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categoria: 2004

TERCEIRO DIA: A NOITE COMPETITIVA

O VENTRÍLOQUO, O HOMEM E O FASCÍNIO

O calor segue em Gramado, e ontem acabou provocando chuva quase a tarde inteira. O clima quente, pena, é apenas literal. As mostras competitivas continuam decepcionando.
O primeiro curta apresentado na noite foi o gaúcho A FEIJOADA, dirigido por Jaime Lerner. Um elenco de nomes conhecidos dos porto-alegrenses, como Roberto Birindelli, Liane Venturella, Pilly Calvin, conta a história de um homem que, após uma feijoada, começa a trocar de voz com quem se aproxima. As boas dublagens garantem graça mais pelo inusitado do que pelo roteiro, que se perde absurdamente no final com discursos de bem-viver e com um desfecho desnecessário.
A IDADE DO HOMEM, curta que veio a seguir, é um trabalho experimental incompreensível. Cada cena tenta mostrar a astúcia do diretor (Afonso Nunes, também roteirista), ao retalhar esses fragmentos soltos que acabam não levando a lugar algum.
O longa da competição latina apresentado foi o português O FASCÍNIO, de José Fonseca e Costa. A obra, baseada em romance de Tabajara Ruas, inicia bem, com um interessante clima de mistério na reviravolta da vida de um homem de meia idade que recebe uma propriedade de herança. Ao vasculhar suas novas terras, o homem acaba deparando-se com suas origens e mergulhando num terrível pesadelo que envolve seus antepassados. O problema do filme é que ele se perde no roteiro, nos flashbacks terrivelmente amadores, e na indecisão de seguir uma linha implicitamente misteriosa ou mais policialesca. Como resultado final, fica muito abaixo das expectativas.

A CEGA E AS DESAPARECIDAS

Na segunda etapa da noite, a entrega do troféu Eduardo Abelin para Tizuka Yamazaki, em homenagem que não empolgou a platéia. Também foram entregues os prêmios de super8, com destaque para A ENTREGA, que levou três.
O terceiro curta da noite foi também gaúcho: MESSALINA, de Cristiane Oliveira. Conta a alteração na rotina de uma cega, vivida com competência por Vanise Carneiro, depois que ela atende um telefone público que toca, insistente. A moça se faz passar por garota de programa e isso quebra a monotonia de seus dias. O roteiro é interessante e há alguns problemas de direção que não chegam a comprometer. Como resultado, foi o curta mais aplaudido até agora. Mesmo assim, a mostra desse ano está bem mais fraca do que a do ano passado.
O longa que encerrou a noite foi PROCURADAS, uma produção catarinense mais falada por aqui pelo seu time de loiras do que por expectativas positivas. Pois venceu a obviedade. Entrou na tela um dos piores filmes brasileiros já colocados em competição aqui em Gramado. PROCURADAS parece Linha Direta, aquele programa global com reconstituições toscas. O elenco de beldades (Rita Guedes, Paula Burlamaqui, Cláudia Liz), lindas mas apenas medianas, nada pode fazer com um roteiro tão mal construído, uma direção tão preguiçosa e uma produção tão amadora. É triste falar assim de um filme nacional, ainda mais vindo aqui do lado, dos nossos irmãos catarinenses, mas PROCURADAS é uma grande piada, que fez a crítica sair da sala do cinema aturdida, questionando os critérios da seleção de Gramado.
O filme foi o primeiro a ser vaiado esse ano, com toda a justiça. Não tanto pela equipe, que pouco pôde fazer com tal orçamento reduzido, mas pelo absurdo de ser colocado na seleção oficial.
Mas sejamos otimistas… as coisas só podem melhorar.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor de Redação e Língua Portuguesa em escolas particulares de Porto Alegre, professor de Literatura na UFRGS e revisor de textos... ou simplesmente alguém que precisa das palavras. Voltou de Portugal, onde fez estágio de doutoramento em literatura na Universidade de Lisboa, com bolsa CAPES, mas deixou lá boa parte de si. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO, atualizada semanalmente aos domingos.
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