, começa a lavar a roupa suja não é nem um pouco original. Os velhos clichês mãe-submissa, filha-encalhada, filhos-revoltados, pai-sem-amor, clima-pesado estão todos lá. É um contínuo despejar de mágoas, situações forçadas e inverossímeis, com diálogos bisonhos (o texto é baseado na peça de Maria Adelaide Amaral, Querido Intruso) e atores mal aproveitados, em especial a ótima Ana Beatriz Nogueira, que faz a filha que se deu bem, num papel de baixo potencial dramático. Há participações curtíssimas de Paulo Betti e Teresa Seiblitz (a Dara, lembram?). Daniel Filho não consegue me convencer que seja um bom ator, e os melhores desempenhos ficam para Sueli Franco(a mulher) e Claudia Netto (a filha encalhada).
Foi um início de Festival um pouco morno, como a temperatura, e com algumas decepções. O que se confirmou foi que a sessão seria longa: terminou quase duas da manhã! A fome já era imensa, e o cansaço idem. Mas Festival de Cinema é assim, não é brinquedo não!

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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