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categoria: 2008

O MILAGRE SEGUNDO MATHEUS

Onde está o travesseiro?

O último filme estrangeiro a concorrer em Gramado tinha uma assinatura luso-brasileira. O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA, dirigido por Jorge Paixão da Costa, é uma produção caprichada, esteticamente muito bem trabalhada, mas completamente vazia.

 

Misturar as páginas de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão com a recepção do folhetim, na época, mostrando tanto de onde saía a inspiração dos escritores, como as dúvidas da população portuguesa sobre quem era quem dentro da ficção, é uma excelente idéia. Entretanto, o roteiro nunca chega a decolar. Há excessivos diálogos, cenas longas que poderiam ser editadas, marcas, aliás, da cinematografia portuguesa, que é, infelizmente, mal vista pelos próprios portugueses (e aqui falo de um grupo intelectualmente acima da média, não dos populares). Os filmes portugueses, em geral, possuem um certo tom por demais teatral, um exagero na interpretação dos atores, enfim, um artificialismo gritante. Isso se observa neste filme pseudo-policial, que narra um crime (de amor?) envolvendo a alta sociedade portuguesa. Outro grave problema é uma certa preguiça na produção. Praticamente não há cenas externas, o que é uma pena, pois a bela cidade de Sintra (bem próxima à capital lusa, famosa por um dos mais deliciosos doces portugueses, o travesseiro) não chega a aparecer sequer uma vez. Também minha querida Lisboa (quase) não aparece – há apenas uma cena inicial e final, filmada no centro da cidade.

 

O elenco não é coeso. Rogério Samora (que judiou da platéia com seu português carregado, para muitos incompreensível) está uma caricatura, assim como a mocinha, a belíssima Bruna di Tullio, uma espécie de Ana Paula Arósio portuguesa. A dupla que protagoniza os escritores (Antonio Pedro Cerdeira e Ivo Canelas) está muito bem. Também há espaço para atores brasileiros, como o sumido Flávio Galvão e Giselle Itiê, mais uma vez estereotipada como a latina sexy.

 

A trilha sonora carrega demais no drama. Ainda que saibamos que existia uma certa intencionalidade de uma representação over, tendo em vista que um folhetim é por si só rocambolesco, o tom pesado e lento de O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA provocou mais bocejos do que aplausos. 

 

 

O milagre segundo Matheus

Mesmo antes de ser exibido, todo o burburinho entre os filmes nacionais do 36º Festival de Cinema de Gramado era para A FESTA DA MENINA MORTA, dirigida por Matheus Nachtergaele, obra que participou da mostra Un Certain Regard, em Cannes.

 

Antes, nos agradecimentos da equipe, Paulo José (que tem, como o próprio disse, uma participação afetiva inventada por Matheus) e Cássia Kiss encheram o diretor estreante de elogios.

 

E não foi à toa. Matheus surpreende com uma direção segura e inventiva – repleta de planos-seqüências de tirar o fôlego –, com obviamente um trabalho muito especial na direção de atores.

 

A história tem a cara do Brasil. Numa comunidade no norte do país, a adoração de todo um povoado a um jovem que encontrou o vestido de uma menina devorada por urubus. Além disso, após o suicídio da mãe, Santinho a faz reviver. O filme mostra os preparativos para a festa de 20 anos da Menina Morta, quando Santinho recebe as palavras da menina.

 

Daniel de Oliveira está excelente no papel do temperamental  Santinho, beirando o histerismo. Desde já, o favorito ao Kikito. Também o elenco de apoio tem marca de qualidade, destacando-se a ótima Cássia Kiss (como a mãe que retorna), Jackson Antunes (o pai, que tem relação incestuosa com o filho), Dira Paes (uma das beatas) e Juliano Cazarré (que também aparece em NOME PRÓPRIO).

 

Nachtergaele construiu uma obra não muito palatável. Ao misturar o misticismo (é incrível a capacidade que temos para acreditar em mitos e santos) com outros tabus (as cenas de incesto entre pai e filho são bastante ousadas), A FESTA DA MENINA MORTA resulta num filme difícil, mas belíssimo. São cenas muito bem trabalhadas, estudadas, com uma mão firme do diretor. Com certeza, levará muitos kikitos para casa.

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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