// você está lendo...

categoria: 2008

A TARDE É DA RÊ BORDOSA

Na mostra competitiva dos Curtas de Gramado deste ano, há, até agora, uma qualidade muito superior às edições passadas. Na segunda tarde de competição, foram exibidos quatro curtas: O PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS, SUBSOLO, OSÓRIO e DOSSIÊ RÊ BORDOSA.

O primeiro, uma produção pernambucana, trata de uma metáfora interessante: um homem enlouquece acreditando ser George W. Bush. Na trama, dirigida por Camilo Cavalcante, Carlos (boa atuação de Silvio Pinto) assiste às declarações do presidente das Estados Unidos nas vésperas da Guerra contra o Iraque. Atordoado, o pacato cidadão avisa a esposa (a ótima Daniela Câmara) que está em regime de guerra. A tensão, adocicada pelo tom de comédia, cresce com o desfecho inusitado: a mulher é assassinada pelo marido ensandecido com uma faquinha de serra. Ou seja, vitória do poderoso dono da casa contra os fracos e oprimidos.

SUBSOLO, o único gaúcho em competição, é uma grata surpresa. Dirigido por Jaime Lerner, mostra os preparativos do suicídio de uma mulher que recentemente perdeu o filho. Porém, a tarefa é interrompida pela falta de energia, o que leva a mulher a se identificar com uma menina presa no elevador.

Sensível e com uma boa atuação de Carla Marins, o curta trata da dor e da solidão, abordando com respeito e sem ser apelativo um tema tão delicado quanto o suicídio.

OSÓRIO, representante paranaense, é um exercício estético pretensioso. A câmera registra a movimentação das pessoas na Praça General Osório, no centro de Curitiba, mas de interessante nada acontece. É claro que os cabeças de plantão poderão falar sobre a poesia do amanhecer da cidade, sobre o olhar cotidiano e sei lá mais o quê, mas de fato, OSÓRIO não diz a que veio.

Ainda bem que a tarde terminou com um curta inventivo e, desde já, um dos meus favoritos. DOSSIÊ RÊ BORDOSA, um falso documentário com um excelente truque: a investigação do assassinato de uma das personagens mais carismáticas de Angeli no final dos 80 traz personagens reais (o próprio cartunista, a ex-esposa dele, Laerte, entre outros) e os transforma em animação.

Rê Bordosa, uma das personagens favoritas do final da minha infância, era uma desregrada maravilhosa que só sabia beber e transar. Dublada pela Terça Insana Grace Gianoukas, o documentário é deliciosamente irônico e bem-escrito, com uma ótima cena de flashback que mostra uma pequena Rê Bordosa sem hesitar entre um bolo e uma garrafa de uísque em cima da mesa. O curta de César Cabral provocou uma calorosa recepção gramadense.      

Resta torcer para que o encerramento da mostra competitiva dos curtas mantenha o bom nível.     

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini

Comentários

Sem comentários para “A TARDE É DA RÊ BORDOSA”

Deixe um comentário