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categoria: 2008

E NETTO REALMENTE PERDEU A ALMA

Depois do relativo sucesso de NETTO PERDE SUA ALMA, dirigido por Beto Souza e Tabajara Ruas, e adaptado da obra deste último, filme que alçou ao estrelato o ator Werner Schünemann, chega ao Palácio dos Festivais, na terceira noite competitiva, o filme NETTO E O DOMADOR DE CAVALOS, uma espécie de início da saga já narrada no primeiro filme.

Quando da exibição de NETTO PERDE SUA ALMA, a imprensa fora do Rio Grande do Sul viu com desconfiança nossa espécie de pátria à base do facão. Muitos jonalistas ficaram, digamos, incomodados com o ufanismo que escorria pela tela e que provocou uma euforia na platéia gramadense. Com relação a NETTO E O DOMADOR DE CAVALOS, outra vez a calorosa ovação típica daqueles que endeusam a nossa cultura. Porém, desta feita, o filme fica muito aquém do original, e isso que era possível apontar vários defeitos no primeiro.

Talvez o maior problema de NETTO E O DOMADOR DE CAVALOS seja a indecisão de foco narrativo. Em quem queremos nos fixar? É óbvio que Tabajara Ruas, excelente escritor, sabia que tinha em mãos um personagem carismático que já lhe dera provas de sua força na tela. Por isso, essencial seria fazer o General outra vez aparecer. Mas também havia a itenção de mostrar o tal domador de cavalos, no caso o índio Sargento Torres. E ainda, de quebra, contar uma das mais belas lendas gaúchas, a do Negrinho do Pastoreio.

Três personagens tão fortes só poderiam roubar, um do outro, a atenção. Como resultado, sobram cenas campeiras, com aquela fotografia protocolar que já estamos acostumados, a mostrar como é lindo o meu Rio Grande, e falta unidade à ação dramática. Nem Werner, nem Tarcisio Filho conseguem segurar o filme, até porque pouco podem fazer com relação a seus personagens. Melhor sorte tem Evandro Elias, o novato que segura com competência a tarefa de interpretar o Negrinho. Entretanto, não tem culpa o ator de quase todas as suas cenas se restringirem à velha tática narrativa dos filmes sobre a escravidão: e dê-lhe chibatada. As cenas de espancamento ultrapassam o bom-senso. Acaba que tais cenas não atingem o efeito desejado, de emocionar ou chocar; elas se tornam apelativas.     

Junto a isso, há uma infinidade de personagens secundários desinteressantes, alguns equivocadamente interpretados, como foi o caso de Zé Adão Barbosa e do estreante e inexpressivo Ian Ramil, e outros que nem têm chance de aparecer, como todo o núcleo feminino do casarão (com exceção talvez de Ivete Brandalise, que transforma suas poucas cenas da avó má em algo digno de nota).

Outro problema preocupante é a pretensão. Um filme épico deve abusar de grandes cenas. Um filme épico no pampa gaúcho abusa das carreiras, mas quando não há qualidade técnica na hora da filmagem, resulta no que se viu: constrangedores closes no rosto dos atores simulando a tal corrida de cavalos. Também a qualidade da fotografia é irregular. Há belíssimas cenas e outras amadoras, com cara de vídeo, e não de película.

A elogiar podemos citar a belíssima trilha sonora de Vítor Ramil, um dos músicos mais interessantes do Rio Grande do Sul, e algumas cenas realmente belas, como o grito de dor de Maria, a namoradinha do Negrinho, em meio às flores amarelas, cena aliás tomada emprestada de Spielberg e sua A COR PÚRPURA.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “E NETTO REALMENTE PERDEU A ALMA”

  1. Concordo completamente.

    Posted by Maria | November 29, 2008, 9:29

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