Saudaciones
Paulo Betti está, desde segunda-feira, entre nós. O ator juntou-se a Renata Boldrini. O lado
positivo é que ele injetou um pouco de vida e humor às noites protocolares do Festival de Gramado. Verdade seja dita, quem realmente gosta de cinema quer mais é assistir aos filmes, e não ouvir os textos repetitivos – que já constam no catálogo distribuído à imprensa – e muito menos saber quais as estrelas que já estão na Serra Gaúcha. O lado negativo é que tamanha empolgação de Betti o transforma quase num narrador de turfe. Sua leitura é exageradamente enfática. Também essa vontade de ser engraçadinho cansa, mas Betti teve bons momentos, como quando arranhou um portunhol e lançou um manifesto contra la verguenza de hablar portuñol.
Papo-cabeça
Noite de homenagem a Julio Bressane, diretor pós-moderno que diz sempre em entrevista que não faz filme para o público, e sim para ele mesmo (ah, sim, então por isso é tãoo chato). Claro que os estudantes de plantão que sacam tudo de cinema tiveram orgasmos e lançaram seus gritinhos histéricos iu-hu para o debochado diretor, que deu uma chapoletada ao Festival: Acho estranho esse prêmio vindo de um festival que sempre foi azedo comigo.
Para continuar no clima da festa, e pulando para o fim da noite, Eryk Rocha, herdeiro de Glauber, trouxe seu documentário PACHAMAMA, que investiga a vida dos habitantes lá pelas bandas da fronteira tríplice Brasil, Peru, Bolívia. Rocha saudou o cinema invenção (o que quer que isso seja) e brindou a platéia já sonolenta (lá pelas 21h40 o filme começou) com uns 5 minutos de câmera mostrando um asfalto de dentro de um carro em movimento, mais uns 5 minutos de árvores passeando apressadas na beira da estrada, e mais uns 5 minutos de água correndo, e mais… Sim, talvez com a cabeça fresca e o espírito bem disposto a platéia teria paciência para chegar na tal população dos excluídos. Como o documentário inicia no Rio de Janeiro e meio que mostra a looonga jornada até o norte do Brasil, ocorreu uma debandada constrangedora. Era um tal de gente se levantando aqui e ali que dava vergonha.
Quando os primeiros depoimentos surgiram, as cenas da vida natural (pachamama é algo tipo mãe-terra) continuavam, ou seja, os depoimentos ficavam em off. Era difícil de entender o sotaque dos entrevistados, ainda mais que não contávamos com a sempre prática leitura labial. Enfim, a câmera segue a investigação e mostra os peruanos e bolivianos. O interessante é a visão que estes têm de nós e, mais, que eles acham que nós temos deles (os brasileiros acham que todos os peruanos são traficantes, disse um deles).
Ladrão que rouba ladrão…
Legal mesmo foi o representante estrangeiro em competição. PERRO COME PERRO, da Colômbia, foi uma
excelente surpresa, desde o roteiro, com ares de Tarantino, passando pela excelente atuação do elenco e chegando à ótima fotografia, com um filtro meio amarelado. O filme de Carlos Moreno tem cara de vencedor. Conta a história do submundo do crime colombiano, quando Victor (o ótimo Marlon Moreno), um bandidão, rouba de outro e faz jogo duplo. Uma série de acontecimentos faz com que o tal bandido – a platéia torce para ele – esteja prestes a sair ileso da falcatrua. Só que outros bandidos e um inusitado homem que telefona equivocadamente ao quarto de hotel de Victor atrás de uma tal de Adela (o que resulta numa ótima piada dentro do filme) querem estragar os planos do larápio.
A degradação dos personagens é metáfora óbvia aos vira-latas que aparecem durante todo o filme, seja latindo, seja babando na tela. Ao final, exauridos, os bandidos seguem tentando passar a perna um no outro, enquanto os cães se atacam e reviram os lixos.
Ótimos enquadramentos, excelentes seqüências de ação com câmera nervosa e produção bem-acabada fazem de PERRO COME PERRO uma produção que merece, com certeza, lançamento comercial no Brasil.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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