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categoria: 2002

DEBATES DE GRAMADO

Uma das coisas mais interessantes de Gramado é o debate um dia depois da exibição oficial dos filmes. É uma oportunidade rara de escutar as intenções de cineastas e atores, de analisar até onde elas (as intenções) foram, de comparar leituras diferentes da mesma obra, de conhecer curiosidades de produção.
Em geral freqüentado por simpáticas velhinhas gramadenses, é também um momento de descontração, quando ouvimos bobagens desfiladas por tão compenetradas ouvintes, loucas por darem sua contribuição à sétima arte.
O debate dos curtas O CÉU DE IRACEMA e O JARDINEIRO DO TEMPO foi interessante porque mostrou, por exemplo, que a diretora do primeiro não gosta de seu curta de estréia, enquanto o diretor do segundo, visivelmente constrangido, prefere sua estréia a essa segunda obra. Aliás, Mauro Giuntini foi tão sincero, assumindo problemas graves de roteiro e edição em seu O JARDINEIRO DO TEMPO, que acabamos não desgostando tanto assim de seu filme, ou pelo menos entendendo as suas limitações. Já Iziane Mascarenhas, de CÉU DE IRACEMA, é tão doce que quase entendemos a poesia de seu filme só a escutando. O filme fica ainda melhor.
No debate de DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA, perguntas óbvias do tipo: “Ao colocar uma mulher no papel de homem não faltou coragem, por parte de vocês, de assumirem uma relação com fortes pinceladas homossexuais?”. A equipe meio que ficou na defensiva, com alguns comentários bobos. Na verdade, a inclusão de uma mulher como Paco não dilui, de maneira alguma, essa homossexualidade latente, pois ela é masculinizada, se faz passar por menino e se prostitui como tal, e, além disso, tem uma relação tensa sexualmente com Tonho. Mas a equipe nem falou sobre isso, tendo uma ouvinte apenas levantado a questão. Roberto Bomtempo falou sobre a dificuldade de algumas cenas, que chegavam a ter onze páginas de texto, sem corte. Quase um teatro filmado. Outra curiosidade foi a timidez de Débora Falabella, toda encolhida, fechada a não mais poder, assustadíssima com a sua própria ascensão e com uma fala toda entrecortada, nervosa.
No debate dos curtas VINTE E CINCO, ZAGATI e DONA CRISTINA PERDEU A MEMÓRIA reclamações gerais sobre o áudio: trilha baixa, fora de sincronia. Todos se sentiram prejudicados. Ana Luiza Azevedo ouviu elogios de todos por seu belo DONA CRISTINA…, e aproveitou para contar como descobriu os atores e se existe mesmo uma sensibilidade feminina ao dirigir uma obra. Jorge Furtado deixou escapar que, ao escrever o roteiro de TRÊS MINUTOS, achou o texto meio mulherzinha demais, e por isso chamou Ana para a direção. Comentário que o documentário NEM GRAVATA NEM HONRA poderia aproveitar. Maria Ribeiro jurou nunca mais se dirigir, pois disse ter sido muito difícil encontrar cenas aproveitáveis, sem que ela estivesse olhando (ao invés de atuando) para suas colegas de cena, observando o texto, as marcações.
O debate do curto dos estudantes O TEMPO DOS OBJETOS foi esclarecedor. O diretor Bruno Carneiro falou das dificuldades de fazer o filme, quase um exercício de paciência, com direito a filme vencido e tudo o mais. De qualquer maneira, é impressionante como eles conseguiram driblar as dificuldades e apresentar um produto de qualidade.
Mas divertido mesmo foi o debate da turma de DURVAL DISCOS. Aplausos a todo momento, Etty Fraser revelou a importância de filmar e de como isso transformou sua vida. Ary França com sua cara engraçada contou como a diretora cortou suas caretas e como conseguiu uma boa atuação, contida e divertida.
A diretora Ana Muylaerte falou sobre sua aposta no roteiro (selecionado pelo Sundance), e também na transformação do filme em lado A e lado B, completamente diferentes um do outro.
Foi divertidíssimo e ainda contou com a aparição relâmpago do excêntrico Pereio, que elogiou o filme, dizendo ser este o caminho do cinema brasileiro, falou mal de A PAIXÃO DE JACOBINA e saiu tão logo terminou seu comentário. Uma cena antológica que só os bastidores do Festival podem revelar.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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