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categoria: 2008

DIDI, CLÔ E CAMILA

Dando as boas-vindas

17 horas. Esqueça os casacos. A temperatura primaveril de Gramado, a capital turística do Rio Grande do Sul, trouxe uma leve decepção a nossos desavisados turistas-correspondentes que capricharam no figurino para o frio e sentiram-se em um filme equivocado. Um céu indeciso entre o azul e o nublado emoldurou a abertura oficial do Festival de Cinema de Gramado: concerto da Osquestra Sinfônica de Porto Alegre, com direito inclusive a execuções de obras da artista neo-clássica Madonna.

Didi Mocó

19 horas. “Divertidis ou emocionantis”. Os da poltrona aplaudiram com entusiasmo a justa homenagem a um comediante que nos faz rir há algumas décadas. Renato Aragão, o Didi, é o primeiro homenageado do Festival. Renata Boldrini, a anfitriã, tropeça um pouco no texto, mas anuncia a Homenagem Especial da Cidade de Gramado a Didi Mocó. Sim, percebe-se na programação deste ano que não faltarão homenagens no 36º Festival de Cinema de Gramado: de Walmor Chagas a Júlio Bressane, passando por Julio Garcia Espinosa e a Fundacine.

Em Hollywood, existe um ranking de nomes que trazem dinheiro e público aos cinemas. Por aqui, Didi estaria entre os cabeças, tendo em vista que seus filmes ultrapassaram, em muitos anos, as barreiras de recordes de público e bilheteria. Pois o simpático e simplório Renato Aragão subiu, assim, meio constrangido, até o palco do Festival. Recebeu aplausos de pé de boa parte da platéia e agradeceu com suas caretas típicas.

O martírio de Clô

Mas Gramado também é cinema, e o primeiro filme a ser apresentado, fora de competição, é o longa-metragem de Beto Souza, DIAS E NOITES. O diretor gaúcho tinha brindado, alguns anos atrás, a platéia gramadense com seu fraco (e constrangedor, sob alguns aspectos) CERRO DO JARAU, e agora a expectativa era grande com relação à livre adaptação da obra de Sérgio Jockyman, Clô, dias e noites. Na hora dos agradecimentos da equipe de produção, um recado para a maturidade da cinematografia do diretor e do cinema gaúcho.

Contudo, DIAS E NOITES carece de alma. Confesso minha torcida extrema para gostar do filme, que realmente é bem superior ao CERRO, mas, ainda assim… Talvez o problema seja o roteiro, que não consegue dar verossimilhança aos personagens. Ao tratar de um drama pesado que ultrapassa três décadas, falta consistência para que nos identifiquemos com os personagens. A história da mulher que decidiu ser gente, em vez de ser apenas mulher, e que empilha relacionamentos mal-resolvidos e violentos, não decola. É um desfilar de maridos que soa forçado. Situações anacrônicas não conseguem provocar o impacto desejado, como o caso da venda da mulher (Zé Victor Castiel passa a bola da vez para Dan Stullbach). Todos os maridos, a começar por Antonio Calloni, possuem um mesmo comportamento, estereotipado, de homem agressivo. Maniqueísta, há a velha armadilha dos bonzinhos e dos malvados. Faltou uma direção de atores mais dedicada para colocar situações mais sutis, tendo em vista a delicada temática da violência contra a mulher. Como resultado, diálogos pesados, didáticos, forçados, que se perdem em meio a uma profusão de cenas curtas.

Outro ponto complicado é a protagonista, vivida pela também produtora Naura Schneider. Naura não consegue passar a profundidade necessária de sua personagem, aliado ao fato de permanecer com a mesma cara durante os 30 anos. Há uma atriz que faz, durante uns 15 minutos de projeção, o papel de Clotilde na adolescência, e a transição para Naura é direta, causando estranheza na platéia. Lamentam-se também a música nervosa de Guto Graça Mello, que peca pelo excesso, e a edição, que mistura Porto Alegre e o interior do estado numa confusão espacial.

