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categoria: 2008

CRENÇAS NO LIQUIDIFICADOR

Passeio por Gramado acompanhado por meus alunos do Colégio João XXIII, uma gurizada que está a pleno vapor na construção de seus roteiros e na produção de seus filmes curtas-metragens, dentro de um projeto do qual sou um dos coordenadores.

 

Eles assistiram, pela manhã, à reprise da noite oficial. Judiaria. Viram o mexicano COCHOCHI (e resmungaram e reclamaram e dormiram), obra incrivelmente humilde, amadora, que por trás de uma linda intenção, esconde uma proposta muito pobre. É o típico filme em que precisamos buscar metáforas para justificar nosso apreço, talvez porque seja politicamente incorreto falar mal de obra tão simplória. Então se pensa no poder da escola, nas dificuldades de um povo realmente humilde. Uma aluna até me perguntou: Qual é a metáfora do cavalo… sim, sor, deve ter uma. Enfim, uma busca desesperada de o filme se fazer realmente cinema. Mais tarde, riram com os divertidos velhinhos de JUVENTUDE. Gostaram do filme, ainda mais tendo eles seus 15, 16 anos e toda uma vida pela frente. JUVENTUDE, aliás, é um caso comum em Gramado, de um filme também simples (baixo orçamento), mas que conta com a qualidade de um Domingos Oliveira, que outra vez acerta a mão, escreve um divertido roteiro e dirige muito bem o excelente Paulo José e o diretor teatral, em ótima atuação, Aderbal Freire Filho.

À tarde, um tema pesado para a reflexão dos adolescentes: o aborto, do ponto de vista de Carla Gallo, diretora do documentário O ABORTO DOS OUTROS. Gallo agradeceu a presença daquela juventude na platéia e pediu que se olhasse o filme sem o preconceito, sem o estigma do sou contra ou sou a favor. Isso porque a obra de Gallo realmente provoca um nó em nossas convicções, sejam elas quais forem.

 

O ABORTO DOS OUTROS tem, como fio condutor, a prática do aborto em uma menina de 13 anos, estuprada. Ao longo da história dessa menina, que ainda desenha casinha (e uma maçã – a fruta do pecado) em seu caderno, surgem outras mulheres que fizeram ou farão o aborto, alguns legalizados, outros não. É o caso da mãe que chora, depois de tentar durante anos uma gravidez, ao abortar por conta de uma má-formação de alguns órgãos. Ou da mulher que também chora, por ter sido presa depois de ter abortado, fruto de outra violência sexual (mas talvez por ser negra, não acreditaram nela e ela se viu obrigada a interromper a gravidez em uma clínica clandestina. O pós-operatório problemático obrigou que ela procurasse um hospital, quando foi denunciada. Presa. Algemada).

E justamente quando estamos indignados com a lei brasileira, surge o caso da mulher que abortou 5 vezes, porque quis. Não há uma justificativa.

 

E precisa haver uma justificativa? Ou a mulher simplesmente pode decidir por abortar quando bem entender? Muito mais do que respostas, obviamente Gallo nos oferece perguntas, que fermentam nossas crenças e nos levam ao debate. E é isso o que se espera com um documentário bem realizado.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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