Tive meus momentos de ator global na tarde de quinta-feira, quando encontrei meus ex-alunos do Colégio Leonardo da Vinci. Fotos, abraços e carinho. Eles iriam assistir aos curtas, no último dia da mostra competitiva. Ano passado, eu coordenei um projeto no qual eles tiveram que adaptar um conto, escrevendo o roteiro e produzindo um filme.
Também reencontrei uma velha amiga, Isabel Ferrari, repórter da RBS TV, que fazia uma reportagem sobre quem faz curta-metragem no Brasil, para ser exibida no Jornal Hoje, da TV Globo.
Meus alunos e minha amiga jornalista não tiveram muita sorte. Foi a tarde mais fraca da mostra, reservada a filmes experimentais, quase herméticos: AREIA, HOMENS, UM RIDÍCULO EM AMSTERDÃ e BOOKER PITTMAN.
AREIA, de Caetano Gotardo, traz imagens do mar, da areia. Uma mulher e um adolescente. Rememorações? Ela (Malu Galli) se lembra dele (Rafael Rodarte). Ele diz que ela tem 16, mas obviamente ela é mais velha. Ele morreu? Não há pistas. Um trabalho esteticamente muito bonito, mas que deixa muitas lacunas a serem preenchidas. Vago como as ondas que deslizam na areia.
HOMENS, documentário capixaba, dirigido por Lucia Caus e Bertrand Lira, conquistou a platéia pela simplicidade da idéia, mas, também, pela simplicidade dos depoentes. Com uma câmera na mão, a dupla percorreu o nordeste brasileiro em busca de personagens masculinos que assumiram sua homossexualidade, a maioria deles tendo também assumido o travestismo. Encontraram vários exemplos carismáticos, gente muito humilde que vive em lugares muito pequenos e, ainda assim, escancararam suas vidas sem medos. Ainda que o documentário em si não apresente nada de inovador, com uma linguagem tradicional de depoimentos, a força do trabalho reside justamente na capacidade de escolha desses divertidos personagens.
UM RIDÍCULO EM AMSTERDÃ, de Diego Gozze, também é um trabalho experimental, um falso documentário sobre um cara que ganhou passagem ida-e-volta para a cidade holandesa, por conta da pior fantasia numa festa do ridículo. Fingindo não saber que estava sendo filmado, o personagem passeia pela bagunça de seu apartamento enquanto conversa com o diretor.
A tarde encerrou com o esteticamente belíssimo BOOKER PITTMAN, de Rodrigo Grota. A fotografia em preto e branco e a trilha são os pontos fortes desta obra enigmática, que mostra cenas ficcionalizadas do músico norte-americano que veio ao Brasil. Sua enteada, Eliana Pittman, aniversariante do dia, estava na platéia e ficou emocionada, tanto com o curta, como com o “parabéns a você” entoado por todo o público presente no Palácio.
Enfim, ainda que todo o festival de cinema precise reservar espaço para obras mais experimentais, a pouca participação da platéia mostrou que os filmes em exibição eram para poucos.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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