O Palácio dos Festivais, verdade seja dita, aplaudiu intensamente ao final da projeção, prova de que o novelão de Beto Souza pode agradar a um público não muito acostumado com o cinema.

Sexo, palavras e solidão

21h15. Sobe ao palco do Festival de Gramado um diretor que conhece, como poucos, aquele habitat. Murilo Salles e seus filmes já foram premiados por aqui, com NUNCA FOMOS TÃO FELIZES, FACA DE DOIS GUMES e COMO NASCEM OS ANJOS (seis kikitos). É inevitável que o diretor ou sua equipe subam outra vez aquelas escadinhas na noite de encerramento, no sábado, desta vez por NOME PRÓPRIO, um filme de baixo orçamento que provocou frisson na platéia, talvez um pouco esvaziada porque a obra não é inédita, já tendo estreado no eixo Rio-São Paulo. Gramado, neste ano, não exigiu ineditismo nacional, apenas regional, situação que foi criticada por vários jornalistas de outros estados, tendo em vista que o festival tem um caráter nacional.

Leandra Leal, nos agradecimentos, disse ser esta a primeira vez consciente em que vem à cidade, pois já viera na barriga de sua mãe, a atriz Ângela Leal.

NOME PRÓPRIO é um passeio da jovem atriz, que se entrega visceralmente ao papel e tem uma atuação que dificilmente ficará sem o reconhecimento de Gramado.

Baseado em vários textos da gaúcha Clarah Averbuck, filha do Tangos e Tragédias Hique Gomez, NOME é uma espécie de Inferno de Dante moderno. Conta a saga de uma guria que perambula pelas ruas de São Paulo, mas não se encontra. Uma mulher que tem crises de menina e que se perde entre relacionamentos de uma noite, apostas de um amor da vida que nunca chega, em meio a uma solidão completa. Tudo isso impulsionado pela internet. Enquanto escreve, Camila (Leandra Leal) divaga. As palavras explodem na tela, assim como vertem de seus poros. Para ela, a escrita é o que é. Não há retorno possível.

Camila coleciona homens com uma desenvoltura quase chocante, entre um gole de cerveja quente e pílulas. Sempre alterada, grita ao mundo por sua liberdade, numa anacrônica versão de uma rebelde dos anos 60 pregando por sexo livre. Mas é o amor que ela procura, enquanto digita palavras imperfeitas. Com uma produção impecável, contando com um bom elenco de apoio, NOME PRÓPRIO é uma obra experimental, que abusa dos palavrões sem nunca ser gratuito, que escancara sexo e nudez sem nunca ser apelativo. E, acima de tudo, é um exercício de atuação, no qual Leandra Leal choca-encanta-convence, seja cantando, trêbada, Pingos de amor em um pé sujo carioca, seja catatônica a espiar o mofo do edifício onde vive, seja histérica a limpar a casa e a esfregar as escadas do prédio, seja meiga quando se descobre – mais uma vez – apaixonada. Compreende-se por que o Festival escolheu NOME PRÓPRIO para abrir a mostra competitiva. O filme de Murilo Salles tem cara de festival, e prova que é possível, sim, com pouco dinheiro e muita competência, fazer cinema no Brasil.

Fim de festa

23 horas e 30 minutos. Procure os casacos. A amena temperatura deu lugar ao minuano serrano (sim, ainda é inverno), dando uma sensação térmica menor do que os 12 graus que o termômetro indica. O Palácio dos Festivais explode nos aplausos a Leandra Leal e libera sua pequena multidão para as ruas de Gramado. Quem tiver sorte, encontra um restaurante aberto. Quem tiver mais sorte ainda, pode se dar ao luxo de curtir uma sopa de agnoline feita em casa. Recuperando as energias para o dia seguinte.

- Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “DIDI, CLÔ E CAMILA”

  1. Gostei muito de Nome Próprio.
    Que filme visceral e verdadeiro.

    Já o do Beto, nem pretendo assistir…

    Posted by Carlos Correa | August 12, 2008, 17:45

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